conto
O HOMEM QUE VIVEU COMO (ELE) QUIS
Conrado passou a vida inteira querendo ser ainda mais Conrado. Sua mãe, sua irmã, seus professores, seu sargento, seus filhos e netos, passaram décadas dizendo que ele era bom do jeito que era, mas que bem que podia ser menos isso-ou-aquilo; e ele tratou de ser muito mais isso-ou-aquilo. Ou disseram que ele podia se esforçar para ser mais assim-ou-assado; e ele se esforçou para não ser assim (e sobretudo para não ser assado). Amou mãe, irmã, um ou dois professores, sargento, filhos e netos – mas passou a vida brigando com eles. Do exército para o jornalismo, do jornalismo para a literatura, foi arrastando consigo sua reputação de violenta conradice. Aspirava à conradice como outros aspiram à santidade ou à riqueza. Não foi particularmente feliz, mas foi particularmente ele mesmo. No final da vida, era tão concentradamente ele mesmo que as pessoas espirravam ao vê-lo, tinham reações alérgicas. Mesmo seus livros são assim – só se pode ler umas poucas páginas de cada vez.
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Conrado, agora, estava morrendo. A dor é uma coisa feia – me permita pular por cima dos meses que Conrado passou sofrendo num hospital. Me deixe acelerar a cena, de modo que nove meses passam em três segundos, e o colchão abre como uma espada feridas nas costas e ancas de Conrado. No finalzinho dessa cena aparece de repente uma última mensagem do escritor, deixada num caderno aberto, na mesinha de cabeceira:
"A todos,
Vivi como eu quis. Não tenho arrependimentos e não peço desculpas. Não posso deixar de achar que vou ser recebido no céu com todas as honras militares. Cumpri minha missão: disse sempre o que pensava, e xinguei os tolos deste mundo até o fim. Amei minha família, mesmo com ela me enchendo tanto para que eu fosse um pouquinho menos como eu era e sou. Adeus.
Conrado Susskind"
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Como escritor, a fama de Conrado foi superada pela do neto, Ronaldo Susskind. Conrado era polêmico, venenoso, brilhante; mas seu estilo era descuidado. Ronaldo, desde criança, olhava para os livros do avô com um certo desprezo. Aos onze anos, surpreendeu o avô dizendo: “Vovô, arte é construção”. (Era um molequinho pálido, com cara de banho tomado.) Conrado disse: “Sim, e daí?”. Ronaldo suspirou, pacientemente abriu um dos livros do avô, e disse: “Arte exige cuidado, exige uma certa precisão de linguagem. Esta frase aqui, por exemplo, ó.” Conrado leu a própria frase: “Que tem?” “Dá a impressão que o senhor usou a primeira comparação que passou pela cabeça. Não houve trabalho, elaboração. Estraga tudo.” Trabalho, elaboração! Um moleque de onze anos! Conrado olhou para o neto com a suspeita de que o destino que aguardava a criança era corrompido e alambicado. Acertou – Ronaldo Susskind é hoje o embaixador brasileiro na Espanha. Mas é também um grande poeta.
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Ronaldo agora, aos dezenove anos, lia um livro sobre economia cubana, deitado no sofá do quarto. De vez em quando dava uma olhada na direção do avô. Os dois não se davam muito bem. Ronaldo continuava achando os livros do avô superestimados, seus romances satíricos mal construídos, e seus ataques de polemista muito arbitrários. E o avô era rude: chutava pessoas por qualquer coisa, gritava, falava palavrão. O avô retribuía os sentimentos, sem dúvida. Tinha substituído seu apelido de criança, Roniquito, por “Faniquito”. “Faniquito, que que cê tá lendo? Faniquito, lendo Valèry, Faniquito?” O episódio da revista não tinha ajudado nada. Ronaldo tinha fundado uma revista na faculdade de direito, e, precisando de algum nome conhecido, tinha a contragosto pedido permissão ao avô para republicar um texto antigo dele. O avô tinha ficado furioso ao receber o exemplar e ver que várias frases suas tinham sido cortadas. Ronaldo explicou que só havia procurado trabalhar e elaborar o texto um pouquinho mais. “Repare, vô – para quê este parágrafo?” A resposta de Conrado tinha sido um olhar fixo. Durante alguns segundos, Ronaldo achou que ia ser chutado – teria sido típico. Na semana seguinte, o avô disse à família que tinha decidido que quem iria tomar conta do seu espólio literário era sua neta Hannah.
