31.12.02

DOIS GOLPES

1) Inimigo Morto
O golpe do Inimigo Morto é velho, mas muito eficiente. Funciona assim. Digamos que você tem inimigos ideológicos; você desenterra o cadáver de um antigo líder deles, e o usa para massacrá-los. Por exemplo: veja como a esquerda desenterrou agora o cadáver de Paulo Francis. Eles o usam para bater em quem não for de esquerda. Quando ele era vivo, me lembro bem, as pessoas de esquerda tinham nojo dele. Riam do jeito dele falar, ficavam irritadíssimos. Agora, eles o amam. Sempre que encontram um jornalista polêmico anti-esquerda, dizem a frase fatal: "Você não é nenhum Paulo Francis". Ou as variantes: 1) "O Paulo Francis ao menos era culto, mas você é uma piada", e 2) "Você se diz seguidor do Paulo Francis, mas ele rolaria no túmulo se soubesse disso" (essa última frase invariavelmente dita para alguém que jamais se disse seguidor de Paulo Francis).

2) Sério-cômico
Outro golpe: pedir a demissão de um jornalista anti-esquerda sob o pretexto de que ele "não é sério". Vocês podem acompanhar, abaixo da coluna do Sandro Guidalli no Comunique-se, por exemplo, vários jornalistas de esquerda pedindo a demissão dele e exigindo a presença de uma "Direita Séria" naquele site. Uma vez removido o exemplar da "Direita Cômica", é claro que vão exigir a demissão da "Direita Séria" em nome da presença de um "direitista que tenha algum senso de humor". "O Sandro Guidalli, ao menos, tinha algum senso de humor", etc. O que é uma sutil combinação do golpe do Sério-cômico com o Inimigo Morto.

30.12.02

Fascinante
Leiam a coluna do Sandro Guidalli no Comunique-se. Depois leiam os comentários, logo abaixo da coluna. É sempre fascinante ver os comentários de centenas de jornalistas de esquerda ridicularizando a idéia de que exista um número excessivo de jornalistas de esquerda.


Bem vindos, ó vós que entrais pelo Google
O golpe mais fácil para aumentar o número de pessoas que vêm para este blog através dos mecanismos de busca é colocar expressões do tipo “Nicole Kidman nua”, “Sandy nua”, e “imagem de beijo de língua de Sarah Michelle Gellar”. Mas de quê adianta isso, se o tipo de pessoa que viria atrás dessas coisas só daria uma olhada no meu blog, uma só, e depois iria embora para sempre?

O melhor, me parece, é atrair os tipos mais livrescos, que de fato gostariam das coisas que escrevo por aqui. Esses tipos voltariam todos os dias, aumentando o número de acessos continuamente. E me ocorreu que a melhor maneira de atrair esses leitores específicos é colocando as expressões mencionadas acima nas primeiras frases de vários romances famosos.

Tentemos, pois:

1) Quando pela primeira vez se tratou de convidar o Sr. de Norpois para jantar em nossa casa, como lamentasse minha mãe que estivesse Sandy nua e que ela própria houvesse deixado completamente de freqüentar Swann...

2) Chamai-me Nicole Kidman nua. Faz alguns anos – não importa quantos, precisamente -, tendo na bolsa escasso ou nenhum dinheiro e nada que particularmente me interessasse em terra, achei que devia velejar um pouco e ver a parte aquosa do mundo.

3) Alice estava começando a ficar muito cansada de estar sentada com sua irmã num banco, e de não ter nada pra fazer; uma ou duas vezes ela tinha espiado o livro que sua irmã estava lendo, mas ele não tinha nenhuma imagem de beijo de língua de Sarah Michelle Gellar, nem diálogos, “e pra quê serve um livro”, pensou Alice, “sem imagens de beijo de língua de Sarah Michelle Gellar nem diálogos?”

As variantes são infinitas. E nem precisamos ficar limitados à primeira frase de um romance: apaixonada por Vronski, Luana Piovani se atirando nua debaixo de um trem; Raskolnikov matando a machadadas duas gostosas lésbicas; Gregor Samsa acordando de sonhos inquietos e descobrindo que se transformou em Jennifer Lopez nua; etc, etc, etc.


Os males da inteligência
Escritores deviam ser burros – idéias só nos prejudicam. Tento ao máximo ser burro, mas minha inteligência natural explode como bombinhas e minha cabeça dói, dói. Outro dia meus pais me viram no chão, em posição fetal, desesperadamente agarrando a minha cabeça e arrancando chumaços de cabelo, e tive que explicar a eles que uma Importante Revelação sobre a Natureza Humana e a Existência Após a Morte estava me convulsionando. Eles colocaram um pedaço de cortiça entre os meus dentes e esperaram passar.

