31.3.03

Expressões que só aparecem em textos antiguerra:

- Arrogam (os EUA sempre se arrogam)
- Bush Pai (ou Bush o Pai)
- Bush Filho (ou Bush o Filho, ou Bush Júnior)
- Bushinho
- Bushizinho
- Cachorrinho (do Império Ianque: Blair. Ver também: poodle. Schnauzer. Sharpei.)
- Caubói (se referindo ao Bush)
- Estado títere (se referindo ao governo do Iraque pós-guerra) manipulado pelas forças unidas do capital sangrento (se referindo ao Burger King. Ah, perdão, esqueci que por algum motivo o Burger King não é ideológico, só o McDonald’s é ideológico. Pizza Hut também não é ideológico.)
- Estadunidenses (frisar bem, para que não se confunda com americanos, que o autor do texto faz questão de exclamar – está preparado? – que somos todos nós.)
- Gângster (Bush)
- Ianque
- Império (os EUA são um Império Ianque; ou querem ser um Império Ianque – ainda não foi decidido se já são ou querem ser)
- Imprensa parcial (americana)
- Imprensa imparcial (Al-Jazeera)
- Massacre (em Bagdá. Em Israel, houve vítimas. Entre as tropas da coalizão, deve-se dizer, sorrindo: baixas crescentes).
- Precipitada (a invasão do Iraque. Ver: mal-planejada por um império arrogante que se arroga etc )
- Também não sou a favor (do Saddam; dizer em seguida: Mas acho que deviam ter buscado outros meios... Importante: não explicitar quais outros meios, para não ser alvo de zombarias. Murmurar alguma coisa sobre “as leis internacionais” - mesmo se você não sabe nenhuma delas.)

30.3.03

O cheiro
Um homem subia numa escadinha para colocar um livro na estante quando sentiu um cheiro forte de vela. Achou que o cheiro vinha do livro. Que horrível, como é forte esse cheiro, me lembra velório. Aproximou o livro do nariz; mas não, não vinha dali. O cheiro era realmente de vela. Olhou para trás, embora soubesse que só havia atrás de si uma mesa, uma cadeira, um globo, uma janela. Mas na verdade viu a si mesmo num caixão, coberto de flores, cercado de velas altas. Desorientado, lutou para não cair da escadinha; e lançando um olhar para a estante, viu a tampa de um caixão apoiada contra os livros, e apoiou a mão ali para não cair. Ouvia claramente a sua mulher chorando atrás dele. Sem saber o que fazer, continuou no alto da escadinha, folheando o livro sem ler nada. Não conseguia ler, as letras se embaralhavam na página.

29.3.03

Antiamericanismo
O antiamericanismo está na moda, como o antisemitismo estava na década de trinta, e pode acabar igualmente mal (é típico da humanidade escolher sempre os povos mais legaizinhos pra implicar). Na tevê todo mundo odeia americanos: a professorinha com lábio leporino, o VJ muderninho, a garota bonitinha, o homem-sanduíche de tenros sentimentos. E chego em casa e vejo uma tia minha, que sempre achei suave, falando dos americanos, com ódio; e quando eu disse que ela estava com ódio, ela disse que não estava com ódio; só não gostava de gente sem-educação, prepotente, arrogante, com o rei na barriga, metida a besta, cruel, assassina, violenta, mentecapta, idiota, desgraçada, imunda. Mas ódio, não. Tentei dizer a ela que, sem os americanos, estaríamos todos lendo histórias edificantes sobre o camponês Ivan e seu magnífico, lustroso trator. O fato em si foi grandiloqüente, então me deixem ser grandiloqüente: os estados unidos salvaram o mundo. Pelo menos duas vezes, last time I checked. Não só isso como emprestam dinheiro para a minha tia ter estrada para ir à praia, desenvolvem remédio para minha tia controlar a osteoporose, e fizeram filme da Doris Day pra minha tia ver na tevê. Digo isso e a minha tia desvia os olhos, fica olhando pra parede, com ódio. O antiamericanismo está realmente no ar. Quanto a mim, lealdade para sempre ao país que me deu Columbo, Jornada nas Estrelas e Buffy.

