31.1.03

Falei ontem de Lin Yutang, e passei a noite de hoje o relendo, para citá-lo aqui. Com muito custo vou me restringir a quatro citações, embora o tempo todo encontre passagens que me fazem dizer em voz alta: Ah! Tenho que pôr isto aqui. Estão num livro chamado “A Importância de Viver”, que foi traduzido por Mário Quintana. Ainda é possível encontrá-lo em sebos. Talvez você o tenha visto e tenha tido nojo do título (o que é compreensível). Mas volte atrás e o folheie.


Mandarins
"Muitas são as amenidades que se praticam na China. Cultivam-se cuidadosamente os gestos dos dedos, mãos e braços. (...) Os cultos mandarins de antanho faziam gestos extremamente lindos quando se aborreciam. (...) Também é lindo ouvir o discurso de um mandarim. Suas palavras surgem com bela cadência, e os tons cantantes do sotaque de Pequim têm um gracioso altibaixo musical. As sílabas se pronunciam com graça e lentamente e, no caso dos verdadeiros eruditos, a linguagem é recamada de jóias do estilo literário. E também deve ver-se como ri ou cospe um mandarim. É delicioso, na verdade. O ato de cuspir pratica-se geralmente em três compassos musicais; os dois primeiros são os sons de aspirar e limpar a garganta como preparativo do compasso final de cuspir, que se executa com rápida força; staccato depois de legato. Não me importam na realidade os germes que assim povoam o ar, se o ato de cuspir se realiza esteticamente. (...) O riso de um mandarim é também uma coisa regulada e artisticamente rítmica, com um toque de artifício e estilização, e rematada por um volume cada vez mais generoso, agradavelmente suavizado por umas barbas brancas, quando as há."
Um bom escritor
"Um bom escritor é como a irmã de Yang Kueifei, que podia ir ver o próprio imperador sem pó nem carmim. Nenhuma das demais beldades do palácio os podia dispensar. Esta é a razão pela qual tão poucos escritores se atrevem a escrever em linguagem simples."


A Escola da Auto-Expressão
"A Escola de Hsingling, iniciada pelos três irmãos Yüan, em fins do século XVI (...) é uma Escola de Auto-Expressão. Hsing significa “a natureza pessoal” e ling significa a “alma” ou “espírito vital”. (...) Escrever não é mais do que dar expressão à natureza própria ou caráter de cada um e ao jogo de seu espírito vital. (...) A Escola de Auto-Expressão exige que expressemos por escrito somente os nossos pensamentos e sentimentos genuínos, os nossos amores, ódios, temores e caprichos genuínos. Cumpre expressar tudo isto sem tentar sequer esconder o mau e apresentar o bom, sem medo de despertar a zombaria do mundo, e sem medo de contradizer os sábios antigos e as autoridades contemporâneas."

"Os escritores da Escola de Auto-Expressão gostam do parágrafo mais característico de um escritor num ensaio, de sua frase mais característica num parágrafo, e da sua expressão mais característica numa frase."

"As fraquezas do escritor são o que lhe faz ganhar o carinho de um crítico Hsingling. Todos os escritores da Escola Hsingling são contra a imitação dos antigos ou dos modernos e contra uma técnica literária de regras fixas. Os irmãos Yüan sustentavam que “o que importa na literatura é a autenticidade”. Li Liweng cria que “o importante na literatura é o encanto e o interesse”. Yüan Tset’ai cria que “não há técnica para escrever”. Um dos primeiros escritores Sung, Huang Shanku, cria que “as formas de escrever se produzem tão acidentalmente como os buracos nas madeiras carcomidas pelos insetos”.
CONDIÇÕES HUMILHANTES PARA AS FLORES
(retirado do “P’ingshih”, livro sobre a forma de se arranjar flores, escrito no século XVI por Yüan Chunglang)


O senhor que recebe visitas constantemente.
Um servente estúpido que coloca ramos em demasia e transtorna a decoração.
Monges ordinários que falam zen.
Meninos cantores.
Cantigas de Yijang (Kiangsi)
Mulheres feias que colhem flores e adornam os cabelos com elas.
Discutir promoções e baixas oficiais.
Falsas expressões de amor.
Poemas escritos por cortesia.
A família que faz contas.
Escrever poemas consultando dicionários de rimas.
Livros em mau estado largados à toa.
Agentes de Fukien.
Pinturas apócrifas de Kiangsu.
Excrementos de rato.
Quando o vinho termina antes de começarem os jogos-de-vinho.
Um escrito sobre a mesa, com frases como “o purpúreo ar matinal” (comum nas loas imperiais).


Nota do autor (eu, Alexandre) - Não faço a menor idéia do motivo pelo qual os agentes de Fukien são desprezíveis, mas eu os desprezo profundamente. Ah, outra coisa. Lin Yutang não é mais levado a sério por ninguém hoje em dia; o que é mais um motivo para amá-lo. Adoro esses escritores que não são mais levados a sério, como ele e Maugham; e os que nunca foram, como Isaac Asimov. Num canto tranqüilo da sua casa, eles conversam com você descalços; e quando você ouve a campaínha e sabe que é uma Visita Séria como Jean Paul Sartre ou Simone de Beauvoir, você, Yutang, Asimov e Maugham saem correndo pela porta dos fundos e vão continuar a conversa na garagem, falando baixinho e rindo, até que os chatos tenham ido embora.

30.1.03

Brasil e China
As caras de certos homens suam burrice. Os chineses, quando ficavam mais de três dias sem ler um livro, escondiam o rosto para que os visitantes não os vissem: “Não me olhe! Estou com a cara estúpida.” Mas as pessoas que vemos na rua, no jornal, na tevê, não têm essa delicadeza de mandarim. Como eu amo essa China imaginária criada por Lin Yutang, em que poetas excêntricos se apaixonam por rochas ou pela lua. Essa China era lânguida, sutil, refinada. Quando Bertrand Russell visitou a China, escreveu numa carta para um amigo: Estou conversando diariamente com os dez homens mais inteligentes do mundo. O Brasil é uma espécie de China burra.

29.1.03

Uma das piores coisas
Uma das piores coisas que aconteceram com os negros é uma certa obsessão com raças. Quase todo filme ou livro escrito por negros trata da relação da raça negra com a raça branca. Até mesmo escritores muito bons, como James Baldwin ou Ralph Ellison, parecem só se interessar por isso - relacionamento de raças - raças. Imagine o que seria dos brancos se pensassem o tempo todo no seu relacionamento com a raça negra. Se nunca fossem livres para pensar em matemática, astronomia, metafísica. Se tivessem que se concentrar nesse assunto chatíssimo.