29.12.02

Ao ouvir um conselho para ler menos e viver mais
A vida real é inevitável - não é preciso aconselhá-la aos outros. Acho bobagem dizer para alguém que está lendo: Pare de ler e vá viver um pouco. É claro que a pessoa vai viver um pouco. Vai viver até muito. Só dá pra ler Aristóteles, Platão, Espinoza, no intervalo curto entre uma experiência e outra. Dizer para a pessoa ter mais experiências só significa dizer para ela ler menos.

Isso supondo-se que ler Aristóteles não é uma experiência. É tanto uma experiência quanto levar com um paralelepípedo no pé, acho eu. Ou ser assaltado num ônibus. (Se bem que devo dizer que li Aristóteles na adolescência e não me lembro de quase nada do que aquele brainy bird disse. Alguma coisa sobre as epopéias durarem anos e as tragédias o espaço de um dia.)

Já há tão poucas pessoas livrescas. As pessoas deviam ser ainda mais livrescas. Por mais que uma pessoa leia, devia ler mais e viver menos. Não há leitura que não seja interrompida pela vida, que é uma senhora desgrenhada que baba. Canos estouram no banheiro, cachorrinhos ficam com dor de barriga e têm que ser levados ao veterinário, e tias são estupradas e atropeladas justamente quando você está tentando ler a "Ética a Nicômaco"! É terrível!

28.12.02

Impossibilidade
A dor de se imaginar que não é possível ter um harém com todas as mulheres bonitas de todos os tempos. Garotas lindas de Curitiba na década de setenta, garotas moçárabes lindas de Sevilha, judias lindas da Bíblia – no auge da beleza. Algumas delas duplicadas, triplicadas, para cobrir mais de uma fase interessante: Elizabeth Taylor aos vinte e aos trinta e dois, por exemplo – ambas esperando por mim perto de uma fonte de lápis lazuli.

Dica de sedução
Li uma vez que um truque infalível para conquistar uma mulher era olhá-la como se você a odiasse. Bom, tentei com uma amiga, e ela perguntou o que é que estava me preocupando. "Não, nada", eu disse, imediatamente desfranzindo o rosto e voltando ao normal. "Você está esquisito", ela disse. "Sensual?", perguntei. "Não, só esquisito. Fala o que é que está te preocupando." "Nada! Estou bem! Juro!" "Hummmmm... Está esquisito..." A conversa continuou assim durante um tempo absurdo.

27.12.02

Distribuição de renda
Queria dividir a minha renda com o elenco amador do filme Cidade de Deus. Somamos todos as nossas rendas, e dividimos pelo número de pessoas. Pode incluir aí Walter Salles e o molequinho de Central do Brasil. Afinal, com o dinheiro que eu receberia ainda haveria tempo de ir passar o reveillon em Praga ou Paris. Mas nunca entendi direito como esse negócio de distribuição de renda funciona. Por exemplo: eles fazem depósito em conta? É parcelado?

25.12.02

Revelação
Cinco da manhã, devia ir dormir, mas estou tão acordado - a um anão de distância de uma Grande Revelação, Amazing Discovery Concerning the True and Bizarre Nature of the Universe! Five shillings! E, no entanto, tenho que dormir, vou dormir. Blast! By Gum!

24.12.02

Ao entrar no Paraíso
Quando se entra no Paraíso, se perdoa qualquer coisa que se tenha sofrido, e até mesmo se esquece qualquer coisa que se tenha sofrido.

A felicidade mais intensa é um vírus de computador que apaga da mente a própria noção metafísica da Dor.

Não é que você se esqueça do que aconteceu de ruim com você no passado — é mais que você se esquece de como foi ruim o que aconteceu.

23.12.02

Resenha
Um dos melhores livros que não li este ano é “Convite à Filosofia”, de Marilena Chauí.

Como foi bom não ler esse livro! É um livro particularmente bom de não ser lido. Melhor até do que "Die Untergang des Abendlandes". Me deitei na rede com ele, numa tarde morna, e cochilei com o dedo indicador marcando uma passagem que nunca será lida. De vez em quando acordava, olhava para o livro com carinho e desprezo e lia um outro livro qualquer. A vida se me tornou mais bela. Obrigado, Dra. Chauí!


Neste instante
Qual o próximo filme de marginal-coitado que está sendo feito neste exato instante?


Conto de Natal
Fiquei com vontade de escrever um conto de natal para os seus meigos filhos sardentos. Nele uma mulher chata e má diz ao sobrinho que Papai Noel não existe. A criança ouve chocada. Em seguida um velho estranho, que ouviu a conversa sem dizer nada, se oferece para acompanhar a mulher ao supermercado. No caminho, numa rua escura, ele pára pra remexer num monturo, e volta com uma barra de ferro e esmaga a cabeça da mulher, aos gritos de “Eu existo! Eu existo! Eu existo!” Mas me deu preguiça.