28.3.03

Cansaço de aforismos
Oh, essas frases pretensiosas, que as pessoas escrevem só porque parecem aforismos. O menino que é o intelectual da família, porque leu aforismos, quer fazer aforismos também: tentando todas as combinações das palavras arte, morte, mulher numa frase que pareça profunda e curta. A morte é a mulher da vida. Quase parece fazer sentido, não? Que tal isto?: A morte é a mulher infiel da vida; engana-a com o esquecimento. É mecânico. No futuro teremos computadores aforistas... Computadores profundamente mordazes, que criarão sarcasmos que eles mesmos não entendem.


O cansaço passou. Tentemos:
O talento devia ter o talento de se esconder um pouco.


Mas será verdade?
Não sei. Mas me lembro de alguns mestres chineses de kung-fu. Um deles, em especial: baixo, gordo, barrigudo, careca. Só falava de comida e mulher e cachorros e cinema. Nunca, absolutamente nunca, o ouvi falar de kung-fu. Parecia realmente fora de forma, parecia um feirante tímido. Mas.

Ao passo que os alunos da academia, especialmente os iniciantes, falavam de kung-fu o tempo todo. Eram atléticos. Eram agressivos. Mas.

27.3.03

Guerra
Escute, como dizem os membros da persuasão liberacciana - vamos combinar? Eu não sei o que é a guerra, você não sabe o que é a guerra. Sua opinião de que a guerra é horrível é baseada em filmes e fotos de jornal. Minha opinião de que a guerra é horrível mas também, de alguma forma, gloriosa, é baseada em filmes e livros. Meus filmes são melhores do que os seus. Cubro o seu amargo regresso com o meu gunga din. E meus livros são melhores do que os seus, porque você nem tem livros.

Leia isto. Isto também existe, isto também é a psicologia humana, isto também está dentro de você, em algum lugar:


"No cerco de Diu, que sustentou o grande capitão António da Silveira, sendo Fernão Penteado ferido gravemente na cabeça, foi ao cirurgião que o curasse; e, achando-o ocupado na cura de outros, enquanto aguardava a sua vez, ouviu estrondo de um rebate que os turcos davam; e, não lhe sofrendo o coração não se achar nele, correu àquela parte onde, envolvida na refrega, ganhou segunda ferida grave na cabeça. Com que apertado, tornou ao cirurgião, a quem achou ainda mais ocupado que antes. E, como neste tempo os turcos apertassem muito com os nossos, ele tornou a acudir com grande alvoroço, onde recebeu terceira cutilada no braço direito; e veio curar-se de todas três. De sorte que assim ia este soldado buscar mais feridas, como se, achando o cirurgião ocioso, quisesse dar-lhe em que se ocupar, e mais falta fazia ao seu natural a briga do que à sua cabeça o sangue, querendo antes ferir-se depressa do que curar-se devagar. A tarântula, ainda depois de esmagada, salta, se lhe tangem; este animoso guerreiro, ainda rota a cabeça, pulava, se ouvia estrondos militares, porque eram música para ele."

(da Nova Floresta, do Padre Manuel Bernardes)

26.3.03

BREVE HISTÓRIA DO CINISMO INGÊNUO

Criancinhas olham cinicamente pra você, com cara de Peter Lorre vendendo passaportes em Casablanca, e dizem as verdadeiras razões da guerra. O duro é ver cinismo saindo de uma boca manchada de chocolate.

Quanto mais ingênuos, mais cínicos: é uma regra. Isso porque os ingênuos estão acostumados a ser enganados em todos os cantos. Compram remédios pra emagrecer, tomam Confrei, pagam dízimo, pagam prestações sem nunca perceber os juros, são enganados no troco, entram em pirâmides. São roubados de tantos lados ao mesmo tempo, que se enfezam, passam a olhar feio pra todo mundo, e ficam com a certeza que todo mundo está tentando enganá-los. Até as nuvens.

Você diz que as nuvens são bonitas, e eles olham cinicamente pra você, como se só você não soubesse que canalhas são as nuvens. Especialmente os cúmulos-nimbos, esses são os piores, os líderes dessa roubalheira toda. Fica esperto...