É claro que existem astrônomos negros, anatomistas negros, nerds negros. Mas não conheço nenhum. O assunto único na vida de cada intelectual negro parece sempre ser só um: o que os brancos fizeram com a gente, o que os brancos fazem com a gente, e o que a gente vai fazer com os brancos. É compreensível, e talvez eu fosse assim se fosse negro; mas deve ser uma desgraça para eles próprios. Só de me imaginar escrevendo livros sobre a condição branca (ou a branquitude) tenho enxaquecas de horror e nojo.


Note bem: se
Se eu fosse negro, criaria um blog chamado Negro Imundo, só para chocar as pessoas. E quando me mandassem emails reclamando, responderia: "Ué, mas eu sou negro. E tem mais - sou imundo!"


Sério, como?
Como se chama um negro da África em linguagem politicamente correta? Afro-africano?

28.1.03

Frase
Não há nada que chateie mais um escoteiro do que uma velhinha que consegue atravessar a rua sozinha.
(Richard Mitchell, o Underground Grammarian, que morreu um mês atrás)
Número
O ministro da fazenda admitiu que o número de miseráveis no Brasil, com o qual o PT costumava atacar o Fernando Henrique, não é na verdade 54 milhões, mas 23 milhões. (Li isso no Direita, e está aqui no Estadão se você quiser ler todos os detalhes.)

Ah, claro - agora eles dizem isso. O número era obviamente errado - 54 milhões é quase um terço do país - e eles sabiam que estava errado, mas usaram mesmo assim, porque era um número útil. Se não sabiam, pior ainda.

Prestem atenção para que esse número não apareça mais. Lá pelo final do governo Lula, a tentação de fazer esse número aparecer de novo vai ser muito grande: reduzimos o número de miseráveis no país, de 54 milhões para 42 milhões... Apenas prestem atenção.

27.1.03

A humanidade é uma gorda dançando num banquinho
Um homem deprimido via videocacetadas sem som, e ao invés de rir, ia ficando mais deprimido: Olha a humanidade, é assim mesmo, não conseguem dar dois passos sem cair, não conseguem saltar um riacho sem cair, não conseguem nem dançar sem cair, arrastando umas cinco pessoas junto, e a cortina também. Não conseguem chegar perto de uma piscina sem cair dentro, não conseguem chegar perto de uma avestruz sem ser bicados pelas costas. Seus filhos jogam bolas de beisebol direto nos seus testículos, seus cachorros os atacam pelos fundilhos, seus gatos fincam as unhas nas suas coxas. Não conseguem fazer um piquenique sem que uma lancha os atropele, não conseguem subir num cavalo sem ir parar debaixo do cavalo, não conseguem assoprar uma vela de aniversário sem pôr fogo no próprio cabelo. Olha essa gorda, olha essa gorda, dançando em cima de um banquinho. Já se sabe no que vai dar. Somos todos essa gorda, meu Deus, meu Deus.

26.1.03

Caricaturas
Estava vendo um filme com Johnny Depp (Profissão de Risco) quando fiquei meio irritado com os personagens mal-escritos: a mãe chata, a mulher chata, o drogado meio bicha, o drogado malucão. Daí a Verdade me ocorreu: é claro, os personagens não parecem reais porque essa é uma história verídica. Na vida real ninguém parece real mesmo. Todos parecem caricaturas - às vezes muito agradáveis, mas caricaturas. O romancista E.M. Forster dividiu uma vez os personagens de romances em planos e esféricos - os primeiros sendo unidimensionais, simples, estereotipados; os segundos sendo complexos e capazes de evolução. Pois bem, personagens esféricos são uma invenção de romancistas; na vida real todo mundo é plano. Quando há uma exceção e alguém nasce psicologicamente esférico, as pessoas ficam tão espantadas que escrevem livros sobre ele. Ver Samuel Johnson, Lincoln, Churchill.

25.1.03

Cidadania
Tenho a impressão que cidadania é uma palavra inventada pela MTV Brasil, para obter trabalho escravo. Funciona assim: o conceito deixa jovens empolgados. Aí eles sobem em caixotes e dão depoimentos muito maduros, cobrindo algumas horas de programação de graça e dando folga aos VJs. Depois são guardados num porão.


Geração Cabecinha-Boa
E as tias deles comentam, que cabecinha boa tem o Etevaldo para a idade dele. Descrição que se estende tragicamente ao país todo e ao seu presidente tosquinho também.

São contra todas as coisas feínhas. Achando sem dúvida que Fernando Henrique adorava as coisas feínhas.

Me lembro uma vez de ter parado numa farmácia onde duas senhôuras gordinhas viam tevê. Isso foi antes das eleições. Lula discursava contra o crime, dizendo que seu governo ia ser o governo da paz. Imediatamente uma das gordinhas pôs a mão no peito e disse, cheia de emoção: Isso, meu Deus. Isso é que nós estamos precisando. Paz, muita paz. Porque, é claro, Serra era a favor do crime, entende?

24.1.03

A nuca estúpida
Ontem vi um homem que tinha uma nuca estúpida. Ele estava no banco traseiro do carro que estava na frente do meu, e enquanto o farol não abria fiquei olhando pra ele. Não sei bem o que fazia com que aquela nuca parecesse estúpida. Talvez fosse porque ele usava boné. Não, não era isso – o boné estava virado pra frente. Talvez fosse o cabelo raspado – mas acho que também não era isso. Acho que instintivamente compreendi um mistério da estrutura óssea. Era impossível que um pensamento interessante saísse de nuca tão vil.
Paulo Salles
Em resposta a um poema que escrevi (manda o clichê que diga cometi) no post do dia 16.01.03, Paulo Salles me enviou por email um poema que é muito melhor que o meu, mas mentiroso - se caluniando violentamente em nome da deusa Modéstia. Hei de processá-lo para seu próprio bem.

Francis roars & shakes his whole truth in time:
"Lancis now is a name to fit the rhyme!
That stupid double-L blog, I was told,
Is dead, and the news did not make me shiver;
But why read a Salles when I have Silva,
And this Silva's so much betta than Gold?"


23.1.03

Aviso
O pessoal do Blogger arrombou a minha porta hoje, revistaram as minhas gavetas e me disseram que tenho até o final desta semana para colocar uma letra de música pop neste blog. Estou ouvindo de novo meus CDs, desesperado. Também me intimaram a colocar o resultado de um teste de personalidade qualquer até fevereiro. Digo desde já: entre os frequentadores do Antonio's na década de setenta, eu sou Regina Leclery; entre os frequentadores da mesa do Algonquin, eu sou Alexander Woollcott; entre os cavaleiros da távola redonda, eu sou Bandemaguz; entre os colunistas do Digestivo da 1a/2a geração, eu sou Alexandre Soares Silva; entre os personagens de Lovecraft, eu sou Shub-Nigurath, o Bode Negro da Floresta de Mil Filhos.
Interrompendo o longo monólogo
-É gostoso ser chato?
-Hein?
-Só me deu curiosidade. É gostoso ser chato?
The Nancy-Boy Song
(Velha canção do mar, que inventei agora)
Para ser lida em voz alta, de pé.
Sério, levante.