Outra resenha
Um motivo para comemorar o ano de 2002 foi não ter ouvido um segundo sequer do CD “Os Tribalistas”. É um bom CD para se ter e não ouvir. Ao não ouvi-lo, você se sente mais elevado, e com uma vaga mas persistente vontade de dançar. Nada torna um ambiente mais sofisticado do que um CD dos Tribalistas cuidadosamente martelado e esquecido numa caixa de sapatos. Obrigado, Tribalistas!



22.12.02

Universidade dos Sonhos
Nos meus sonhos, vou para a Universidade de Quaresmeiras, que fica num prédio projetado por Christopher Wren numa cidade do paraíso. Lá, os seguintes professores dão as seguintes aulas:

2:00 – 3:00 – J.R.R. Tolkien: Literatura e Língua Finlandesa
3:00 – 4:00 – C.S.Lewis: Literatura Medieval
4:00 – 5:00 – Samuel Johnson: Literatura Grega e Latina
(Intervalo)
5:40 – 6:40 - Jorge Luis Borges: Literatura Anglo-Saxã
6:40 – 7:40 – Vladimir Nabokov: Literatura Russa: Eugene Oneguin.

Na minha sala há uma garota magrinha e linda chamada Audrey Hepburn. Flertamos desde o primeiro dia. Passamos o meu caderno, discretamente, de um para o outro, trocando mensagens (Nabokov achou ruim). Durante o intervalo, tomamos café afastados dos outros alunos, olhando a cidade através de um grande vitral vermelho e verde.

Uma vez a beijei na nuca e perguntei:
-Está gostando do curso?
Ela arregalou os olhos:
-I adoooooooore it!

Eis porquê, percebam, acordo cada dia mais sábio.


Look!
The book is really on the table!

21.12.02

Truque Maldoso
Existe uma curiosidade da natureza que acontece comigo. Minha família descobriu isso e, faz tempo, aproveita para fazer um truque maldoso. É assim: durante uma festa, ou no meio de um almoço, alguém se aproxima do meu ouvido e sussurra três palavras: Guerrilha - do - Araguaia - e imediatamente caio no sono. Às vezes até em coma. Uma vez me queimei seriamente num prato de sopa de feijão, enquanto minha família ria.


Estranha Obstinação
É estranho, também não sei explicar, mas continuo escrevendo aquilo que eu penso, e não aquilo que você pensa.

20.12.02

PAGA-SE BOA RECOMPENSA

Parte I
Encontrei no jornal um classificado evidentemente escrito a mando de Vênus pelo poeta siracusiano Mosco, e assim traduzido por Bocage:

Vénus chamava o filho em altas vozes.
Se alguém viu pelo campo (a mãe dizia)
Andar vagando Amor, esse é meu filho,
Meu filho que fugiu. Quem souber dele,
Quem notícias me der do meu Cupido
Premiado será; tem certo um beijo
Nos próprios lábios da amorosa Vénus:
Porém se mo trouxer terá mais glória,
Coisas mais doces do que um simples beijo.



Parte II
E não é que, dias depois, encontrei esse demônio nos campos, ao pé das velhas faias, apontando seu arco para mim? E me acertou. E passei muito mal.

Mas eis que o moleque está, agora, amarrado e trancado na minha despensa. Vocês precisam ouvir as coisas que ele diz! Ele é suave, é gentil; chora e promete coisas. Mas dei-lhe alguns bons uppercuts e dois dentinhos seus rolaram pelo chão. Agora pretendo devolvê-lo à mãe e cobrar o prêmio. Alguém aí sabe o email de Vênus?

19.12.02

Da necessidade de um Inimigo
Il me faut de geants, disse o Cyrano de Rostand. Preciso de gigantes. Eu também. Pode parecer uma necessidade incomum, mas não, não, é uma necessidade humana. Precisamos todos de inimigos fortes e dignos o suficiente para que possamos respeitá-los e amá-los. É por isso que rezo para que Lúcifer exista mesmo e, por algum motivo qualquer, queira me destruir. Na falta dele, serve Fu Manchu. O que não dá é substituir o Inimigo por uns cem bocomocos que mandam vírus no seu email. Não é a mesma coisa.

