28.2.03

Silicone
Acho até Ok e très chic bombardear uma clínica de aborto (ouço os pacifistas indignados: mas e as criancinhas?), mas queria que alguém inaugurasse o digno esporte de explodir clínicas de cirurgia plástica estética. Essas clínicas pegam mulheres bonitas, feias e insossas e as igualam na feiúra peituda. E os seios saem excessivamente redondos, como uma bexiga cheia de água, e às vezes, repare bem, até quadrados. O sorriso de uma mulher que colocou silicone nos seios é sempre feio.

Querer uma mulher siliconada é parafilia. É como querer uma mulher chamada Edinéia. Elas são mostradas no alto dos carros alegóricos justamente para causar o frisson do horror - é a nossa versão dos freak shows americanos. Os camarotes VIP também são a nossa versão dos freak shows americanos. Bem, temos muitas versões de freak shows americanos: nosso presidente engole seus próprios dedos, um a cada 50 anos.

Nenhuma mulher que se balança pelada num carro alegórico tem mente. Foram criadas num buraco de um metro de largura por dois de profundidade, onde ficam pulando à espera de comida (carne crua), como as criaturas monstruosas em O Caso de Charles Dexter Ward, de Lovecraft.

Sem contar que me dá nojo. O silicone, digo. Bom, acho que a todos nós... Tenho a impressão que se uma mulher dessas chegasse perto de mim, com sua cara amassada (elas têm sempre a cara amassada, devem apanhar muito), eu cutucaria o seio dela com um galho comprido.

Homens que gostam de seios siliconados gostam exatamente disso, de seios siliconados – e não propriamente de mulher.

27.2.03

Sammy J.
Ia dizer que estou apaixonado por Samuel Johnson, mas considerando-se o nível de alguns poucos, mas barulhentos leitores de blogs, acho melhor não dizer. Mas, bolas, já disse.

Estou lendo Lives of the English Poets, Vol. 1 (1779), no qual Johnson fala sobre vários poetas, como Milton, Cowley, Samuel Butler, Flag, Dryden , Addison e outros. Que posso dizer? Johnson nunca está errado. Às vezes até está errado, mas está errado de uma maneira tão inteligente que envergonha todos que estão certos.

Johnson sobre Milton, então, é um dos tais Momentos Mais Altos do Espírito Humano, sobre os quais falava ontem, lembra? Ouça isto:

He seems to have been well-acquainted with his own genius, and to know what it was that nature had bestowed upon him more bountifully than upon others; the power of displaying the vast, illuminating the splendid, enforcing the awful, darkening the gloomy, and aggravating the dreadful: he therefore chose a subject on which too much could not be said, on which he might tire his fancy without the censure of extravagance.

(“Ele parece ter tido uma boa noção de seu próprio gênio, e saber o que a natureza lhe deu com mais generosidade do que aos outros; o poder de descrever o que é grandioso, iluminar o que é esplêndido, reforçar o que é terrível, escurecer o que é sombrio, e agravar o que é medonho: e portanto escolheu um tema sobre o qual por mais que dissesse, diria pouco; no qual poderia cansar sua imaginação sem que lhe censurassem por extravagância.”)

Milton tinha um temperamento de polemista. Era rude, até mesmo grosseiro, nos panfletos que escrevia. Brigou com um certo Salmasius; e Johnson diz que

As Salmasius reproached Milton with losing his eyes in the quarrel, Milton delighted himself with the belief that he had shortened Salmasius’s life; and both, perhaps, with more malignity than reason. Salmasius died at the Spa, September 3, 1653; and, as controvertists are commonly said to be killed by their last dispute, Milton was flattered with the credit of destroying him.

(“Da mesma forma que Salmasius disse que Milton havia perdido a vista devido à disputa, Milton gostava de acreditar que havia encurtado a vida de Salmasius; e ambos, provavelmente, tinham mais malícia que razão. Salmasius morreu em Spa, em 3 de setembro de 1653; e, como sempre se diz que polemistas foram mortos por suas últimas disputas, Milton se vangloriou de tê-lo destruído.”)

Bem, lembrem-se que todos dizem que Paulo Francis morreu por causa de sua última polêmica - seu problema com a Petrobás. Johnson está discretamente dizendo, provavelmente não; e Johnson está sempre certo.

E estes versos de Sir Emmanuel Flag, do qual eu conhecia muito pouco:

Where half the world went secretly to fish:
Kapeeberib, and distant Kashangah...


De Flag diz Johnson que ... so Dr. Prat tells us in his biography, and I find no reason to disbelieve it, that his poetical genius gained strength from the fact that a doctor predicted his early death by tuberculosis; and where other men would find only occasion to despair and squander their literary talents, Flag decided to devote himself to his muse, we all know with what astonishing results... His poem to the Three Ladies of Arashah would be the brightest gem in the crown of any country’s literature...

(“...diz o Dr. Prat em sua biografia, e não vejo razão para não acreditar nele, que seu gênio poético ganhou impulso com o fato de que um médico predisse sua morte, ainda na juventude, de tuberculose; e onde outros homens teriam apenas encontrado um motivo para o desespero, ou para o desperdício de seus talentos literários, Flag decidiu se dedicar à sua musa – todos nós sabemos com que extraordinários resultados. Seu poema para as Três Damas de Arashah seria a jóia mais brilhante na coroa da literatura de qualquer país...”)

Por quê não há poetas como Flag no Brasil? Vejam a seleção de poetas ingleses que Johnson colocou no primeiro e segundo volumes de seu livro – todos nascidos no espaço de um século – e se sintam humilhados. E Johnson em si! Como crítico, ele é maior do que a maior parte dos poetas dos quais fala.