Madam,
Oh Madam,
Oh do you own this ship?
Oh do you own this ship, Madam,
Do you own this ship?

T'is a xebec not a ship,
A xebec not a ship,
And I am not a Madam, Sailor,
I am a little boy,
I am a little boy...
(Nas últimas linhas o leitor, representando o little boy, deve segurar as bordas da camisa com dois dedos e fazer uma dancinha. Tente de novo. Ah: experimente pronunciar "lítou", não "lírou." It's mindless fun.)


22.1.03


Lula foi eleito pelo mesmo motivo de que existem pornôs em que donas de casa fazem sexo com encanadores: paixão pelo Homem do Povo.

Percebe-se esse amor na maior parte dos humoristas do país, que sem parar fazem piadas a favor do Lula. Mas disfarçam com uma certa falsa irreverência, como por exemplo fazendo graça do seu modo de falar - que é mais ou menos como um bom filho fazendo graça com a barriga do pai, na frente dele, muito carinhosamente. Ou como se eu fizesse graça do sotaque caipira de alguma mulher que eu amasse. Não estamos rindo de você, Lula. É com você, ao seu lado.

No fundo eles queriam mandar ao presidente, pelo jornal, pela tevê, delicadas mensagens de amor trigueirinho. Mas disfarçam na forma de piadas carinhosas. Fico imaginando se os apóstolos faziam piadas assim na frente de Jesus.

-Jesus, cuidado com os romanos.
-Ele não precisa ter cuidado com os romanos, ele pode escapar andando por sobre as águas, não é, Jesus?

(risadas gerais)

No fundo os humoristas brasileiros me lembram um pouco essas mulheres que se espremem contra as grades nos treinos de futebol. Talvez uma hora Lula se aproxime da grade e dê um beijinho no Luis Fernando Verissimo.

21.1.03

O que quero da crítica
Vou lhe dizer o que eu espero de uma crítica: a reação de uma pessoa inteligente a uma obra de arte. É exatamente isso que eu quero, como leitor: as impressões de um homem inteligente. Não gráficos; não teorias científicas ou políticas; só quero que diga como se sentiu; que associações fez; onde estava quando viu tal filme, leu tal livro; na companhia de quem. O melhor momento na descrição que Mencken fez de uma luta entre Jack Dempsey e Georges Carpentier é quando ele fala de uma mulher linda sentada atrás dele: torceu por Carpentier em francês e aceitou o nocaute com heróica resignação. Fale disso – onde você estava e o que pensou quando viu o que viu – como estava se sentindo – e se um pensamento irrelevante, mas curioso, passou pela sua cabeça durante uma peça ou uma sinfonia, fale dele. Pelo amor de Deus, seja um ser humano. Não tenha medo de ser irrelevante – seja irrelevante. Não pense, se seu assunto é Goethe: meu Deus, estou me juntando à centenária discussão sobre Goethe – tenho que dizer algo relevante sobre ele, ou não falar nada. Não se junte à discussão relevante, naquele cômodo do inferno em que Edmund Wilson discursa para sempre sobre Goethe de modo muito relevante. Seja violentamente irrelevante e fale como se sentiu e onde estava quando leu sobre o país onde floresce o limoeiro. E acima de tudo: nenhuma menção a mimese, catarse, peripécia, carnavalização, Propp, Bakhtin, Marx, Freud - ou a qualquer outro científico filisteu que já tenha cunhado um científico jargão neste mundo. Eles todos ardem agora num muito científico e relevante círculo do inferno.

20.1.03

Jornalismo
"Havia uma vez um editor de jornal no Velho Oeste que estava sentado no seu escritório, pensando agradavelmente na vida, quando uma bala arrebentou a janela e foi se instalar na parede atrás da sua cabeça. Um sorriso de felicidade iluminou o rosto do editor. "Ah", ele disse contente, "Eu sabia que a nossa seção de colunas ia ser um sucesso!"
P.G.Wodehouse, Psmith Journalist
Duas curiosidades
Veja como a Livraria Cortez define a Ilíada. Depois dê uma olhada nisto: Xingamentos que Recebi. Mas só os mais pitorescos.

19.1.03

Victoria Regina, Rainha das Onças
(Esta história me foi contada por um inglês magro, já velho, de longos e tristes bigodes brancos, e olhos de um azul tão pálido que a princípio achei que era cego. Viajávamos no mesmo compartimento de trem, perto da fronteira com a Guiana Inglesa; e como eu lhe perguntasse o que fazia ali, para minha desagradável surpresa ele começou a falar em versos de vinte sílabas, com rimas e tudo.)



"Segundo a História, o caixão de Vitória sumiu-se nas terras esconsas.
Cem anos atrás ocorreu o naufrágio do velho paquete Thanatos.
E da mesma maneira que o Rei da Baviera é pra sempre o Monarca dos Gatos,
Aqui na floresta a Rainha Vitória é pra sempre a Rainha das Onças.


("Hein? Esconsas? E que história é essa do Rei da Baviera?" "Shhhhhhh", ele falou. "Só escute, old boy")


Roubaram o corpo e sumiram com ele, e na selva lhe ergueram um trono;
E lá nesse trono descansa Vitória (cercada de súditas sonsas
Que como tributo lhe pagam com ratos, com frutos, e com geringonças).
O Império portanto prossegue na selva - e Vitória, ferrada no sono,


Nem sabe o consorte que as onças lhe deram: o cadáver de Pedro II.
Cobertos de moscas, casaram os dois na metade do décimo outono,
E cem anos depois, não se largam as mãos, e se olham com grande abandono.
Nas pompas, nas festas, depois de um bom banho, Dom Pedro, bem menos imundo,


Inclinando a cabeça, movido por onças, a beija na boca sequinha.
E vêm as araras e voam por cima - e dança o sagüi vagabundo,
E todas as onças emitem um urro (sincero, leal e profundo),
Jurando aumentar o Império das Onças, "dali até a orla marinha!"


“Amamos o Império e o duplicaremos sem necessidade de espelhos!
Não sossegaremos enquanto as Guianas não forem da nossa Rainha!
Juramos lealdade a Vitória Regina! Beijamos a sua bainha!”

(Por onde passaram deixaram só corpos, e os bosques estavam vermelhos.)