18.12.02

Há um versinho nonsense que meu pai ouviu do padrinho, que por sua vez terá ouvido de alguém. Talvez do próprio autor - algum fascinante e desconhecido Lewis Carroll do Minho. Talvez as palavras tenham sido mudadas de boca em boca, dentadura em dentadura; mas as que chegaram até mim são estas:

Era meia-noite, e raiava o sol por entre as trevas de um claro dia.
Sentado em pé, num banco de pedra de pau, um jovem ancião calado assim dizia:
- Ó Incas, Ó Incas - ao sol donzia - Dás-me a tua filha?
- Não, não, três vezes não.
- Pois deixa estar, desgraçado, que hás de morrer escaldado num penico de merda fria.


Sempre achei que "donzia" era uma forma arcaica de "dizia", e que o jovem ancião está pedindo a mão da filha do sol, chamado por ele de Incas. Muito poético. Mas há divergências entre os scholars aqui em casa. Meu pai insiste que não é "donzia", mas "Ó Incas, Ó Sol D'Unzia!" Pode ser, mas onde fica Unzia? O Dicionário de Lugares Imaginários, de Alberto Manguel, não diz nada a respeito.

Minha perplexidade cresce. Tomara que dure.

17.12.02

Maligno!
Num email mandado a outra pessoa, e passado adiante até mim por mãos trêmulas, Millôr Fernandes me chamou de maligno. Juro, juro. Por causa de um texto que escrevi uma vez, no meu passado rebelde, quinze dias atrás. Com imensa doçura de alma, absorvo o insulto e continuo gostando de Millôr Fernandes. Mas uma coisa me ocorre, não posso deixar de dizer. Millôr já disse várias vezes que inventou o frescobol. Agora pergunto: será, meu Deus, que já criei algo tão maligno, tão chato, tão utterly annoying, quanto o frescobol?

(Acho que Millôr só está querendo se promover às minhas custas.)


Outsider Math
Noto que agora já não se diz Arte Primitiva, nem Arte Naif; agora é Outsider Art. Ah, certo. Será que existe Outsider Math? O molequinho fazendo conta errada, o caboclo na sua casinha, tirando bicho-do-pé com canivete e cavando equações erradas de segudo grau num pedaço de madeira. "É a matemática do nosso povo, tudo erradinho, que bonito!" O matemático de Cambridge parando na beira da estrada pra ver o vendedor de pamonha que faz Outsider Math.


Cirurgia Naif
"Gente, diz que você deita no chão de barro,vem o seu Aldair, abre você com um facão, chupa as suas banhas através de um bambu, e cospe tudo numa lata de soja. É supertosco!!!! Genial!" - Do documentário Seu Aldair, 25 Anos de Medicina Naif.

16.12.02

Horror
Elio Gaspari passou dezoito anos pesquisando sobre a ditadura militar para escrever "A Ditadura Envergonhada" e "A Ditadura Escancarada". Desde 1985 até 2002. Pode imaginar a mediocridade que é necessária para fazer isso? Todo esse tempo lendo sobre o Delegado Fleury?

Pense no que você estava fazendo em 1985. Pense em tudo o que fez e leu e pensou de lá até aqui. E, todo esse tempo, Elio Gaspari estava lendo sobre Costa e Silva e Marighela. Meu Deus. Se Elio Gaspari, depois de morto, apresentasse a São Pedro a bibliografia de "A Ditadura Envergonhada" (que inclui, entre centenas de outros, “Autópsia do medo – Vida e morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury”, de Percival de Souza), São Pedro suspiraria e o mandaria para o inferno, por gastar uma vida com leituras tão atrozes.

15.12.02

Engajamento - Quando vejo um desses escritores preocupadíssimos com o sofrimento dos outros, me lembro do que Jane Austen disse numa carta à irmã, na época das guerras napoleônicas: "Que pena essa gente toda morrendo na guerra. E que bom que eu não ligo nem um pouco para elas."
On Considering the Possibility of Quitting the University

How fine it is to quit –
To quit is a delight!
To abandon old Lit.-
To abandon the Fight!
And never have to hear about
Old scholars French, or Dutch, or Kraut,
Foucault and all this shite!

But then I think of Her
Alone among the Bores;
A very posh Venus in Fur
In company of whores!

And my oh my, I have to quit
The whole idea of quitting.
My heart grows sore - but bit by bit,
We recommence the flirting...




14.12.02

Meu vegetarianismo
Sou vegetariano, mas não me orgulho nada de pertencer ao mesmo grupo de Hitler, Michael Jackson e Eder Jofre. Quando digo que sou vegetariano, vejo o nojo na cara das pessoas, e entendo e simpatizo. Mas entendam o meu vegetarianismo, por favor. Apesar de ser causado pura e simplesmente por pena do boi, meu vegetarianismo não é delicado como um pônei cor-de-rosa numa agenda de menininha. Meu vegetarianismo tem dentes. Meu vegetarianismo não hesitaria em comer os braços gordos de um camelô, os tríceps de uma cobradora de ônibus ou a queixada de um fiscal da prefeitura. Meu vegetarianismo só poupa o coitadinho do boi e o inofensivo frango.

