26.4.03

ESTE BLOG SE MUDOU PARA

http://soaressilva.wunderblogs.com

Clique, vá lá. Ora, vamos. Clique.







Trecho de um poema de Robert Frost
I´m liberal. You, you aristocrat
Won´t know exactly what I mean by that.
I mean so altruistically moral
I never take my own side in a quarrel.



MICROTEATRO

ou

TEATRO EM DEZ SEGUNDOS



Alexandre Soares Silva aponta uma pistola para um apresentador de tevê barrigudo, bigodudo, que leva um palito de dentes no canto de uma boca levemente parecida com a de um javali.

ALEXANDRE - (atirando cinco vezes no rosto do apresentador) Desgraçado!

(Caem miolos e cortina ao mesmo tempo)

Brought to you by the Ten-Seconds Production Company in association with Alexandre Soares Silva

25.4.03

Ateus
Existe algo de profundamente puritano num ateu. Ele vê o universo como uma espécie de müesli, a ser comido sem mel. Vê os dedos melados dos crentes, o fio dourado entre a colher e o prato, e franze o sobrolho com desprezo.


Arrependimento
Matou a mulher num acesso de ciúme. Horrorizado com o que tinha feito, usou a sua genialidade pra conceber uma máquina que o levasse de volta ao preciso instante do crime, para não o cometer mais. A alavanca foi acionada. Suspense.


C.S.Lewis, the Narnia Killer
Se o sistema solar foi causado por uma colisão acidental, então o aparecimento de vida orgânica neste planeta foi também um acidente, e toda a evolução do homem foi também um acidente. Se é assim, todos os nossos pensamentos são meros acidentes – o subproduto acidental do movimento dos átomos. E isso vale para os pensamentos dos materialistas e dos astrônomos tanto quanto para os dos outros. Mas se os pensamentos deles - i.e., do Materialismo e da Astronomia – são meros subprodutos acidentais, por qual motivo deveríamos acreditar que são verdadeiros? Não vejo razão para acreditar que um acidente possa ser capaz de me dar uma explicação correta de todos os outros acidentes. É como esperar que a forma acidental tomada por uma poça de leite, quando derramado de uma garrafa, explique corretamente como a garrafa foi feita e o motivo do derramamento.
(Answers to Questions on Christianity)


Espera
Releia o conto chamado Arrependimento, postado mais uma vez aí embaixo. Mas desta vez, ao terminar, leia de trás pra frente, lendo de vinte em vinte letras a partir da última letra, “e”. Deixei as letras em questão em negrito para facilitar a leitura.


Arrependimento
Matou a mulher num acesso de ciúme. Horrorizado com o que tinha feito, usou a sua genialidade pra conceber uma máquina que o levasse de volta ao preciso instante do crime, para não o cometer mais. A alavanca foi acionada. Suspense.

24.4.03

Jornalismo
Ouvi uma vez Fernando Morais dizer que quem não se interessa por Antônio Carlos Magalhães não devia ser jornalista, devia ir fazer outra coisa. Acho que esse é exatamente o problema com o jornalismo: um monte de gente que se interessa por Antônio Carlos Magalhães.

Isso, e que são gentinha. Mesmo pessoas interessantes como Paulo Francis - cuja morte eu quase, quase chorei - quanto mais jornalista era, quanto mais da patota do Pasquim, mais acanalhado. Quem disse o que ele disse sobre Ruth Escobar (sim, ela mereceu) is no bloody gentleman.

Vejo a vida de Paulo Francis como uma luta contra o jornalismo. Daí a sua depressão de dias, depois que seu romance não vendeu o quanto queria. Sentia a necessidade de escapar desse mundo acanalhado das redações, e suspeito que queria escapar até mesmo de alguns amigos, que entrarão para alguma espécie de história só porque tiveram a sorte de viver no mesmo bairro de um gênio.

No final, se não me engano escrevendo sobre uma exposição de Matisse, Paulo Francis lamentou o tempo que tinha desperdiçado na vida, lendo e escrevendo sobre Kruschev, Jango, e outras bestas.

Foi um gênio que viveu na favela do jornalismo. Quis escapar. Morreu antes. E até hoje os jornalistinhas brasileiros reclamam de seu pseudojornalismo - como se importasse se os seus textos seguiam ou não alguma espécie de cartilha infecta do que é jornalismo. Fico imaginando se um chefinho de redação o forçasse a escrever jornalismo de verdade; ah, as almas secas, cheirando a nicotina, que falam de jornalismo como se fosse uma ciência arcana. O que ele escreveu foi simplesmente as melhores linhas do jornalismo brasileiro, e se o jornalismo o renega, fica decapitado.



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Mas enfim. De qualquer modo, juro que nunca fui tão feliz quanto depois que acabou a minha assinatura da Folha. Meu rosto ganhou uma distinção encantadora.