26.2.03

Pequenas grandezas
Ontem falei do ponto mais baixo atingido pelo intelecto humano (Tom Zé). Agora me deixem falar sobre alguns dos pontos mais altos. Tirando os óbvios: os profetas, os clássicos – porque isso te faria bocejar. A mim também: me encheria de desgosto ter que lembrar a você que Milton é grandioso. Minha mandíbula se travaria de ennui.

Bem, há espíritos que atingiram a grandeza e nunca são propriamente reconhecidos por isso. Thomas Hood o Jovem (1835-74), por exemplo – um poeta cômico. Mal se encontra uma menção a Thomas Hood o Jovem na Internet. Mas ele escreveu:

...Lo! the Sun, among the daughters
Of the sea, his chariot cools, -
Gilds the glassy-looking waters –
Gilds the looking-glassy pools!

And the sunset sea is placid
With its foam-line long and straight,
Fizzing like tartaric acid
Mixed with Soda’s carbonate...


“É engraçadinho, Alexandre – mas você não está exagerando ao dizer que esse é um dos pontos mais altos do espírito humano?” Bem, me deixe exagerar. E depois as pessoas quase nunca vêem grandeza nos gênios cômicos. Em Edward Lear, por exemplo. E Walter de la Mare. E em letristas do tipo de Ira Gershwin:

Away with the music of Broadway!
Be off with your Irving Berlin!
Oh, I’d give no quarter
To Kern or Cole Porter,
And Gershwin keeps pounding on tin.
How can I be civil
When hearing this drivel?
It’s only for night clubbing souses
, etc.

Ou Noël Coward:

Don't put your daughter on the stage,
Mrs. Worthington,
Don't put your daughter on the stage.
One look at her bandy legs should prove
She hasn't got a chance,
In addition to which
The son of a bitch
Can neither sing nor dance,
She's a vile girl and uglier than mortal sin,
One look at her has put me in
A tearing bloody rage,
That sufficed,
Mrs. Worthington,
Christ!
Mrs. Worthington,
Don't put your daughter on the stage.


Queria mencionar Alan Jay Lerner:

The night they invented Champagne,
It's plain as it can be,
They thought of you and me.
The night they invented Champagne,
They absolutely knew,
That all we'd want to do
Is fly to the sky on Champagne,
And shout to everyone in sight:
That since the world began,
No woman or man
Has ever been as happy as we are tonight!


...mas tenho medo que um certo amigo meu esmurre mais uma vez o teclado porque estou fazendo longas citações em inglês. Então me deixe falar de Robert Desnos:

Kangourou premier, roi des Kangourous,
Ayant accroché son grand sabre au clou
S’assoit dans un trône em feuilles de chou.
Sa femme arrivant, pleine de courroux,
Dans sa poche a mis ses fils et ses sous,
Ses gants, son mouchoir et ses roudoudous.



“Tudo bem, eles são bons, e divertidos, Alexandre – mas será que são grandes?” (Mas quem é que está falando comigo?) Bem, digamos ao menos que têm uma espécie de pequena grandeza.

Termino falando de Cary Grant.

No filme The Grass is Greener, que é de 1961, Cary Grant faz uma das brincadeirinhas dele – finge que a xícara e o pires são um telefone, sorri para Deborah Kerr e diz “Hello!”

Bom, fique com Laurence Olivier e seu grito de raposa ferida em Lear - para mim, esse pequeno gesto de Cary Grant é um dos Momentos Mais Altos do Espírito Humano. E é mais alto ainda porque é muito discreto, e quase ninguém o percebeu.


Mas e você, Alexandre?
Ah, obrigado por perguntar. É verdade. Duas noites atrás estava num teatro ouvindo uma orquestra de câmara, quando tive um desses Momentos Mais Altos do Espírito Humano. Pedi desesperado uma caneta e anotei estas palavras no programa:

Girl from out of town,
Playing the viola -
What a lovely gown!
What a lovelyola!


Minhas lágrimas desfiguraram as luzes do teatro. Fiquei tão arrebatado pela beleza da vida que tive que me segurar para não chacoalhar uma velhinha de cabelo azul na minha frente. Apenas pus as mãos no pescoço dela e murmurei: Je vois des anges! Je vois des anges! (mesmo nos meus transportes faço citações literárias sutis).

Às vezes me olho no espelho e me assusto com o meu próprio Talento. Seguro meu crânio e penso: “Meu Deus, Alexandre: o Poder que está aí dentro! O Poder! O Poder!”

25.2.03

Morriconices, Tornatorices
Há filmes que já começam emocionados. Você nem precisa ficar emocionado, porque o filme já está emocionado por você. O filme começa e você fica olhando a primeira cena, constrangido como se uma velhinha tivesse entrado na sua casa chorando.


O tal do nadir
O ponto mais baixo do intelecto humano foi atingido no caderno Mais! (onde Mais?) deste domingo, num poeminha de Tom Zé que tenta definir a esquerda. O ponto mais baixo de todos os tempos:

Quando eu = tu
é uma irmanação religiosa.
Quando eu = integrar tu
é a utopia terrena.
Quando eu = saber que existe tu
é a esquerda política.



Pacifismo
O Polzonoff está fazendo um concurso para ver o melhor texto antiguerra – o mais bem-argumentado, e o mais livre de clichês. Como ele, também queria ser convencido de que essa guerra não é necessária. Clique aqui. Easy does it.