Me diga: se você estivesse dirigindo numa estrada, e tivesse que escolher entre atropelar um boizinho com doces olhos ou a Hebe Camargo de mãos dadas com o Luciano Huck, quem você preferiria atropelar? Não pergunto quem você iria atropelar, porque provavelmente teria medo da polícia. Pergunto quem você preferiria. Mas sei bem quem você escolheu. Então seja fiel à sua pena do boi - seja fiel a essa escolha, feita em silêncio e sem hesitação alguma numa câmara secreta do seu coração. Coma gente, mas deixe o boi em paz.

13.12.02

Prazeres Esquecidos
Meu herói Chesterton disse uma vez que os poetas têm se mantido misteriosamente calados sobre os queijos. Ele mesmo escreveu um soneto sobre o queijo Stilton ("Yet this high cheese, by choice of fenland men, / Like a tall green volcano rose in power..."). Me lembro também de alguns outros prazeres sobre os quais poetas e filósofos têm se mantido misteriosamente calados. Aqui vão alguns.

1) Ter uma barba. Enquanto se lê ou se vê um filme, como é bom passar os dedos devagar pela própria barba. Oh, a glória de ter uma barba! A barba dos outros não serve, repare. De nada adianta passar os dedos pela barba de um tio enquanto se lê O Quarteto de Alexandria. Deixe crescer a sua própria.

2) Passar dois ou três dias sem sair de casa. Mal-vestido e desgrenhado, lendo e vendo filmes. De vez em quando você vai se ver no espelho do banheiro, e por diversão dá um grunhido, para ficar ainda mais parecido com um mendigo que se agita, assustado, de dentro de um arbusto. O telefone toca, e a boca só se abre depois de uma travadinha, depois de tanto tempo que ficou fechada.

3) O prazer de adiar. O sumamente poético prazer de dizer Que se dane, hoje não. Fiz isso com vários dias: dias em que empurrei o que tinha a fazer para outros dias. Isso me causou problemas, mas e daí? Também me causou feriados súbitos, vendo filmes com Audrey Hepburn e lendo coletâneas de contos da Penguin. Se esquecer os dias comuns e só me lembrar desses feriados que eu mesmo me dei, minha vida foi perfeita. O resto foi uma chatice cumprida mecanicamente e que qualquer outro poderia ter feito.

4) O prazer de deitar no chão em pontos esquisitos da casa: no corredor, na copa. E ficar ali olhando pro teto. (Variante: o prazer de se trancar no banheiro com uma almofada, para tirar um cochilo ou ler.)

5) O prazer de não ler jornal. Alguém pergunta pra você: “Nossa, você viu esse escândalo do Repolhinho?” E você não viu, não sabe de nada, porque acordou e foi diretamente ler Sêneca. Ah, o prazer de ignorar completamente o escândalo do Repolhinho! Onde está o Camões que vai cantar a epopéia de ignorar essas coisas?


Conclusão depois de reler o item 3
Só vivi os dias que roubei à chatice. Só vivi os dias em que fui criminosamente irresponsável.

12.12.02

Filhos
"Cortar as orelhas a todas as mulheres grávidas seria uma boa idéia. Eu disse isso? Bem, disse-o porque as pessoas, quando julgam que poem crianças no mundo, cometem um grande erro. Engendram um merceeiro ou um criminoso de guerra todo suado, espantoso, pançudo, e é isto que poem no mundo, não crianças. Dizem que vão ter um bebê, mas na realidade o que vão ter é um octagenário que se mija e baba todo, cheira mal, é cego e a quem a gota não deixa dar um passo. Poem no mundo desgraçados, mas a esses não os vêem, para que a natureza possa perpetuar-se e a mesma estrumeira prossiga até ao infinito."
Thomas Bernhard

11.12.02

Vi um blog com fotos de gatinhos e a letra completa de Josie and the Pussycats. Uni a ponta dos dedos, arqueei uma sobrancelha e disse a mim mesmo: Fascinante. Mas depois ficou melhor ainda: o autor havia escrito um post que dizia: Valeu Galera de Osasco!!! Aêêêêê!!!!! Depois dizem que a literatura morreu em Ulisses, como um carrapatinho que tivesse ficado prensado lá entre as páginas 212 e 213. Não, não. O carrapatinho vive em Osasco, onde assumiu o nome de Cacau.