Em mil novecentos e noventa e cinco, um inglês, se metendo nos matos,
Achou por acaso a Rainha e o Rei - e chorando ficou de joelhos.
Nesse instante seis onças comeram o inglês (rejeitando seus duros artelhos),
E as lágrimas tristes serviram de sal, e as onças rasparam os pratos.


Segundo a História, o caixão de Vitória sumiu-se nas terras esconsas,
E várias equipes de mergulhadores procuram em vão o Thanatos.
E da mesma maneira que o Rei da Baviera é pra sempre o Monarca dos Gatos,
Aqui na floresta a Rainha Vitória é pra sempre a Rainha das Onças!"




(Terminada a história, o inglês olhou pela janela, como se tivesse medo de já ter passado o lugar de destino; e começou a abri-la devagar. Sorriu e disse: "Você já deve ter percebido que eu sou o mesmo inglês da história. Adeus". "Mas espere, o trem já vai parar por si mesmo; não é preciso se jogar pela janela!", eu disse, alarmado. "Precisar não é preciso, mas assim é muito mais romântico", e se jogou dando cambalhotas violentas no relvado. Meti a cabeça pra fora do compartimento e gritei: "Um conselho pra você, seu inglês mentiroso! Nunca mais use a palavra esconsas! Nunca mais!" Mas seu vulto franzino já tinha sumido na floresta.)

18.1.03

Conhecem Flann O'Brien? Estava lendo "The Myles na gCopaleen Catechism of Cliché" quando me ocorreu a história de amor que vocês vêem abaixo. Espero que gostem da minha pequena...

... APOLOGIA DAS DROGAS

Apologia e drogas estavam casadas havia muitos anos. Muito felizes eram ambas, e para toda parte eram convidadas e iam juntas, cada uma segurando uma mãozinha do seu filhinho das.

Um dia drogas se cansou, simplesmente se cansou de estar sempre acompanhada de apologia. “Apologia”, drogas disse, “chega, quero dar uma volta, falar com outras pessoas. Pare de me seguir, é horrível. Para onde quer que eu vá, você me segue, respirando na minha nuca.” “É a defesa, não é? Você quer sair com a defesa, é isso, não é?”, perguntou apologia. “Sim, confesso”, disse drogas, “tenho saído um pouco com defesa. Mas nunca vamos poder viver juntos, se você quer saber. As pessoas esperam ver apologia; quando vêem defesa ao meu lado, levam um choque. Ela é parecida com você, mas um pouco mais simples. Eles acham que ela é simples demais, que não combina comigo. Eu acho que ela é perfeita, e eu a amo, apologia, eu a amo...”

Defesa e drogas foram vistos algumas vezes, com o pequeno das claudicando no meio. Mas a cara de nojo de uma sociedade pernóstica foi o suficiente para destruir o casal. Drogas, no entanto, conseguiu ao menos liberdade para passear sozinha, ou com os amigos, longe de apologia; e apologia, dizem os boatos, também tem sido vista com outros parceiros. Mas cada vez que, por acaso, defesa e drogas se cruzam na rua... Ah, na minha opinião formam um casal muito bonito, muito simples; e certamente há amor nos olhares que trocam.


***************



-Is he barking mad?
-He's not really defending drugs, you know.
-Oh.
-You're not very bright, are you? Not the brightest bulb in the Christmas tree?
-Heheh. He got me scared for a moment there. What?


17.1.03

A Religião da Aventura
Vi “Caçadores da Arca Perdida” umas dez vezes quando criança; era a minha religião. Achava que em alguma parte do meu futuro iria me encontrar num país do oriente, numa estrada sinuosa, pulando de caminhão em caminhão e sendo perseguido por sepóis ou si-fans.

Também achava que em algum ponto do futuro haveria para mim uma batalha no alto de um arranha-céu. O que é a vida de um homem sem uma batalha no alto de um arranha-céu? Nada, eu lhes digo.

No Paraíso essas coisas nos esperam. É necessário que o Paraíso tenha demônios, e grandes batalhas no alto de torres. Mas enquanto isso percebe como a sua vida seria melhor se existisse, digamos, uma ONG para o desenvolvimento de criminosos orientais de uniforme?


Pense nas possibilidades
Os uniformes seriam desenhados por quadrinhistas japoneses. Haveria uns dez tipos diferentes de criminosos (ou si-fans), com diferentes uniformes e armas. Você estaria trabalhando, por exemplo, e ficaria com medo que houvesse um si-fan escondido numa baia. E nem seria um medo infundado: de vez em quando haveria um mesmo. Você se ergueria e diria, em voz controlada: Atenção! Si-fans! Vocês rolariam pelas baias, lutariam nas escadas de incêndio. Mighty fun.

16.1.03

Aristóteles quando criança.
-Quer mingau?
-Que mingau, mamãe? Devemos distinguir quatro tipos de mingau... (etc etc)


Meu problema com filosofia é que eu não consigo ler sobre uma distinção sem pegar no sono. Quando tinha insônia na adolescência, pedia ao meu irmão Ricardo que fizesse uma distinção, uma distinção qualquer, (desde que meticulosa) para que eu pegasse no sono. Ele começava: “Devemos distinguir quatro tipos de sonhos quanto à roupa que estamos usando, 1) os sonhos em que estamos pelados, 2) aqueles em que estamos de cueca, 3) aqueles em que estamos completamente vestidos, mas com as roupas do sexo oposto, ou curiosamente não-apropriadas, como por exemplo jogando frescobol com roupas de garçom, ou remando numa trirreme usando um avental branco manchado de produtos químicos.... – e imediatamente eu estava babando e roncando.

Outro problema meu com a filosofia, além das distinções, são as definições de termos. Quase não há livro de filosofia que não comece com uma definição desinteressantíssima do que é filosofia. Não, minto, é pior – começam sempre com uma definição desinteressantíssima do que não é filosofia. Achando sem dúvida que isso é originalíssimo.

Sério mesmo, acho que se alguém pega um livro de filosofia pra ler, é porque já sabe o que é filosofia. Ninguém lê livros de haplologia, porque ninguém sabe o que é isso. Filosofia todo mundo já sabe, caramba. Se o autor quer ser muito espertinho e faz questão de contrariar a definição dada pelo senso-comum, que ao menos dê uma definição rápida e interessante, mesmo que absurda.


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Ah, sim - mudando de assunto:

You may say what you will, but Paulo Francis
Reads one blog only - and that's Lucida Lancis.
In Paradise he wakes up every night
(He can't get out of bed without a fight)
And kneeling down, the old Brazilian ghost
Asks God for just one little tiny post...