24.2.03

Blasfêmias
Um amigo que mora no Rio me mandou por email esta mensagem sobre um filme bobo em que Deus, na figura de Antonio Fagundes, usa cueca vermelha: “Todo blasfemador tem um desejo oculto, e quase sempre é frustrado porque as reações de Deus são muito diferentes das reações humanas. Quanto à desenvolta iniciativa da produção do filme, isso se explica pelo triste agachamento dos nossos bispos diante dos jornalistas e da televisão..."

O filme é idiota (sinto as emanações de idiotice vindo dele – não preciso vê-lo), mas acho que existem pelo menos dois tipos de blasfemadores, que muito chatamente distinguirei.

Duas pessoas insultam Deus: uma porque não acredita nele e quer ser engraçada; outra porque realmente acredita nele e o odeia.

Quem é pior? Embora a segunda seja malévola e a primeira não, tenho a certeza que a primeira é muito pior. Esse tipo de ateísmo ou agnosticismo despreocupado é a pior forma de insensibilidade e canalhice. Alguém perpetuamente indiferente à Melhor Coisa de Todas. O sujeito que odeia Deus ao menos acredita nele, e o leva a sério. E uma vez li que Mestre Eckhart disse: quanto mais blasfemamos, mais agradamos a Deus. Não sei bem o que Mestre Eckhart quis dizer com isso, mas suponho que a o blasfemador agrada a Deus na medida em que não o ignora bestamente. É um princípio que funciona com homens também: é melhor ser odiado que ignorado.

O pior insulto à religião é se livrar dela alegremente e ir dançar charleston. Ou fox-trote, ou sei lá o que vocês estão dançando agora*. Acho mesmo que é melhor ser satanista que ser ateu ou agnóstico. É melhor ser Gilles de Rais do que ser alguém, digamos, como Marilena Chauí.





*alguma coisa com uma garrafa, sei lá eu. Trenzinhos gays. Realmente não faço idéia. Parei de aprender as danças na época do Danilo Cooper, que vocês podem ver descrito em Guerra e Paz. Sou inteiramente a favor da volta do Danilo Cooper.

23.2.03

Imitate the action of the tiger
Há pessoas tão más que até mesmo seus impulsos bons são ruins. Assim que resolvem ajudar a humanidade, a primeira coisa que fazem é odiar quem acham que não ajuda a humanidade. Acabam não ajudando a humanidade, porque se esquecem disso entre um cochilo e outro. Mas preservam o ódio. Cuidado com as pessoas que têm lindos sentimentos no atacado.

Veja, por exemplo, as manifestações pela paz. São caras de ódio.

Outra coisa é a acusação bobinha de que quem defende a guerra é um general-de-pijama. Alexander Cockburn chamou Christopher Hitchens de barstool bombardier outro dia desses. E é só você dizer que a guerra é necessária que alguém diz: então aliste-se. Isso faz tanto sentido quanto dizer então seja um para alguém que diz que é bom que existam médicos. Numa guerra lutada por profissionais, onde nenhum pacifista está sendo arrancado guinchando de debaixo da cama, essa frase do então aliste-se não faz muito sentido.

Ou dizer então aliste-se para Jorge Luis Borges, que escreveu:

Déjame, espada, usar contigo el arte;
yo, que no he merecido manejarte.


E depois, sério mesmo, não posso ir à guerra para não interromper meu tratamento de calvície. Tenho que tomar uma pílula todos os dias à mesma hora. À mesma hora. Imagine a dificuldade de manter horários regulares durante uma batalha. Não quero voltar da guerra careca, e ser apontado na rua como uma vítima trágica da insanidade humana. Coitado, quando ele foi tinha uma vasta cabeleira... Shhh, fala baixo... Aparecer distorcido eletronicamente num documentário de tevê. Só gentinha é distorcida eletronicamente.

“Ah, gosto do Alexandre quando ele fala de coisas leves, mas quando ele se mete a falar de coisas sérias mete os pés pelas mãos.” Pode ser, até concedo; mas nisso não sou diferente da maior parte das pessoas. Ou você acha que esses molequinhos que insistem que Bush quer a guerra porque é malvado e cúpido sabem o que estão dizendo? Besteira por besteira, fico com as minhas, que são mais bem-escritas.

22.2.03

UM SUSTO NA ÓPERA

Ouvindo a Tosca num teatro em Milão, um homem dormia tranqüilo; mas quando, no segundo ato, Tosca gritou assassino!, acordou assustado achando que era com ele.

Sua mulher perguntou preocupada o que havia acontecido, mas o homem ficou horrorizado olhando pra ela. Teve a certeza que o grito tinha vindo dela.

-Eu explico – ele disse.
-Explica o quê? – disse a mulher.

Mas ele ficou ainda olhando pra ela durante vários segundos, de testa franzida.

-Olha, Natália. Olha – ele disse, sem saber bem onde estava, e agarrando a mão dela – Escuta. Seu irmão ia morrer de qualquer maneira.
-O quê?
-Hã? Nada.

Por pouco. Por muito pouco.

21.2.03

Lejos del mar y de la hermosa guerra
Ainda não decidi se sou contra ou a favor desta guerra. O mundo aguarda ansiosamente que eu decida. Mas sobre guerras em geral – me parece que há algo suspeito na campanha antiguerra feita pelos tempos modernos. Se não houvesse nada de bom na guerra, garotos não teriam sonhado, ao longo de milênios, com uniformes e batalhas. Não brincariam com soldadinhos de chumbo. Garotos sempre sabem o que é bom e o que é glorioso. Depois esquecem, mas antes sabiam.

Ao longo de séculos, de milênios, homens melhores do que eu ou você se entregaram completamente ao estudo e prática da guerra. O melhor decassílabo que conheço é de Borges e é sobre a glória da guerra: Gram, Durendal, Joyeuse, Excalibur.