Uma página do Diário de Lytton Strachey
Valeu Galera de Bloomsbury!!! Aêêêêê!!!!!!

10.12.02

Três Desejos
1)Queria que alguém se dissesse de direita. Mas da direita sem aspas.
2)Também queria saber por quê, em propagandas de margarina, todos os pais têm que chamar o filho de "filhão".
3)Também queria saber quem inventou o soquinho de empolgação comercial. Sabe, aquele, quando a pessoa diz: "Venha para não sei onde você também!"
Definição (bocejo) de Direita
Gosto de rótulos, admito. Acho que rótulos são divertidos. Gosto de simplismos, também. Politicamente, adoto uma definição muito simples, ou simplista, ou simplória: Esquerda = + Estado, e Direita = - Estado. O divertido nessa definição é que ela coloca Hitler logo ali ao lado de Stalin, na mesma cela da extrema-esquerda, onde para sempre estão condenados a dançar um tango homoerótico no escuro. Nesse sentido, não me importo nem um pouco de ser chamado de direita. É claro que algumas pessoas que são chamadas de "de direita" têm todo o direito de não gostar. Os gregos antigos, li em algum lugar, andavam com moedas na boca; a esquerda vive com a palavra "direita" na boca. Isso fez (é natural) com que essa palavra ficasse um pouquinho pegajosa e até mesmo um pouquinho fedida. Mas uma vez limpa, ela brilha. Trago-a no bolso como uma moedinha da sorte.


Procura-se
Professora particular de latim, linda, linda. Cabelos pretos, olhos violetas. Que se chame Flavia Junilla ou Iulia Augusta (ou não se importe de ser chamada assim). Procurar por Alexandre Soares Silva, na Rua das Garçonnières, em São Paulo. (O latim é dispensável, chérie. Aprenderemos juntos.)

9.12.02

conto
O HOMEM QUE VIVEU COMO (ELE) QUIS


Conrado passou a vida inteira querendo ser ainda mais Conrado. Sua mãe, sua irmã, seus professores, seu sargento, seus filhos e netos, passaram décadas dizendo que ele era bom do jeito que era, mas que bem que podia ser menos isso-ou-aquilo; e ele tratou de ser muito mais isso-ou-aquilo. Ou disseram que ele podia se esforçar para ser mais assim-ou-assado; e ele se esforçou para não ser assim (e sobretudo para não ser assado). Amou mãe, irmã, um ou dois professores, sargento, filhos e netos – mas passou a vida brigando com eles. Do exército para o jornalismo, do jornalismo para a literatura, foi arrastando consigo sua reputação de violenta conradice. Aspirava à conradice como outros aspiram à santidade ou à riqueza. Não foi particularmente feliz, mas foi particularmente ele mesmo. No final da vida, era tão concentradamente ele mesmo que as pessoas espirravam ao vê-lo, tinham reações alérgicas. Mesmo seus livros são assim – só se pode ler umas poucas páginas de cada vez.

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Conrado, agora, estava morrendo. A dor é uma coisa feia – me permita pular por cima dos meses que Conrado passou sofrendo num hospital. Me deixe acelerar a cena, de modo que nove meses passam em três segundos, e o colchão abre como uma espada feridas nas costas e ancas de Conrado. No finalzinho dessa cena aparece de repente uma última mensagem do escritor, deixada num caderno aberto, na mesinha de cabeceira:

"A todos,

Vivi como eu quis. Não tenho arrependimentos e não peço desculpas. Não posso deixar de achar que vou ser recebido no céu com todas as honras militares. Cumpri minha missão: disse sempre o que pensava, e xinguei os tolos deste mundo até o fim. Amei minha família, mesmo com ela me enchendo tanto para que eu fosse um pouquinho menos como eu era e sou. Adeus.

Conrado Susskind"


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Como escritor, a fama de Conrado foi superada pela do neto, Ronaldo Susskind. Conrado era polêmico, venenoso, brilhante; mas seu estilo era descuidado. Ronaldo, desde criança, olhava para os livros do avô com um certo desprezo. Aos onze anos, surpreendeu o avô dizendo: “Vovô, arte é construção”. (Era um molequinho pálido, com cara de banho tomado.) Conrado disse: “Sim, e daí?”. Ronaldo suspirou, pacientemente abriu um dos livros do avô, e disse: “Arte exige cuidado, exige uma certa precisão de linguagem. Esta frase aqui, por exemplo, ó.” Conrado leu a própria frase: “Que tem?” “Dá a impressão que o senhor usou a primeira comparação que passou pela cabeça. Não houve trabalho, elaboração. Estraga tudo.” Trabalho, elaboração! Um moleque de onze anos! Conrado olhou para o neto com a suspeita de que o destino que aguardava a criança era corrompido e alambicado. Acertou – Ronaldo Susskind é hoje o embaixador brasileiro na Espanha. Mas é também um grande poeta.