Ainda no assunto blogs: Júlio César, Raínha da Bitínia, lançou um; para que as pessoas em Roma saibam o que ele anda fazendo na Gália. Hoje mesmo ele ouviu falar de Vercingetórix pela primeira vez. E, enquanto isso, em 1660, meu amigo Samuel Pepys não conseguiu dormir por causa de um cachorro latindo. (Isso não é nada. Na semana passada ele foi ao Parlamento e descobriu que estava fechado, porque todos estavam rezando e jejuando; o que mostra que época turbulenta foi essa. E está a apenas cinco anos da Grade Praga de Londres e a seis do Grande Incêndio. Estou preocupado com ele.)


You may give many names to my affliction,
Like
angst, or mal du coeur, or simply spleen.
I for myself prefer the term
addiction.
I'll die without my fix. Please tell Miss Veen.



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-The Captain's done it again.
-What? (sorrindo) What has he done now?
-He's posted in English. Again. People are complaining. Number of visits is going down. Oh, the Captain is a reckless one, lad.
-You've never spoken a truer word, Johnny me boy.


15.1.03

Cultura Afro
Acho muito justa essa lei que obriga as escolas brasileiras a ensinar Cultura Afro. Podemos começar com J.R.R. Tolkien, que nasceu na Cidade do Cabo em 1892.


Problema?
A palavra desafio é sempre dita hipocritamente. Alguém confessa um fato monstruoso e pergunta para a outra pessoa se isso é um problema. “Problema? Não, é um desafio!”
Mas é claro que é um problema.


Soneto
Ah, sim. A Musa me visitou ontem. Ouvimos CDs, lemos histórias em quadrinhos e assistimos a um episódio de Buffy. Na saída do condomínio, ao ver um passarinho num pinheiro, ela me inspirou a escrever um soneto cheio de tragicidade e pathos existencial, essas coisas. Me digam o que acham disto:
UM PÁSSARO CAGOU NA MINHA ALMA

Um pássaro cagou na minha alma
Que, pobrezinha, emporcalhou-se inteira.
Envergonhado, fui onde vivalma
Veria a tragicômica sujeira.

Partira a ingrata ave desta palma!
Partira desta mão a prisioneira!
Urrei na imensidão da noite calma,
Amaldiçoando-a lá na cumeeira.

Assim da vida nada mais espero
Que muita ingratidão, muita meleca.
Lição bem-dada pela cotovia,

Que me pagou um gesto tão sincero
Fazendo mira na minha careca,
Cobrindo-a toda de alva porcaria!


(Nota: Anotei o soneto numa nota fiscal da Blockbuster, apoiado no carro da Musa, enquanto ela me ditava. Lágrimas escorriam do meu rosto nobre, vagamente arábico. Perguntei a ela: Ah sim, já que você está aqui - qual a diferença entre pathos e bathos? Ela sorriu enigmaticamente e entrou no carro sem dizer nada. Eram 22:45.)

14.1.03

Homem Aranha e o Diabo Sanchinho
Toda criança, ao ler histórias em quadrinhos, acha que a sua vida vai ser épica; e às vezes descobre, horrorizada, que se transformou num drama naturalista do tipo O Cortiço, ou numa pornochanchada com Wilza Carla, ou num pornô gay. Mas por acaso isso é culpa de Deus? Ele colocou, lá no início da história, um Arquiinimigo do tipo Duende Verde - exatamente para que as pessoas passassem a vida de modo tão interessante quanto a do Homem Aranha.

13.1.03

Confissão ridícula
Uma das minhas fantasias mais ridículas é a de que em outra encarnação eu fui um militar escocês, liderando uma unidade pequena, mas muito leal, nas Highlands. Agora, lá de um castelo no Paraíso, eles comentam benignamente a minha vida.

- O Capitão está tendo problemas com....

Não, espera. Tem que ser em inglês com sotaque das Highlands.

-The Captain is having trouble with women.
-Oh.
-Truth be told, the Captain always had trouble with women.
-Well at least he gets himself some women, which is more than one can say about some of us, MacAndrews from Glomendale.
-Meaning what, MacMunney from Lochdale?
-You know bloody well what I mean, MacAndrews from Glomendale.
-Shut up.
-No, you shut up.
-Shut up both of you, or I'll smack your ugly mugs.


Não tenho a menor idéia se escoceses falam assim mesmo.

-Have they told you about the Captain?
-No, what?
-Can't find proper means of subsistence.Civilian life is no life for a man, sonny.
-And how would you know that, MacAndrews from Glomendale?
-I know things, never you worry how, MacMunney from Lochdale.


De vez em quando, pensativo, vou até a varanda, à noite; e imagino eles conversando assim.

-The Captain is at it again.
-At it what?
-You know... Chasing skirt.
-Oh. I thought you meant...
-Noooo, noooo. He stopped that!

12.1.03

Se alguém encostar de leve a mão no seu ombro, depois de algum tempo você deixa de sentir; é preciso que a pessoa mexa a mão de vez em quando para que você continue sentindo que ela está lá.

É por isso que os pintores foram mudando a arte, criando o fauvismo, o expressionismo, o cubismo, o abstracionismo: porque depois de algum tempo os quadros ficam invisíveis.

A força do tédio: o tédio dissolve as tintas, faz tudo ficar invisível.

Proponho que a diferença entre Malevich e Nicholas Roerich não era talento, mas tédio; Malevich se entediou mais rápido com o figurativismo e foi fazer outra coisa, qualquer coisa...

Os artistas contemporâneos não se entediam nunca: cem anos depois, continuam fazendo as instalações que Duchamp fez uma vez e depois cansou.

Se se entediassem com a arte contemporânea, tendo o caminho bloqueado à frente, poderiam voltar para trás; torniamo all'antico, sarà un progresso.

11.1.03

Falso provérbio chinês
Nem sempre a Grande Arte vem pela Estrada da Grande Arte.
Dandy-Boy Alex
Acaba de sair na Inglaterra o livro “Alexandre Soares Silva, Costermonger and Gorbals Thug”, de A.N.Wilson (Farrar and Giroux, 556 pgs). O livro deve servir ao menos para acabar com o mito da minha infância aristocrática. Wilson conta minhas origens operárias (sim, sim) no perigoso bairro dos Gorbals em Glasgow, onde cedo formei uma gangue e recebi a alcunha de Dandy-Boy Alex. Foi uma carreira curta. O assassinato a navalhadas de um leão-de-chácara, cometido com crueldade grotesca (matei-o enquanto recitava trechos de “Do Assassinato como uma das Belas-Artes”, de De Quincey, com horroroso sotaque dos Gorbals) logo me levou à prisão de Reading, onde durante dezessete anos vi o sol nascer retangularmente. Na prisão fui visitado por Jimmy Page, que queria sentir o frisson de ver um assassino de perto. Matei-o com uma fendente seguida de uma mandritta e um mortal squalambrato; coloquei aí os links para que vocês entendam esse momento lindo da arte da esgrima. Aqueles que vocês conhecem como Jimmy Page, lamento dizer, é “Londoner” Charlie , a.k.a. "Girlie" Charlie, a.k.a. Charles MacAndrews Sutton, um antigo membro da minha gangue. Quanto a A.N.Wilson, escreveu belas biografias de C.S. Lewis (a.k.a. Clive Gorilla Lewis, the Narnia Killer, the Professor), Tolstoi (a.k.a. Mad Russian Leo, Crazy Count Leo, The Count, etc) e Hilaire Belloc (a.k.a. The Popish Thug, The Popish Killer, The Pope).