Pessoalmente, a chatice da guerra me assusta um pouco. Lendo Officers and Gentlemen, que é o segundo romance da trilogia Sword of Honour, de Evelyn Waugh, percebe-se o quanto a guerra deve ser chata na maior parte do tempo. Assina papel aqui, dá baixa acolá. Compra uniforme, cuida do uniforme. Inspeção médica. Muda da barraca A para a barraca B. Da barraca B para a barraca C. Acorda cedo. Não posso ir pra guerra porque não consigo acordar cedo, por favor compreendam.

Faz pouco, no Rio, tive o prazer de ver o Fabio Danesi Rossi abrindo uma garrafa de Taittinger enquanto cantava Irving Berlin:

This is the army, Mister Jones!
No private rooms or telephones.
You had your breakfast in bed before
But you won't have it there any more.


Muito desagradável (a guerra, digo - não o Fabio cantando.) Sem café-da-manhã na cama? Humm. Acho que é por isso que Benjamim Franklin disse que não havia guerra boa, nem paz ruim. E olha como a música continua:

This is the army, Mister Green!
We like the barracks nice and clean.
You had a housemaid to clean your floor
But she won't help you out anymore.


Uma verdadeira Guernica musical. E a intimidade forçada com idiotas! O Polzonoff escreveu um belo texto sobre guerra e honra. Dá uma olhada nos comentários cretinos. Só de me imaginar dividindo uma barraca com essa gente – gente cheia de sentimentos delicadinhos - percebo os horrores da guerra.

Mas termino com uma frase famosa de Samuel Johnson. Que todo homem se sente diminuído por não ter seguido a carreira de soldado. Confesse, confesse. Eu me sinto. E quem foi que disse mesmo – esqueci, meu Deus – que um homem que nunca esteve numa batalha é como uma mulher que nunca teve um filho – alguém, em suma, que foi privado da experiência maior de que seu sexo é capaz? Alguém disse isso, e me soa sensato.

20.2.03

(fragmento de conto de fadas)
CONTO DO ESCRITOR QUE FOI ESQUECIDO

"Acordando no meio da noite, séculos atrás, um escritor famoso viu um vulto encurvado sobre a sua mesinha de estudos. Era um velho barbudo, que passava um pincel nas páginas de todos os livros que o escritor tinha escrito, cobrindo as palavras com uma resina verde-clara.

-O que é isso? Que substância é essa? – o escritor perguntou.
-Senhor: isto é o esquecimento – disse o velho barbudo, olhando para o escritor como se tivesse pena, e desaparecendo em seguida.

Horrorizado, o escritor foi até a mesa e viu que todas as páginas que tinha escrito na vida estavam cobertas pela resina, e que todas as palavras estavam borradas (...)"

(fragmento do livro "Contos de Fadas para Crianças com Nervos de Aço", que algum dia escreverei)

19.2.03

O Inferno é um imenso Sedes Sapientiae, com cursos como estes:

-Michel Foucault e Gilles Deleuze. O pensamento da Desconstrução, a Filosofia da Diferença e as Instituições.

-Sujeito e Subjetividades no Pensamento Filosófico e Contemporâneo – Nietzsche, Foucault e Morin.

-Dialogando com a Deficiência: Exercitando o Inverso – Como trabalhar estrategicamente com a inclusão em sala de aula.
(Muito útil para incluir os aleijadinhos malignos e tímidos nas atividades sociais do inferno)

Não só esses cursos são satânicos, como a própria linguagem é satânica. Sujeito, Subjetividade, Desconstrução, Inclusão, são as palavras favoritas de Satã. E dizem que ele também gosta muito de Alteridade.

18.2.03

Sprezzatura
O Renascimento teve um ideal que foi esquecido: não apenas ser um homem completo, dominar várias artes e ciências - mas sobretudo dominá-las sem esforço. Isso era chamado de sprezzatura. Nossa época despreza completamente essa história de sem esforço, e faz, pelo contrário, questão de exibir esforço; afinal o que são barrigas de tanque-de-lavar-roupa e braços femininos musculosos, senão um exibicionismo do esforço desesperado e cotidiano? Como seriam consideradas essas esforçadas pessoas nas cortes renascentistas? Seriam tomados por cavalariços. A diligência é uma forma de vulgaridade...

17.2.03

Queria que o governo instituísse um imposto sobre a ignorância. Digamos nas estradas: a cada pedágio as pessoas têm que responder uma pergunta de conhecimentos gerais.

Para o motorista:
-Quem escreveu Rasselas?
-Samuel Johnson (depois de uma leve hesitação).

Para a mulher ao lado:
-Quem escreveu Zadig, ou la destinée?
-Voltaire.

Para o filho deles, um surfistinha de boné virado pra trás:
-Que música é essa?
-Humm... Qual guardo il cavaliere , do I Pagliacci.
-Errou. É de fato Qual guardo il cavaliere, mas Qual guardo il cavaliere é uma ária de Don Pasquale, não de I Pagliacci. Um erro, dois acertos: cinco reais.

(Sim, porque paga-se cinco reais por erro.)

Pensem no estímulo à cultura. Pensem nas pessoas estudando desesperadamente antes das férias.

A visita chegando na cozinha e vendo a dona-de-casa tacanha lendo enquanto descasca ervilha.
-Dona Josefa, que é isso?
-Um tal de Raimundo Lúlio.

Os tacanhos não viajarão. As praias serão agradáveis. Leitura de praia será Mircea Eliade.