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Ronaldo agora, aos dezenove anos, lia um livro sobre economia cubana, deitado no sofá do quarto. De vez em quando dava uma olhada na direção do avô. Os dois não se davam muito bem. Ronaldo continuava achando os livros do avô superestimados, seus romances satíricos mal construídos, e seus ataques de polemista muito arbitrários. E o avô era rude: chutava pessoas por qualquer coisa, gritava, falava palavrão. O avô retribuía os sentimentos, sem dúvida. Tinha substituído seu apelido de criança, Roniquito, por “Faniquito”. “Faniquito, que que cê tá lendo? Faniquito, lendo Valèry, Faniquito?” O episódio da revista não tinha ajudado nada. Ronaldo tinha fundado uma revista na faculdade de direito, e, precisando de algum nome conhecido, tinha a contragosto pedido permissão ao avô para republicar um texto antigo dele. O avô tinha ficado furioso ao receber o exemplar e ver que várias frases suas tinham sido cortadas. Ronaldo explicou que só havia procurado trabalhar e elaborar o texto um pouquinho mais. “Repare, vô – para quê este parágrafo?” A resposta de Conrado tinha sido um olhar fixo. Durante alguns segundos, Ronaldo achou que ia ser chutado – teria sido típico. Na semana seguinte, o avô disse à família que tinha decidido que quem iria tomar conta do seu espólio literário era sua neta Hannah.


Ronaldo acha até que o avô está morto. Será? A boca está aberta, com a dentadura um pouquinho fora de lugar. Horrível. Mas o que o incomoda mesmo é outra coisa. O quê? O texto da mensagem, escrita no caderno largado aberto na mesinha de cabeceira. Alguma coisa lá dói no seu ouvido de poeta refinado. Ronaldo põe o marcador no livro, e levanta do sofá em silêncio.

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Mas seu avô não está ali. Está jovem, usando o uniforme do exército, passando por duas colunas de amigos também em uniforme. Conrado repara, achando graça, que seus amigos (incluindo aí alguns idiotas) estão com cara de tenho-que-reconhecer-que. Aquela cara que Conrado frequentemente tinha visto nos outros, em vida: “Conrado é um filhodaputa, mas tenho que reconhecer que...”. Eles sempre tinham-que-reconhecer-que.


Há música marcial. Sua mulher morta, Kátia, chorando, atrás da fila de homens uniformizados. Uns amigos seus, uns galhofeiros, sem uniforme, ao lado dela, acenando para ele. Há árvores, lá no final daquele túnel. Logo depois de Jesus Cristo, que o espera com uma medalha dourada e um sorriso suave.


Conrado pensa: “Se eu tivesse ouvido qualquer um desses bem-intencionados imbecis – incluindo a Kátia – não estaria aqui, recebendo esta medalha”. Conrado sabe que está especialmente bonito naquele uniforme estranho, vermelho. Chega perto de Jesus Cristo, e pára.


-Conrado – Jesus diz- Você está aqui para receber o grau máximo de conradice. Cumpriu a sua missão. Esta é a missão de todo aquele que vai ao mundo: ser ainda mais aquilo que já é. Eu mesmo tive que ser cada vez mais Jesus. Essa foi a minha missão. Não podia ser mais José, mais Batista ou mais Pedro. Não podia nem mesmo ser mais Espírito Santo – tinha que ser mais Jesus. E você, Conrado (sorrindo), foi extremamente Conrado...


Jesus toca com o indicador no peito de Conrado, ao dizer isso; mas nesse momento Conrado sente uma coisa estranha nas costas - uma coisa ruim - e se vira. Na entrada do túnel dá para ver, encolhido na distância, Faniquito se aproximando da mesinha de cabeceira, no quarto de hospital. Faniquito se curvando sobre o caderno aberto. Tem uma caneta na mão.


-Um momento- Conrado diz, e dá alguns passos na direção da entrada do túnel. Percebe o que Faniquito quer fazer. Ele vai riscar a palavra “eu” na frase “Vivi como eu quis”! Conrado se joga, cai, sente vertigem, já não sabe onde está. E demora um pouco para perceber que está no seu corpo de velho, no quarto do hospital, se agitando na cama.


Faniquito está quase de costas para ele, encostando a caneta na letra E de “eu”. Sua bela caneta prateada de futuro diplomata. Conrado percebe que não consegue se sentar na cama; como vai impedí-lo? Não consegue alcançar Faniquito; só a mão esquerda, casualmente esquecida atrás das costas. Conrado imediatamente puxa a mão e mete o dedo indicador do neto na boca.