Para saber mais sobre Alexandre Soares Silva
Livro: "Alexandre Soares Silva, Esquecido Heroe da F.A.B." (sic), da Saraiva S.A. Livreiros-Editôres, 1951. Org. Coronel Otaviano Siqueira Dutra. (a.k.a. "Siqueirinha", "O Siqueirinha", etc)

10.1.03

conto
O GAROTO

Uma vez um garoto morreu num acidente de carro. De longe ele viu o próprio rosto sangrento, as pálpebras inchadas, e achou graça. Mas não sabia voltar pra casa. Andou pela avenida, parou pra ver as revistas na banca, e depois entrou num shopping center.

Nesse shopping havia uma grande loja de móveis, dessas que têm falsos quartos decorados, com paredes de fórmica. O garoto gostou de um quarto de adolescente, e ficou morando ali durante alguns anos. A única coisa chata era que a tevê e o computador eram falsos. Eram só caixas de plástico, vazias e leves. O garoto sentava na frente da tela e imaginava que via um filme ou jogava um jogo.

Outros fantasmas viviam na loja: um casal de japoneses no quarto de casal ao lado (também tinham morrido num acidente na avenida, mas fazia muito tempo), e uma mulher gorda num quarto em estilo japonês, com a cama no nível do chão. Quando ela viajava, o garoto dormia na cama dela. Mas às vezes o garoto dormia nos muitos beliches dos quartos de criança.

Um guarda noturno todas as noites espiava pelos buracos da porta metálica. Ele no corredor do shopping, o garoto dentro da loja. O garoto dizia:

- Oi.

O guarda olhava, com os olhos arregalados, mas não dizia nada.

O garoto esperava que algum dia seus pais entrassem na loja de móveis. Uma vez sua ex-namorada entrou no quarto, no momento em que ele imaginava que via um filme chato. Ela tinha crescido e engordado, e os seios estavam enormes. Olhou desinteressada o quarto, cutucou o computador falso e foi embora. O garoto a seguiu durante algum tempo pelo shopping, mas depois se cansou.

Finalmente, depois de oito anos, um dia, mais magrinha, a mãe apareceu; comemoraram, choraram. Mas onde estava o pai?

- Vai demorar ainda um pouquinho.

Ela olhou para o casal de japoneses, e para a mulher gorda, com um pouco de nojo no rosto molhado de lágrimas; e não entrou no quarto que o garoto tinha reservado pra ela, só olhou da porta. Disse que ia levá-lo para uma cidade praiana.

- Morar num shopping, que idéia.

Quando estavam atravessando o shopping, a mãe viu o guarda noturno parado no cruzamento de dois corredores. Ele olhava pra eles, com medo de entrar naquele corredor. Mas não ia embora, ficava olhando.

A mãe meteu o braço (marcado por pequenos esparadrapos brancos) na bolsa, para dar uma gorjeta - mas o garoto riu da idéia. Atravessaram o shopping, que para eles estava iluminado, e saíram. Na avenida o garoto apontou para uma pequena indentação num poste metálico. A mãe se abaixou pra ver.

- Que coisa. Doeu?
- Não! Eu fiquei naquela banca ali...

Viraram uma esquina, sumiram.




9.1.03

DOIS APOLOS NO MINISTÉRIO

("O ministro da Cultura, Gilberto Gil, se apresentou hoje aos seus funcionários e anunciou alguns dos nomes da nova equipe que vai trabalhar com ele. Gil anunciou (...) o secretário do Livro e Leitura, Waly Salomão..." - Correio Web, 08/01/2003)







Meu Deus! Waly e Gil, Gil e Waly –
Quem é mais lindo, este ou este aqui?

Quem mais formoso? Quem é mais viril?
Eu tenho que dizer Gilberto Gil,

Apesar das miçangas nas trancinhas.
Assusta muito menos criancinhas,

Parece menos com um bode, eu acho.
(E em certos dias quase, quase é macho.)

Diz a nação com gigantesco estrondo,
achando lindo esse par hediondo:

- O quê? Waly viado? Gil gilette?
Medonhas essas caras? Que topete!

Chega! Ambos lindos! - diz tutto il mondo -
Gil é Alain Delon, Waly Belmondo!

E machos são os dois, já que não cedem
Ao que seus corpos sem cessar lhes pedem!

Quando se olham, querem (natural!)
Um beijo em cadeia nacional;

Mas sendo tão hetero quanto lindos,
Seus dias de viados sendo findos,

De mãos dadas correndo pelos pastos,
Contentam-se com muitos beijos castos!

E ter que ouvir ainda que são gays!
(Contra mentiras tais há várias leis!)

- Talvez - digo eu - vocês tenham razão.
Mas que são feios... Ah, lá isso são.



(Assinado não pelo Alexandre, não - acreditem, acreditem - mas por alguém que jamais, jamais, quererá um cargo público. Digamos apenas que foi colocado à porta do Alexandre, e assinado apenas - Língua Negra. Sim - uma das figuras mais misteriosas do Reinado Lula, nunca a ser confundido com o frívolo Don Alejandro.)


8.1.03

Falando bem dos irmãos Campos
Todos os meus amigos detestam os irmãos Campos e seu delicias domini Décio Pignatari. Eu também. Mas, para dar aos meus amigos um choque, quero agora defender essas três figuras sinistras. Há quem amigavelmente jogue ovos nos amigos, ou puxe a cueca deles para fora da calça; eu, para causar um efeito semelhante, defendo os irmãos Campos e o agregado deles. Uma espécie de brincadeira de mão da mente.