14.2.03

Graça Divina
Deus é um artista da leveza. Escreveu a História como uma comédia achampanhada, que a humanidade burra insiste em ler solenemente, mexendo os lábios. Quem percebe isso se torna santo - e levita. O Universo é um contínuo bon-mot de milhões de anos.
Love me, love my umbrella
Vou ao Rio hoje, o que significa que sábado e domingo não vou postar nada aqui. Aproveitem para reler algumas das coisas nos arquivos. Pensem em mim. Cliquem no botão atualizar várias vezes, como prova de estima. E quanto às mulheres: me imaginem entrando pela janela do quarto, atado numa corda, com uma rosa na boca. Ah, como disse Giacomo Joyce: love me, love my umbrella.

13.2.03

Damned sitting ducks
Humm... Estou eu aqui, sossegado, torcendo contra o nosso cinema, desejando danos vocais ao Arnaldo Antunes (o Arnault Daniel da ruindade), quando vem uma amiga, na janelinha do MSN, e reclama com exagerada franqueza que eu tenho que parar de atirar nele. Que é um alvo fácil demais. Que desonra a minha sportsmanship.

E a culpa é minha? Tenho que parar de atirar nele só porque ele está lá paradão com aquela cara de idiota? Eu digo para ele: Mexa-se, imbecil. É tão divertido atirar em você quanto atirar no mar. Mas ele só sorri, aquele sorriso estranhamente esquizofrênico, visto nas pessoas que acabaram de matar os pais. E diz: Parado, parado. O alvo alvo parado. O alvo é calvo! É sempre nesse momento que não resisto e atiro.

Eu sei, mil pessoas já atiraram nele, nesse momento, e pelo mesmo motivo. Ele está lá gemendo na campina. Mas até o jeito com que ele geme é irritante: deus dor, adora deus... sacrifício sacrifezes... Mais mil tiros. Seu corpo quica na planície desolada.

Então está bem, ele é um alvo fácil, um alvo alvo fácil. Mas caramba, nem bem a fumaça baixou e já dá para ouvi-lo repetindo palavras vagamente parecidas de novo. É só o que ele faz, é um autista... (Artista autista...Todo artista é um autista, geme ele. Atiro de novo, e durante um breve, lírico segundo, vejo seus dentes voando como vespas contra o céu de verão.)

E não tenham pena dele, porque ele não morre – ele é simbólico. Seu trabalho será continuado por cada jovem sem talento que achar demais que luxo e lixo sejam palavras tão parecidas. Olhe, me distraí um minuto e ele já está sendo resgatado por professores universitários com bandeirinhas brancas. Só um segundo enquanto atiro no nariz postiço de Décio Pignatari.

Está bem, quem é um alvo difícil, então? Me mostre, me mostre. Eles todos ficam rebolando na planície.


Monterroso
Semana passada morreu Augusto Monterroso, um contista guatemalteco muito bom. Descobri um livro dele, anos atrás - A Ovelha Negra, editora Record - por acaso, no balcão de saldos de uma livraria. Comprei porque achei engraçado e ele tinha sido traduzido por Millôr Fernandes. Dois minicontos:

O RAIO QUE CAIU DUAS VEZES NO MESMO LUGAR

Houve um Raio que caiu duas vezes no mesmo lugar; porém achou que na primeira tinha feito estrago suficiente, que já não era necessário, e ficou muito deprimido.




O PORCO DA CRIAÇÃO DE EPICURO

Em uma quinta dos arredores de Roma vivia faz vinte séculos um Porco pertencente à famosa criação de Epicuro.

Completamente entregue ao ócio, este Porco gastava os dias e as noites chafurdando na lama da vida regalada e fuçando nas imundícies de seus contemporâneos, aos quais observava com um sorriso cada vez que podia, que era sempre.

As Mulas, os Asnos, os Bois, os Camelos e outros animais de carga que passavam ao seu redor e viam o bem que ele era tratado por seu amo o criticavam acerbamente, trocavam entre si olhares de cumplicidade, e esperavam confiados o momento da degola; mas enquanto isso ele de vez em quando fazia versos contra eles e com freqüência os colocava no ridículo.

Também se entretinha compondo odes e escrevendo epístolas, em uma das quais se animou inclusive a fixar as regras da poesia.

A única coisa que o tirava dos eixos era o medo de perder o seu bem-estar, que talvez confundisse com o medo da morte, e as leviandades de três ou quatro porquinhas, tão indolentes e sensuais quanto ele.

Morreu no ano 8 antes de Cristo.

A este Porco se devem os dois ou três melhores livros de poesia do mundo; porém o Asno e seus amiguinhos ainda esperam o momento da vingança.

12.2.03

Torcida contra
Começo hoje minha mui antipática torcida contra o Oscar para Cidade de Deus, filme que ainda por cima nem vi e do qual tenho o maior nojo. Para tanto, apelarei para o Ghede dans le Miroir, o famoso espírito que vive dentro dos espelhos e atende mensagens escritas de trás pra frente – desde que, é claro, você tenha a delicadeza de mostrar a mensagem para o espelho. O que vou fazer agora. Se você também não quer que esse filme ganhe o Oscar, ponha um espelhinho na frente da tela e repita baixinho: Monsieur Ghede dans le Miroir, por favor venha e leia isto:

.suedA .odagirbO .o-odnahnag ,racsO o euqrupsnoc sueD ed edadiC otnauq odidrós oãt emlif euq atimrep oãn rovaf rop, rioriM el snad edehG rueisnoM


!otrec ued áJ
Espera, só agora vi isto; o que quer dizer que, além de antipática, minha torcida já chega atrasada. Digo, vitoriosa. Olha, põe o espelhinho na frente da tela de novo, por favor:

.etnemadapicetna otarG ?senutnA odlanrA ed siacov sadroc san onad mugla rasuac edop :iuqa átse êcov euq áj ,hA .adaçnacla açarg alep odagirbo, rioriM el snad edehG rueisnoM



11.2.03

Verisimiles amorabonds uspiens et puciens et unicampiens
Um dia Pantagruel, o gigante, encontrou na estrada um estudioso, e lhe perguntou de onde vinha. O estudioso lhe respondeu enroladamente, misturando francês com falso latim; mas um amigo de Pantagruel traduziu dizendo que ele vinha de Paris. O gigante então perguntou ao estudioso como passavam o tempo os acadêmicos em Paris.