23.4.03

Hitler, Brainy Boy
Sabe-se a profundidade de um homem pelo que escolheu para ser sua Bíblia. Indo de Para Ler o Pato Donald até a Bíblia, mesmo.

A Bíblia de Hitler era Winnetou, de Karl May.

Gosto de Karl May, é divertido. Um autor alemão que escrevia histórias de faroeste. Mas Hitler não apenas achava divertido, era o seu autor favorito, e pior ainda, o seu sábio favorito. Mantinha os livros de Karl May na cabeceira, e quando sob pressão, e estava sempre sob pressão, folheava esses livros em busca de sabedoria, conselhos de vida, soluções táticas. Juro, está aqui.

Esse texto que linquei foi escrito por um sujeito que visitou a biblioteca pessoal de Hitler em Washington. Ele disse que Hitler sublinhou a lápis a seguinte passagem do satanista Ernst Schertel: "Aquele que não traz dentro de si sementes demoníacas nunca será capaz de criar um novo mundo."

Posso imaginar um adolescente que gosta de heavy metal lendo essa passagem e ficando empolgado, mas um adulto não. Ok, na verdade posso imaginar qualquer um ficando empolgado - eu fiquei, um pouquinho - mas só durante alguns segundos; depois a pessoa percebe a tolice disso, e muda de assunto.

Hitler não, foi em frente. Que paspalhão, Hitler era.


Almas Complexas
O problema de um livro como este é que você vê essas fotos bonitas, em preto e branco, de pessoas atormentadas e complexas entre livros, e depois percebe com um choque que é só o Haroldo de Campos, caramba. E olha, escrevendo, ainda por cima.

Há livros assim no exterior, fotos P&B muito bonitas, muito cheias de luz e sombra, mostrando a cara vincada de algum escritor realmente interessante. Daí países como o Brasil ou a Guatemala copiam o método com seus sucedâneos de escritor, e não é propriamente a mesma coisa.

Todo o aparato para mostrar que quem está ali, cercado de cinzeiros cheios e papéis, dramaticamente plantado no centro de espirais de livros, é uma alma rebelde, um pensamento indômito, ou qualquer um desses clichês de foto preto e branco, e tudo o que você vê é o Josué Montello franzindo a testa.

Há também uma outra fotografia do Haroldo de Campos, suponho que escrevendo numa máquina, com um pôster de Laranja Mecânica atrás dele. O que me faz sonhar que sua campainha toque e seja alguém pedindo socorro, porque acabou de sofrer um acidente, e precisa urgentemente usar o telefone (if you know what I mean). Cantariamos todos na chuva, não?


THIS AZURE BOOK

See here in this azure book
The imprimatur of the comic monster,
Lord Lucipher of the ugly streets,
Undoer of all pretty scams.

And see here above the watermark
Where Magdalen wrote her curse
A quotation from Vitruvius,
Which you somehow cannot read.

Thus your life is read by mongrels,
And commented by sardines,
And your tears are illustrations,
And your sobs are lies and fleas...





22.4.03

Ateísmo
Minha principal objeção ao ateísmo é que ele é feio. Ele é feio... É como decorar mal a sua própria mente. Substitui os vitrais de Chartres por um quadro de mendigos comendo laranjas em Lambeth. É o bicheiro, o rapper, o documentarista checo das visões de mundo. O Paulo César Pereio da mente humana. Sim, insisto: o ateu tira Deus da sua sala mental (não suficientemente real, cru, entende?) e manda entrar o Paulo César Pereio pelado bebendo uísque. Com maior ou menor sofisticação, cada vez que um ateu fala, é o Paulo César Pereio que fala pela boca dele.

21.4.03

Complete a lacuna

a) Um livro não é papel. Um livro é feito de papel.
b) A mente não é o cérebro. A mente é feita de cérebro.

a) Um mesmo livro pode ter várias edições ao longo do tempo.
b) Uma mesma mente _______________________________

20.4.03

Insistindo, só para ser chato, pourquoi pas? Na Páscoa e tudo.
Você abriria mão de suas liberdades em nome da igualdade?
Se respondeu sim, é de esquerda; se respondeu não, de direita.
Se respondeu depende, que liberdades, está em algum ponto no meio, estando mais à esquerda quanto mais liberdades estiver disposto a ceder, e mais à direita quanto menos liberdades estiver disposto a ceder.
Me parece uma boa metodologia, uma variação da de Norberto Bobbio, que fez a distinção na base da prioridade dada à igualdade.
Por mais que esperneie, ninguém está fora da linha esquerda-direita.
E ninguém é desprezível por estar nesse ou naquele ponto da linha esquerda-direita.
É uma decisão pessoal.
Mas notem uma coisa:
Por definição, quanto mais à esquerda, mais a pessoa quer decidir por todas as outras.
Por definição.