Andei lendo o que eles escreveram, à procura de algo que me agradasse. Encontrei isto,

“...papoulas de ar”,

que está lá escondidinho num verso do Soneto de Bodas, de Haroldo de Campos:

Luar de copas e marfins renhidos
Tua nudez a riste contra o mar.
Violetas roucas sobre os teus soluços.
E rosas tênues e papoulas de ar.
Um novo deus conjura os vaticínios,
E eu sorvo o mês, em taças, contra o mar,
Tua nudez orçada em meus espelhos,
E rosas tênues e papoulas de ar.
Quem te ensinara o diapasão das noivas
Embevecido em lírios de ninar?
Ó Bem-Amada, quem te apascentara
Nos mansos trigais desse apascentar?
Plumas de outono para as tuas bodas
Que defloresces nos porões do mar.

Aliás, não é um soneto muito ruim. Muito ruim, não. Mas só gostei desse “papoulas de ar”, que é legalzinho; e um pouco de “...nos porões do mar”.

Foi só isso que encontrei de bom, no entanto, em tudo que esses três escreveram.

(A melhor definição Desses Três que já ouvi foi dada distraidamente pelo meu amigo Dundas, num sonho em que o visitei na sua casa do Paraíso. Li para ele alguns versos de Augusto de Campos:

“A língua: a lânguida rainha melancálida
(Dundas aqui ergueu a cabeça do livro que estava lendo, se interessando)
enrolada em seu bathbreathbanho palatino
(aqui ele voltou a ler, se desinteressando),
a sempitépida, a blendalmolhada e alqueblându-las
(quando disse para ele que alqueblându-las tinha um travessão entre du e las, ele riu pelo nariz)
cobras corais como cópulas de oravoz”...
(e aqui ele olhou rapidamente pra mim, como se eu tivesse ferido os seus sentimentos.)

-Que acha?
-Ah! Um Lewis Carroll solene.
E voltou a ler o seu livro.)

E agora me dizem que Haroldo de Campos lançou uma tradução da Ilíada. A única vez que tive sangramento nasal quando adulto foi ao ler a tradução de Odorico Mendes da Ilíada. Foi justamente neste trecho:

A íngreme Trioessa à margem fica
Do Alfeu, na extrema da arenosa Pilos:
Na ânsia de sorvetê-la, a sitiavam...

Foi bem na palavra sorvetê-la, se me lembro bem . E ainda querem que leia a tradução de Haroldo de Campos? Abri o livro ao acaso na Livraria Cultura e fiquei com a impressão que Haroldo se referia a Aquiles como "fera ferida". Fechei o livro antes que descobrisse que ele se refere a Juno como "uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel" - o que aposto que ele faz, porque evidentemente adora Maria Bethânia.

E depois, como reparou o Polzonoff, essa edição dá mais destaque na capa a Haroldo de Campos que a Homero. Isso sempre me irrita. Nos anúncios de peças de teatro, por exemplo, é sempre assim:

Rei Lear
DE: ZÉ DAS COUVES
Com: Maria das Couves
Uma Promoção: Wet and Wild and Amazing Parking System Dude
texto: william shakespeare

Bom, vejo que acabei não falando bem nem dos irmãos Campos, nem do Décio Pignatari. Mas bem que tentei! Me dêem ao menos crédito por ter tentado.

7.1.03

As imbecilidades de Byron e Shakespeare
Chesterton insiste que todos os grandes escritores eram exagerados e sentimentais, e que a mesma qualidade que fazia com que escrevessem grande literatura fazia com que também escrevessem páginas horríveis. Diz também que o que caracteriza os escritores medíocres é a incapacidade de escrever mal; não têm o desequilíbrio dos grandes. Vou citar um trechinho; está no capítulo On Smart Novelists and the Smart Set do livro Heretics (1908):

“...aquele miserável medo de ser sentimental, que é o mais mesquinho de todos os medos modernos – mais mesquinho até do que o medo que causa a higiene. O humor robusto e contagiante sempre veio de homens que eram capazes não só de sentimentalismo, mas de um sentimentalismo bem tolo. Nunca houve humor mais robusto ou contagiante que o do sentimentalista Steele ou o do sentimentalista Sterne ou do sentimentalista Dickens. Essas criaturas que choravam como mulheres eram as mesmas que riam como homens. É verdade que o humor de Micawber é boa literatura e o pathos da pequena Nell é má literatura. Mas o tipo de homem que teve a coragem de escrever tão mal em um caso é o mesmo tipo que teve a coragem de escrever tão bem no outro. A mesma inconsciência, a mesma inocência extremada, a mesma gigantesca escala de ação que trouxe ao Napoleão da Comédia sua Jena também lhe trouxe sua Moscou. E aqui vemos com clareza a frágil e frígida limitação dos nossos modernos escritores elegantes. Eles se esforçam violentamente, heroicamente, quase pateticamente, mas na verdade não conseguem escrever mal. Há momentos em que quase pensamos que eles conseguiram, mas nossa esperança desaparece quando comparamos suas falhazinhas com as enormes imbecilidades de Byron ou Shakespeare.”


(“...that miserable fear of being sentimental, which is the meanest of all the modern terrors--meaner even than the terror which produces hygiene. Everywhere the robust and uproarious humour has come from the men who were capable not merely of sentimentalism, but a very silly sentimentalism. There has been no humour so robust or uproarious as that of the sentimentalist Steele or the sentimentalist Sterne or the sentimentalist Dickens. These creatures who wept like women were the creatures who laughed like men. It is true that the humour of Micawber is good literature and that the pathos of little Nell is bad. But the kind of man who had the courage to write so badly in the one case is the kind of man who would have the courage to write so well in the other. The same unconsciousness, the same violent innocence, the same gigantesque scale of action which brought the Napoleon of Comedy his Jena brought him also his Moscow. And herein is especially shown the frigid and feeble limitations of our modern wits. They make violent efforts, they make heroic and almost pathetic efforts, but they cannot really write badly. There are moments when we almost think that they are achieving the effect, but our hope shrivels to nothing the moment we compare their little failures with the enormous imbecilities of Byron or Shakespeare.” )



6.1.03

As últimas palavras de Líbero Badaró
"Morre um liberal, mas não morre a liberdade", disse Libero Badaró ao ser assassinado em 1830.

Que frase estupidamente pomposa. Especialmente na hora da morte. Fico imaginando, nesse momento, seus filhos se entreolhando: “Ai, como papai é chato”.

Se eu morrer na rua, espero ter algo espirituoso para dizer, ou não dizer nada. Ou, vá lá, dizer algo banal, humano, como “Tem uma pedra debaixo da minha bunda, tira, tira!” Mas não uma coisa pomposa dessas como a que Libero Badaró disse. Imagine uma atriz pornô dizendo ao morrer: “Morre uma atriz pornô, mas não morrem os filmes pornôs". Não, atrizes pornôs são menos pomposas (de modo geral) do que um idealista político; o que me faz pensar que, se eu passar por uma rua em que um idealista político e uma atriz pornô estão morrendo ao mesmo tempo, vou ouvir o que a atriz pornô tem a dizer, que deve ser menos chato.