-Nous transfretons la Sequane au dilicule et crépuscule; nous déambulons par les compites et quadrivies de l’urbe; nous despumons la verbocination latiale, et, comme verisimiles amorabonds, captons la bénévolence de l’omnijuge, omniforme et omnigène sexe féminin. Certaines diecules, nous invisons les lupanares, et em ecstase vénéreique, inculcons nos veretres ès penitissimes recesses des pudendes de ces meretricules amicabilissimes...

Pantagruel não entendeu nada, e aos berros exigiu que lhe dissessem que raios de língua era aquela; um de seus amigos lhe disse:

-Esse cara está tentando imitar a fala dos parisienses. Mas só está conseguindo assassinar o latim. Ele acha que está abafando, e se imagina um grade orador da língua francesa, só porque despreza o uso comum da língua.

Pantagruel fez mais umas perguntas ao universitário, que continuou respondendo enroladamente; até que o gigante se irritou e o agarrou pelo pescoço, e gritou:

-Por Deus, vou ensiná-lo a falar! Você mata o Latim, por São João! Vou arrancar sua pele!

-Ai, senhor! Ai, Jesus! Me deixe em paz, pelo amor de Deus! Não me machuque!

Pantagruel o soltou, dizendo:

-Agora sim, você está falando naturalmente.

Mas a essa altura o universitário já tinha feito cocô nas calças. Pantagruel faz cara de nojo e o manda embora.

Sempre me lembro dessa história quando leio o texto de professores universitários no jornal de domingo. Ouço até os pedidos de piedade, os guinchos...

Me pergunto quanto tempo leva para um professor de semiótica abandonar o jargão. As pessoas me vêem lendo Rabelais com uma aparência distraída, é inevitável que pensem: Ah, como a literatura faz sonhar.

Humm - por falar nisso, ontem à noite a Musa veio de novo:


ZANZIBAR'S DRINKING SONG

There is one place in Zanzibar
Where all the trees are crosses.
I once got drunk there in a bar
And found the crees are trosses.
But drinking more and more by far
I saw the srees are srosses.



(História verídica, don't you know. Aconteceu comigo.)





10.2.03

Quem andou de jet-ski jamais fará contribuição alguma para a humanidade.

9.2.03

The Last Lion
Não consigo não gostar de Churchill. Gosto de tudo - da cara de bravo, da bengala, das frases de espírito - vocês conhecem aquela, não? Que Churchill estava num jantar quando uma americana disse para ele:

-O senhor está bêbado.
-E a senhora, madame, é feia - ele respondeu - Mas ao menos eu, amanhã, vou estar sóbrio.

Gosto da história dos generais americanos que tomaram aulas de etiqueta porque iam jantar com ele, um descendente do primeiro duque de Malborough - e depois o viram horrorizados trocando as meias durante o jantar, com o pé em cima da mesa. Da coragem dele - arriscando a vida várias vezes - dos discursos dele, que são uma das poucas coisas que realmente me emocionam e que acho realmente nobres. Gosto até dos quadros dele. Há uma sala azul muito bonita no Masp.

E olhe, ele escreveu isto sobre Hitler:

He forgot about the winter. There is a winter, you know, in Russia. For a good many months the temperature is apt to fall very low. There is snow, there is frost, and all that. Hitler forgot about the Russian winter. He must have been very loosely educated. We all heard about it at school; but he forgot it. I have never made such a bad mistake as that.

("Ele esqueceu o inverno. Tem um inverno, sabe, na Rússia. Por vários meses a temperatura geralmente fica bem baixa. Neve, geada, essas coisas. Hitler se esqueceu do inverno russo. A educação dele não deve ter sido das melhores. Nós todos aprendemos isso na escola, mas ele esqueceu. Eu nunca cometi um erro tão ruim quanto esse.")


Dresden
Mas é claro que só gosto de Churchill por uma casualidade: não estou escrevendo isto em Dresden, na noite de 13-14 de fevereiro de 1945.

8.2.03

L'omnijuge, omniforme et omnigène sexe féminin
Em toda mulher bonita há crueldade. É como se ela estivesse sentada numa pilha de moedas de ouro. Os mendigos passam e vêem aquilo; alguns pedem uma moeda ou duas. Faria tanta diferença na vida deles; na vida dela, tão pouca. Mas ela, por capricho, não dá. Pior: para fazer com que a pilha de moedas fique mais tentadora, ela cobre parte da pilha com uma capa, que tem fendas colocadas especialmente para que se deixe ver o ouro brilhando aqui e acolá. E dia sim, dia não, ela limpa as moedas, para que elas brilhem ainda mais. Ela sente prazer no olhar de desejo que o mendigo lhe lança. Mas, se ele estender a mão e roubar algumas moedas, é crime... E assim todos os dias passa o mendigo na frente da mulher que, não por mérito, mas por destino, está sentada em uma pilha de moedas de ouro; e ele não pode deixar de pensar: Custaria tão pouco a ela... Por quê ela não me dá? Por quê ela não me dá uma moedinha só? Eu me contentaria com uma moedinha só...