Nada de novo nisso. Se você lê Ana Karenina, vai reparar que Liêvin está sempre querendo tomar alguma medida a favor dos mujiques que trabalham em suas terras. Lá vai Liêvin tentar explicar as mudanças que quer fazer na propriedade. E ele é sincero: se sente culpado pela renda que tem em relação à renda dos mujiques, e quer honestamente melhorar a condição de vida deles.

Os mujiques ouvem de cara desconfiada, vão ficando zangados, xingam. Aqui, ó, que eles são tão ingênuos que vão acreditar num ato desinteressado. Se o patrão propõe mudanças, obviamente há algum lucro pra ele em algum lugar. Recusam as mudanças. O próprio Liêvin vai ficando zangado com as objeções. Não é possível, pensa, que sejam tão estúpidos. Mas sim, sempre é possível.

Tenho a impressão que quando Jesus ressuscitou Lázaro, Lázaro ficou olhando desconfiado pra ver where was the catch. A família de Lázaro comentando sobre os motivos pecuniários de Jesus. Olhando cinicamente uns para os outros e murmurando sobre o capital essênio ou os interesses das grandes casas de carpintaria. Todos com as caras mais ingenuamente cínicas do mundo.

"É simples, se você pensar bem. Lázaro morto, a quem beneficia? É só o preço de um caixão. Mas Lázaro vivo, é cadeiras e mesas pruma vida inteira..."

Agora, a guerra.

São cínicos, em primeiro lugar, em relação a todas as guerras. O mais bobinho molequinho de colégio olha pra você com profunda piedade nos olhos e fala dos horrores da guerra de verdade, no mundo real, cara, como se ele fosse um veterano mutilado da guerra dos cem anos, e não um molequinho cheirando a vic-vaporub. Mas o mundo real pra ele, tanto quanto eu possa saber, é o filme Platoon.

Um filme como Platoon tem uma só verdade: que a guerra é feia. Mas Homero sabia duas verdades: que a guerra é feia, e gloriosa, de alguma forma. Mas já não se pode mais dizer isso.

Em segundo lugar, são cínicos com relação aos motivos desta guerra. Têm todos aquelas caras de bebezinhos profundamente vividos.

Desconfio, aliás, de qualquer motivo escuso de guerra que até molequinhos, mujiques e Sean Penn são capazes de compreender.

25.3.03

Chega, basta
Meu Deus, meu Deus, Augusto de Campos não consegue parar de falar de Pound um segundo. Se Pound fosse vivo, Augusto ia ficar escondido num arbusto na frente da casa dele, tirando fotos e gritando poemas verbivocovisuais num megafone. E justo Pound. Aquele que, na célebre classificação de poetas que fez, esqueceu de mencionar a sua própria classe. Os poetas chatos. Os poetas que fazem citações em chinês nos seus longos poemas.


A princesa Paralis
“Se eu ouvir mais uma comparação entre um poeta e um joalheiro, eu grito, eu grito!”, disse a princesa, fazendo beicinho e atirando o livro na barriga do poeta gordo.


Duas levas no Inferno
Duas coisas estão acontecendo. Um, as pessoas boas estão ficando más. Tias gordinhas com discreto vitiligo nas mãos defendendo a tortura de prisioneiros americanos, essas coisas todas. Dois, as pessoas boas, mesmo continuando boas, estão se aliando ao mal. Por burrice. E portanto as pessoas boas vão para o inferno, seja porque ficaram más, seja porque continuaram boas. O demônio adorará a variação no menu.


Não dá
Toda vez que leio “Ai!”
Num poema, digo “Ai!”
Em voz alta - e fecho o livro.
Esse é um hábito antigo.
Tenho nojo, não consigo.

24.3.03

HISTÓRIA DA MALDADE E DA PIEDADE BURRA

Os personagens:
A Maldade
A Piedade Burra


A Maldade e a Piedade Burra morreram no mesmo dia. Andaram durante um tempo na estrada dos mortos, lado a lado, caladas; mas quando chegaram na bifurcação, a Piedade Burra disse com nojinho: Aqui nos separamos. Deram-se as mãos, e a Piedade Burra foi indo na direção dos anjos.