Ronaldo acha até que o avô está morto. Será? A boca está aberta, com a dentadura um pouquinho fora de lugar. Horrível. Mas o que o incomoda mesmo é outra coisa. O quê? O texto da mensagem, escrita no caderno largado aberto na mesinha de cabeceira. Alguma coisa lá dói no seu ouvido de poeta refinado. Ronaldo põe o marcador no livro, e levanta do sofá em silêncio.
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Mas seu avô não está ali. Está jovem, usando o uniforme do exército, passando por duas colunas de amigos também em uniforme. Conrado repara, achando graça, que seus amigos (incluindo aí alguns idiotas) estão com cara de tenho-que-reconhecer-que. Aquela cara que Conrado frequentemente tinha visto nos outros, em vida: “Conrado é um filhodaputa, mas tenho que reconhecer que...”. Eles sempre tinham-que-reconhecer-que.
Há música marcial. Sua mulher morta, Kátia, chorando, atrás da fila de homens uniformizados. Uns amigos seus, uns galhofeiros, sem uniforme, ao lado dela, acenando para ele. Há árvores, lá no final daquele túnel. Logo depois de Jesus Cristo, que o espera com uma medalha dourada e um sorriso suave.
Conrado pensa: “Se eu tivesse ouvido qualquer um desses bem-intencionados imbecis – incluindo a Kátia – não estaria aqui, recebendo esta medalha”. Conrado sabe que está especialmente bonito naquele uniforme estranho, vermelho. Chega perto de Jesus Cristo, e pára.
-Conrado – Jesus diz- Você está aqui para receber o grau máximo de conradice. Cumpriu a sua missão. Esta é a missão de todo aquele que vai ao mundo: ser ainda mais aquilo que já é. Eu mesmo tive que ser cada vez mais Jesus. Essa foi a minha missão. Não podia ser mais José, mais Batista ou mais Pedro. Não podia nem mesmo ser mais Espírito Santo – tinha que ser mais Jesus. E você, Conrado (sorrindo), foi extremamente Conrado...
Jesus toca com o indicador no peito de Conrado, ao dizer isso; mas nesse momento Conrado sente uma coisa estranha nas costas - uma coisa ruim - e se vira. Na entrada do túnel dá para ver, encolhido na distância, Faniquito se aproximando da mesinha de cabeceira, no quarto de hospital. Faniquito se curvando sobre o caderno aberto. Tem uma caneta na mão.
-Um momento- Conrado diz, e dá alguns passos na direção da entrada do túnel. Percebe o que Faniquito quer fazer. Ele vai riscar a palavra “eu” na frase “Vivi como eu quis”! Conrado se joga, cai, sente vertigem, já não sabe onde está. E demora um pouco para perceber que está no seu corpo de velho, no quarto do hospital, se agitando na cama.
Faniquito está quase de costas para ele, encostando a caneta na letra E de “eu”. Sua bela caneta prateada de futuro diplomata. Conrado percebe que não consegue se sentar na cama; como vai impedí-lo? Não consegue alcançar Faniquito; só a mão esquerda, casualmente esquecida atrás das costas. Conrado imediatamente puxa a mão e mete o dedo indicador do neto na boca.
Faniquito dá um guincho de horror, e tenta soltar a mão. Mas Conrado prende o braço com suas unhas. Percebe, com satisfação maligna, que elas estão compridas e duras, formando pontas. Não foram (não é?) devidamente trabalhadas e elaboradas pela enfermeira. Conrado não sabe se está com ou sem dentadura, e na dúvida morde mais forte.
Faniquito está guinchando e se chacoalhando, completamente aterrorizado. Seu cabelo cheio de mousse se move no ar. Seus futuros subalternos na embaixada brasileira da Espanha não o reconheceriam se o vissem assim (ele que é sempre calmo, sempre elegante); mas entenderiam finalmente o motivo da falta de dedo na sua mão manicurada, e das estranhas marcas no braço.
Conrado simplesmente não abre a boca. Rosna e ri e morre – ouvindo, ao longe, a gargalhada de Jesus Cristo.
(Para o Dennis)