7.2.03

Patriotismo
Não vejo nada de ridículo no patriotismo*. O problema é que a palavra foi usada quase sempre por imbecis. Mas o sentimento em si é natural: você ama a rua em que viveu, porque tem memórias ali; ama o seu bairro, sua cidade, um certo corredor da sua universidade, um certo trecho atrás da quadra de vôlei do seu colégio, porque tem memórias ali. Isso é o seu país.

O meu problema é que o meu país é em grande parte os livros que li e os filmes que vi. E isso não é o Brasil, é alguma outra coisa. Li mais sobre Belgrave Square do que sobre a Praça da Sé. Tenho mais memórias do castelo de Blandings, criado em livros por P.G. Wodehouse, do que do terreno baldio perto da minha casa, onde só brinquei uma vez.

O território do meu país: alguns quilômetros quadrados de páginas impressas, mais quinze trechos de rua em São Paulo, Rio, Lisboa, mais uma certa idéia de Londres, Paris, São Petersburgo, mais a minha poltrona, mais a minha tevê a cabo. O apartamento do Seinfeld. Narnia. O Sítio do Picapau Amarelo. Que rio corta a minha cidade? O Neva, que às vezes é o Tâmisa.

Como deve ser bom simplesmente se sentir confortável no próprio país, no país oficial, no Brasil; não ter essa necessidade de ler sobre Washington Square ou a Perspectiva Névski. Mas se fico algumas horas passeando pelo centro da cidade, começo a sentir saudade da Perspectiva Névski, onde meus compatriotas passeiam na neve, falando português de tradução. Conheço bem o mapa de São Petersburgo e de Moscou, mas me perco sempre nesta cidade...

E ainda há quem fale mal de quem não gosta do Brasil! Poder gostar do Brasil - poder me sentir tão bem aqui quanto me sinto no país da Rússia Traduzida de Boris Schnaiderman - não posso imaginar nada melhor do que isso... Quem, aparentemente sendo brasileiro, fala mal do Brasil, não faz isso por maldade, ou por afetação; faz isso porque se sente desconfortável aqui como se estivesse no estrangeiro. E ainda é odiado pelos patriotas que confortavelmente vivem no país que amam.


*Sinto as repercussões de frase tão polêmica: "Oh, o Alexandre não vê nada de ridículo no patriotismo! Meu Deus, Meu Deus! Baseei toda a minha vida numa ilusão", etc, etc.

6.2.03

Minha idéia
Já que agora todo filme brasileiro tem que ter seqüestro e rappers, eis a minha idéia. Um rapper é seqüestrado por um bando de professores de literatura. Eles o mantém preso num apartamento nos Jardins, e o ensinam à força o que é prosódia. Obrigam o rapper a decorar trechos de Dryden, Pope, Camões, Coleridge. Obrigam-no também a se vestir melhor e a gesticular um pouquinho menos. Depois o soltam na favela. O rapper lança um álbum de rap (em anapestos) sobre Zéfiros brincando com as tranças de sua amada. Sem saber bem como reagir, a comunidade o ameaça de morte. O rapper busca refúgio no apartamento em que ficou um ano cativo; e em homenagem aos seus professores, lança um álbum em que canta loas à elite em dísticos popeanos. Descem os créditos enquanto o rapper canta, com gestos mínimos e elegantes, tendo ao fundo a neve de Gstaad: O meu seqüestro teve uma seqüela, / Tirou a minha mente da favela...

5.2.03

Blogs
A vida inteligente neste país existe nos blogs – não nos livros, não nos jornais, e certamente não nas academias. Leio todos os dias quatro ou cinco blogueiros que são melhores do que Ivan Lessa. Daqui a vinte e cinco anos a Veja vai descobrir isso (“Veja: a revista que é informada pelo público”). E algum dia um blogueiro vai ser verbete de enciclopédia: “Fulano de Tal, blogueiro, nasceu em...”

O que me incomoda um pouco, às vezes, é encontrar um blog em que o sujeito tem talento, escreve bem, é engraçado, é culto; mas por algum motivo parece se contentar em ser um cara num boteco escrevendo sobre peidos e arrotos. “Ora, há coisas piores do que ser um cara num boteco escrevendo sobre peidos e arrotos”. Certamente que há. Boa sorte...

Escritores brasileiros têm aristofobia: convivem com intelectuais, viajam a Paris, mas escrevem sempre sobre matutos, prostitutas, mendigos. Amor pela sordidez e pela caracu-com-ovo. Nostalgie de la boue. Queria que essas pessoas tivessem a coragem de ser um pouco, mas só um pouco, metidas a besta.

4.2.03

Quantos homens, que não gostam de futebol, ficam vendo a Soninha falar de futebol durante longos minutos? Eu fico. Quantos homens, que odeiam política latino-americana, ficam vendo a Patricia Janiot falar de política latino-americana? Eu fico - olhos fixos no biquinho-de-viúva (há algo de suicida em mim que me faz amar as mulheres com biquinho-de-viúva).

Se, em 1939, uma alemã linda, morena, de olhos azuis, fazendo cafuné em você, dissesse que é nazista, você ficaria embaraçado, mas no final só diria isto:

-Não sei muito sobre o assunto, mas tenho que confessar que não concordo com algumas coisas que os nazistas fazem.
-Ah, por quê, liebchen?
-Não sei...
(beijinhos)

Há mulheres que são tão lindas que chegam a ser místicas. Você sente uma vergonhosa, mas profunda, vontade de se ajoelhar e beijar os pés delas. (Não me digam que sou só eu.)