Está certo, na frase de Líbero Badaró está subentendida outra: “Vocês me mataram, mas outros me vingarão, seus desgraçados!” Eu o respeitaria mais se ele tivesse dito exatamente isso. Ou um simples palavrão.

5.1.03

"Só os documentos humanos fazem os bons livros: os livros que têm verdadeira humanidade sobre suas pernas", escreveu Zola.

(Ah, é? E A Vida das Abelhas?)



Ah, leia isto. E isto:



A Prayer To Bacchus

Scared by mist, scared by blast,
God-appalled Philon held forth to the mast.
The sea was malignant, mischievous - a bore:
It had stolen his lunch, and was hiding the shore.
Eyes opened with terror, now suddenly pious,
And gone all the strength from his lips, legs and rectus,
(I didn’t say rectum, mind you, but rectus)
He knelt on the deck, thus praying to Bacchus:
“O God of that thing that I drink when I’m thirsty,
You very well know that I’m barely thirty!
That thing that you do - I forget what it’s called -
(I’m so flabbergasted, astonished, appalled)
That ocean-dark thing, that goes well with sea-food -
I haven’t yet drunk half of what has been issued!
O give me but time, and I’ll drink it to death!
Just don’t let me die of that other thing ‘stead!”

4.1.03

Os Silvas
Uma das besteiras que disseram sobre a eleição de Lula à presidência é a de que finalmente os Silvas chegam ao poder. É muito desconhecimento de tudo e de todos. Lendo um livro de análise literária, “A Estrutura d'Os Lusíadas”, de Jorge de Sena (Portugália Editora), encontrei, na página sete:

“O bisavô de Camões, filho segundo de Vasco Pérez de Camões, casou com uma Inês Gomes da Silva, que foi assim a bisavó do poeta. Esta senhora era filha bastarda de um Jorge Gomes da Silva, por sua vez bastardo de Gonçalo Gomes da Silva, primeiro alcaide-mor de Soure, por mercê de D. João II. É muita bastardia sucessiva, mas, graças a ela, Camões podia dizer que contava entre os seus “parentes” os duques de Aveiro, os condes de Portalegre, os condes de Vimioso, os condes de Tentúgal e marqueses de Ferreira, em Portugal, e, em Espanha, os duques de Pastrana, os duques de Béjar, os duques de Medina-Sidónia, os marqueses de Montemayor e os de Ayamonte, os condes de Gelves, e os condes de Cifuentes, etc. Porque, por aquele casamento do bisavô de Camões, a família aparentava-se com outro tremendo clã: o dos Silvas, extremamente poderoso em Portugal e em Espanha, sobretudo na segunda metade do século XVI e princípios do século XVII. Se Camões tivesse podido viver até aos 115 anos, teria saudado uma sua prima no trono restaurado de Portugal: a rainha D. Luísa de Guzmán.”

Tudo isso para dizer que a família não precisou exatamente do seu ramo de Garanhuns para chegar ao poder.


Hein?
Mas o quê estou dizendo? Eu até gosto do presidente. O pequeno hobbit castrista. Frodo Nine Fingers de Garanhuns. Ah, mudando de assunto: meu amigo Samuel Pepys acaba de lançar um blog - 343 anos atrás.
Algumas palavras
Todas as pessoas que usam as palavras confundir, liberdade e libertinagem na mesma sentença deveriam levar um tiro no joelho; exceto eu, que acabei de fazê-lo por motivos caridosos; mas todos os outros, sim.

Apologia é sempre às drogas? É só falar em drogas, que se fala de apologia? E apocoloquintose, por exemplo? Ninguém faz apocoloquintose das drogas?

3.1.03

Sentimentos bacaninhas
Na tevê um jovem cheio de sentimentos bacaninhas falava sobre política, e eu entrei em pânico e corri para a varanda. A voz dele ainda chegava até lá. Pior do que ser mau é ter sentimentos bacaninhas - ainda mais com aquele olhar vácuo de criminoso e aquela sintaxe entrecortada de jovem. Depois entrei no quarto, e fui cair no blog de uma menina cheia de sentimentos bacaninhas também, do qual passei em pânico para o blog de um fotógrafo com sentimentos ídem-ídem. Por quê as pessoas não podem simplesmente ser boas, ao invés de terem sentimentos profundamente bacaninhas?


Neste auspicioso momento...
Sim, neste auspicioso momento que estamos vivendo, declaro, claro, que compartilho inteiramente dos sentimentos bacaninhas da nação e de seu presidente nonodáctilo; e que se alguma vez dei a impressão que não, foi pelas más companhias; inteiramente pelas más companhias.
Guerra e Paz
Comecei a reler Guerra e Paz. A última vez que li, tinha dezessete anos. Mas ao entrar mais uma vez na casa de Ana Pavlovna, noto que ninguém mudou nada, ninguém aprendeu nada; mais de quinze anos se passaram, e Ana Pavlovna continua com seus entusiasmos fingidos e sua devoção fingida à Imperatriz Maria Fiodorovna; o Príncipe Basílio continua o mesmo velho cruel , falsamente suave. Ah! Mas eis que Pedro Bezukhov e o Príncipe André entraram na sala – e também eles não mudaram nada. Vou me sentar num canto e ouvi-los falar.

2.1.03

A vida sem ela
Amantes jovens às vezes dizem, depois da separação, que “a vida vai ser impossível sem ela”. Os outros riem disso, e eles mesmos riem, passados dois ou três anos. Mas acho que estavam certos antes, e ficaram errados depois. No momento da separação, viam com clareza algo; passados dois ou três anos, se esqueceram desse algo. Mas estavam certos antes.

1.1.03

Vem cá, esse negócio de Tribalistas – eu sei, eu sei, todo mundo já falou mal deles, mas – mas – eles não parecem um pouco aquelas histórias em quadrinhos em que vários supervilões se juntam para formar um grupo? Não parecem?


-Mãe.
-Diz.
-Estou com medo dos Tribalistas. Dorme comigo...
-Não posso, filha. Mas olha, pronto, eu tiro o CD deles daqui e coloco na gaveta. Melhor ainda, levo embora. Tá bem?
-Tá.
-Pronto. Se cobre. Dorme bem.
-Mãe.
-Que foi?
-Não quero que os Tribalistas matem a senhora e o papai durante a noite.
-Não, não, pode deixar. Olha, vou rasgar a capa. Está vendo? Estou rasgando a capa.
-Joga no lixo!
-Vou jogar.

And so this is Christmas
Não, espera, errei. É Ano-Novo. Feliz 1953!
Nossa, tomei todas. Salut!