Faniquito dá um guincho de horror, e tenta soltar a mão. Mas Conrado prende o braço com suas unhas. Percebe, com satisfação maligna, que elas estão compridas e duras, formando pontas. Não foram (não é?) devidamente trabalhadas e elaboradas pela enfermeira. Conrado não sabe se está com ou sem dentadura, e na dúvida morde mais forte.


Faniquito está guinchando e se chacoalhando, completamente aterrorizado. Seu cabelo cheio de mousse se move no ar. Seus futuros subalternos na embaixada brasileira da Espanha não o reconheceriam se o vissem assim (ele que é sempre calmo, sempre elegante); mas entenderiam finalmente o motivo da falta de dedo na sua mão manicurada, e das estranhas marcas no braço.


Conrado simplesmente não abre a boca. Rosna e ri e morre – ouvindo, ao longe, a gargalhada de Jesus Cristo.


(Para o Dennis)

8.12.02

Você sabe que está num lugar de classe quando há um aviso no banheiro sobre os sintomas das doenças venéreas. Só estou dizendo.

7.12.02

Fama
Quando alguém nos conhece, forma na própria mente uma cópia minúscula nossa. Um soldadinho de chumbo com a nossa cara. Uma celebridade, ao olhar para uma multidão, sabe que há também ali, nas mentes deles, um exército gigantesco de soldadinhos de chumbo com a sua cara. Sente o poder disso, porque em alguns momentos consegue controlar esse exército. E sente medo também, porque pode ser massacrado por capricho - just for the hell of it. (E às vezes, no meio da noite, os soldadinhos saem das cabeças das pessoas e vêm passear pelo corpo aterrorizado da celebridade - mordendo sua canela e enfiando rifles no seu umbigo.)

6.12.02

Declaração Ideológica
Eu me declaro a favor da desigualdade social.
Eu me declaro a favor da má distribuição de renda.


Explicação para o nome deste blog
What am I, after all, but a child, pleas’d with the sound of my own name? repeating it over and over;
I stand apart to hear—it never tires me.
To you, your name also;
Did you think there was nothing but two or three pronunciations in the sound of your name?

(Que é um poema de Whitman. Mais ou menos assim: que sou eu, afinal, senão uma criança, sentindo prazer com o som do meu próprio nome? Repetindo-o vezes sem conta, fico parado a escutá-lo: ele nunca me cansa. No seu caso, é assim com o seu nome; você achou que só havia duas ou três maneiras de pronunciar o som do seu nome?)


Declaração Ideológica, Parte II
Sou a favor da exclusão social - para Décio Pignatari.

5.12.02

Irritando o Leitor - A ausência de um sistema de comentários em qualquer blog é uma censura prévia feita especificamente contra você, sua besta (sim, você). Outra coisa: já reparou que os livros só têm citações elogiosas na contracapa? Por que nunca colocam opiniões divergentes, como a sua? Mande uma cartinha para as editoras.

4.12.02

Joguinhos para Casais I:
Ficam se olhando nos olhos. Perde o primeiro que disser “Eu te amo”.

Joguinhos para Casais II:
Se separam. Perde quem tiver mais memória.

3.12.02

Método
A preguiça resolve problemas. Quanto estou cheio de coisas pra fazer, deito no chão com um livro e fico assim durante dois ou três dias. De vez em quando paro pra ouvir Gilbert e Sullivan. Não falha: algumas coisas se resolveram sozinhas, outras chegaram a uma crise que já não precisa da minha intervenção, e quase sempre algum amigo meu, que havia pedido um favor, deixou de se considerar amigo meu, e portanto o favor não precisa mais ser feito. Tente, old boy.

2.12.02

Sendo este o primeiro post, um minuto para nos lembrarmos da existência de Santa Laura de Nazianzi, que nunca existiu. Ela vive sem existir no romance estranho de um inglês excêntrico. Eu também faço o mesmo, quando leio esse livro - passeando no jardim do Palácio de Verão em Kairoulla, indo e vindo da gruta ao lago, pelo caminho de cascalho (que chic. Não existir é muito chic). Do jardim ela abençoa este blog e amaldiçoa meus inimigos, que cometeram a impudicícia de existir mesmo. Sim, sim, metafisicamente há duas classes sociais, segundo um esnobe morto que conheci uma vez: os aristocratas da inexistência, e os labregos que existem mesmo. Eis porquê não podemos ir a festas de gente que não existe: não nos deixam entrar. Mal podemos apertar a mão deles. O único caminho de subir socialmente é adotarmos uma máscara, assumirmos um outro nome, e meticulosamente deixarmos de existir.