Lembro que uma vez, na adolescência, estava passando por uma banca, e vi uma capa de revista com uma modelo linda. Subitamente senti a dor de descobrir que, acontecesse o que acontecesse, eu nunca teria todas as mulheres bonitas do mundo. Era uma ladeira; continuei subindo a ladeira sentindo essa dor que era tão forte quanto uma angina. Um quarteirão depois minha otimista mente havia tido uma visão do paraíso muçulmano, e a dor passou.

O paraíso muçulmano existe para isso mesmo e ele é real, real, ouviram? Todas as mulheres bonitas vão para lá e as que eram feias ficam bonitas.

E você é o único homem naquele palácio gigantesco de mármore rosa, que fica no centro de um oásis, que fica no centro de um deserto. Às vezes vocês ouvem trombetas, e vão até um balcão ver o Profeta passar montado num elefante. As mulheres batem palminhas e algumas delas (as árabes) ululam arabicamente. Depois que o Profeta passa, vocês voltam aos seus, digamos, jogos venéreos, e às suas intrincadas batalhas de almofadas de seda.

Isso dura uma eternidade; e você nunca cansa. O sentimento é sempre, sempre, o de início de férias.




3.2.03

Monteiro Lobato sobre a Proclamação da República
"(...) A nação não reage, inibida pela surpresa e também porque lhe acenam logo com um programa de maravilhas, espécie de paraíso na terra. É sempre assim. Não variam com longitude nem com a latitude os processos psicológicos de assalto ao poder."
(texto disponível aqui)

2.2.03

Sonho
(Se eu começar um post com as palavras sonhei que, você promete que não entra em pânico?)

Sonhei que (calma) via uma ilustração em preto e branco, feita por Belmonte, dos entes de Tolkien; aquelas altas criaturas que em tudo se parecem com árvores, mas andam. Eles marchavam colina abaixo; mas olhei com atenção os detalhes dos galhos e folhas (muitos, e que no sonho se embaralhavam uns nos outros) e de repente vi que a Emília estava lá, montada num dos galhos mais altos, com as mãozinhas na cintura, em pose petulante. Olhei melhor e vi o Visconde de Sabugosa semiescondido entre raízes aéreas, no mesmo ente; e, em dois outros entes, Pedrinho e Narizinho.

Olhei a capa e vi: As Viagens de Emília na Terra Média - Monteiro Lobato, 1968.

Não li o livro (tenho dificuldade para ler em sonhos – meu Deus, sou disléxico em sonhos) mas imagino que Frodo e Sam aparecem no Sítio; que a princípio seus rastros são confundidos com os de algum monstro; que Pedrinho fez armadilhas (perdão: arapucas) para capturá-los; e que a Emília, mesmo depois de ver Frodo e Sam e ouvir o pedido de ajuda deles, quer amarrá-los e vendê-los para um circo. Só a muito custo todos a convencem a ajudar os hobbits; e lá pelo meio da história ela encasqueta* que quer o anel. Também imagino que a Cuca se vendeu a Sauron. Oh well, seria típico...

* palavra caracteristicamente emiliana, não é?


As armas de Emília contra o Exército de Sauron
- E você, Emília, que arma leva? - perguntou Narizinho.
- Levo o espêto de assar frangos. Tenho mais fé naquele espêto do que nas armas de vocês todos.
(de "Caçadas de Pedrinho")

1.2.03

Academia
Percebi que havia algo errado com a universidade quando, no primeiro dia, a professora de crítica literária ficou repetindo o Décio isso, o Décio aquilo, querendo se referir ao Décio Pignatari. Senti no baixo ventre o soco de gancho da desilusão profunda. Cuspi esperanças no chão da melancolia. E no meu caderno escrevi: meu deus meu deus meu deus meu deus meu deus jesus jesus jesus jesus jesus. Curioso como a universidade me levou aos braços de Cristo.

Alguns poucos segundos depois, a professora disse: para vocês acabou hoje toda e qualquer leitura descompromissada e ingênua. Mais uma vez invoquei o sangue de Cristo no caderno. Depois me desenhei enforcado. Não contente com isso, desenhei uma faca no meu peito: além de enforcado, por favor, esfaqueado; qualquer coisa, menos aquilo, aquela aula.

A sala sem janela, os alunos (com uma exceção sublime) feios – tão feios que nem acreditavam mais na possibilidade de que uma roupa boa os melhorasse, e se vestiam desenxabidamente – completamente massacrados pela vida, pelos próprios cérebros, e pelas próprias caras amassadas - uma senhora japonesa encurvadinha, que não tinha mais como empregar as manhãs – gente que trabalhava Joyce, trabalhava Pound, trabalhava Saramago – e uma professora que, na vida toda, para cada página de teoria literária havia lido meia linha de literatura, entendendo tudo errado, sob o ângulo de Barthes: eis o retrato da academia. E eu que tinha ido para lá sonhando em ser uma caricatura de professor distraído, usando um paletó com remendo de couro no cotovelo. Citando The Hunting of the Snark de memória para alunas lindas de dezoito, que se deixariam ficar pra trás no final da aula, pra tirar uma dúvida. Uma de cada vez: e uma delas seria estranhamente parecida com Katie Holmes. Mas divago.

Aula atrás de aula, as coisas que anotei nas margens do caderno são expressões ridículas de ódio e desconforto. Socorro, so-cor-ro, help oh Lord, que imbecila, what the hell am I doing here, I could be sleeping, I could be reading Jane Austen, vixe, socorro.... Ah, o estudo das anotações feitas nas margens dos cadernos por alunos comuns: eis algo que provavelmente a academia tem medo de estudar. Assim no mundo todo, enquanto cada professor fala, são insultados minunciosamente, uma letra entre cada volta da espiral do caderno: F-U-C-K-I-N-G-I-M-B-E-C-I-L-E...