19.4.03

A Sabedoria Viva de Alexandre Soares Silva
O ponto alto da história humana, digo a mundana, não a sagrada, foi atingida por Cole Porter, e por mim cada vez que ouço Cole Porter, e por você também. Mas dois minutos depois de terminada a música, se a ouvimos cada um em seu próprio apartamento, nosso espírito desinfla como uma bola que levou uma tesourada. Mas nunca quando ouvimos juntos; já reparou? Nunca, nunca.

Em algum ponto lá pela metade do século vinte, um pouco antes até, a humanidade descobriu um jeito de ser muito bacana. Durou até que Frank Sinatra ficasse careca. A humanidade caiu, caiu; quem era bacana envelheceu, passou a usar óculos grandes demais, dentaduras, perucas; que triste, que triste; seus filhos foram feinhos e tragicamente sem-graça; mas seus netos, às vezes – só às vezes – seus netos e netas, às vezes, colocam música da Broadway dos anos trinta, se vestem bem – é raro, mas acontece – e a humanidade volta a ser bonita durante uma hora ou duas.

A mundanidade tem suas próprias asceses, seus próprio santos e profetas. O melhor da mundanidade, presta atenção – o melhor da mundanidade é sagrado à sua própria maneira. No céu os santos dançam ao som de Paris Loves Lovers. Uns com os outros, chérie. Uns com os outros.

Sei lá eu o que se passa no céu, mas você acha que os filmes de Fred Astaire são uma imagem de quê? Onde mais existe aquela Veneza em preto-e-branco, aquele coreto em preto-e-branco, onde um dia você e eu nos protegeremos da chuva? Huumm?


A Sabedoria Viva de Alexandre Soares Silva (Melhores Momentos)
Se você for muito mundano, acabará encontrando um misticismo da mundanidade. Onde playboys se tornam santos, e no entanto continuam playboys. Cavando embaixo da toalha de piquenique se encontra um caminho que vai dar em Deus.


Meu mantra
You´re the top, you´re the top, you´re the top...

18.4.03

Relendo “Hannibal”
Thomas Harris pode não ser um estilista, mas há delicadezas nele, não verbais propriamente, mas de imaginação, que me agradam muito. Morre um agente do FBI em Hannibal, que mal havia aparecido no livro - e Harris diz que tanto Clarice quanto sua amiga Ardelia tinham uma certa queda por ele, quando eram suas alunas de tiro, e que They had tried to read his tattoo through his shirtsleeve. Só isso, e não se fala mais dele, praticamente. Gosto muito desse detalhezinho, é vívido e sutil. E Hannibal está cheio de momentos assim. Certo, ninguém falou em grande literatura, é comercial; mas como é bom, no meio de um livro que ninguém considera arte, encontrar momentos de grande arte, ou ao menos de delicada arte.

Um sábio (suponho que fui eu) disse: “Nem sempre a Grande Arte vem pela estrada da Grande Arte”. Or something . E é de fato divertido encontrar a arte escondida em arbustos, onde ninguém procura.

Outra coisa sobre Hannibal, claro, é que Hannibal Lecter é um grande personagem. Sim, é sim.


Murderer of English Sentences
Em The War Against Cliché, Martin Amis diz que Thomas Harris é "a serial murderer of English sentences, and Hannibal is a necropolis of prose". E o pior, e mais estranho, é que Lecter concordaria, e gostaria muito de Martin Amis.

Falei das delicadezas de imaginação, mas há também grosserias de imaginação. Sem dúvida. Personagens antipáticos suam. Canalhas têm mau-hálito. Mas, by God, my boy, eu adoro esse livro.

E nele há um monstro deformado que vive numa mansão gigantesca, e bebe martinis misturados com lágrimas de criancinhas. Se os irmãos Grimm tivessem coletado isso como conto de fadas, as pessoas diriam, ah, o povo, o gênio imaginativo do povo.


Lecter do Bem
O homem mais próximo de um Hannibal Lecter bondoso na vida real: Vladimir Nabokov. Gosto perfeito, sentidos despertos. Certo, não gostava de música, não tocava cravo, não construía teremins. Não era estranhamente imóvel, não tinha voz metálica. Tudo bem, tudo bem. Toda comparação entre duas coisas que não são a mesma coisa tem os seus limites. Mas mesmo assim, mesmo assim. O mais próximo que a vida real fez de Hannibal Lecter. E não estranharia se soubesse que ele tinha um palácio da memória. Nabokov via letras com cores e tinha, eu já disse mas repito, um gosto perfeito.

E insisto no bondoso. Acho que Paulo Francis estava errado, quando disse que Nabokov não tinha the milk of human kindness. Não deve ter lido Nabokov o suficiente. Meu Deus, Nabokov estava cheio de milk of human kindness. Dava pra fazer um gruyère of human kindness com ele.


Palmira
Não posso, suspeito que ninguém pode, falar de Nabokov sem falar de Palmira, do Radamanto (post de 1 de abril). E ah, sim: boa Páscoa.