Mas um demônio agarrou a saia da Piedade Burra e indicou que ela devia ter tomado o mesmo caminho da Maldade. Não, mas... - disse a Piedade Burra; mas foi logo arrastada para o outro caminho, onde a Maldade a esperava, observando tudo com um sorrisinho discreto.

Pouco adiante foram recebidas, cada uma, por suas vítimas: milhões de furiosas pessoas estropiadas, com espadas amarradas nos cotos. Dizem que a Maldade sofreu seu castigo achando graça da expressão no rosto de sua querida, chocada amiga.

23.3.03

VÁ VOCÊ AO TEATRO

Atores
Uma vez, quando eu era um molequinho, lendo Shakespeare, tive uma revelação sobre a natureza do teatro, dessas que me vêm como ataques epilépticos e me fazem rolar pelo chão e sangrar pelo nariz: Teatro, pensei eu, é como se eu parasse de ler isto e desse o texto para as meninas mais burrinhas da minha classe, para que elas leiam em voz alta pra mim. Não são as atrizes as meninas mais burrinhas de suas classes? Não são as mais famosas Ofélias e Gonerils meninas que, um mês antes, pegaram o texto da peça, viram o nome na capa, e disseram com lindo nojinho, “Ai, Shakespeare?”


Público
Os maiores perigos que já passei foram em peças de teatro. É só sentar que já sei que um ator de modos acanalhados vai tentar me embaraçar de alguma maneira. Do palco já me jogaram bombons, farinha, cuspe, carne crua. Outro dia desses Medéia chorava silenciosamente, nobremente, segurando rosas a dois passos de mim, e eu não parava de piscar porque tinha a certeza que ela ia enfiar as rosas nos meus olhos. Olha, o público pagou, não tem que trabalhar, trabalha você.


Diretores
Diretores de teatro são tão burros, todos eles, que acham sempre uma boa idéia vestir os guardas de qualquer rei, de qualquer época, de casaco de couro preto e capacete de nazista. Queria ver uma encenação de Shakespeare sem nazistas e sem Beatles. Só uma? Pode ser? Humm?


O que Shakespeare diria a Zé Celso
Idol of idiot-worshippers! (Troilus and Cressida, 5.1.) No man’s pie is freed from your ambitious finger. (Henry VIII, 1.1.) Be better employed, and be naught awhile. (As You lLike it, 1.1.) Methink’st thou art a general offense and everyman should beat thee. (All’s Well That Ends Well, 2.3.) Take a good heart, and counterfeit to be a man. (As You Like it, 4.3)

22.3.03

DE TOMÁS MORO, CANCELÁRIO DA INGLATERRA

Recluso em duras prisões se achava este varão ínclito, reputando-as por tão gloriosas quanto o era a causa da religião católica que propugnava contra os furores da seita anglicana. E sua mulher Aloísia, impiamente compassiva, entrou no cárcere a persuadir-lhe não quisesse romper intempestivamente o fio de seus anos. Quantos (lhe disse ele) vos parece que poderei ainda lograr de vida? Vinte largamente (respondeu ela). Tornou o preso, mostrando-lhe severo semblante: Pois por vinte quereis que venda uma eternidade? Muito ruim mercadora sois; se disséreis muitos milhares, ainda dizíeis nada.

(da Nova Floresta, do Padre Manuel Bernardes)

21.3.03

Chinoiserie
Num pavilhão que há no céu quinze mandarins esperam deitados. Uns dormem, uns lêem, uns fumam. Os que fumam conversam indolentemente, contam histórias, ou olham para as vigas do teto. De vez em quando um criado se aproxima, e um dos mandarins lhe pergunta, com os olhos, se já aconteceu. Mas não, ainda não aconteceu. Os mandarins voltam aos seus livros, revistas, conversas, cochilos. Sabem que o Reino do Meio é eterno; se no mundo ele foi interrompido, aqui no pavilhão ele é continuado. Quinze mandarins acompanham as sombras das mariposas, e as décadas passam devagar.

20.3.03

para o Luis:

Juntos no inferno
Nunca teve a menor ilusão sobre a mulher, sabia bem para onde ela devia ter ido depois da morte, e no dia do enterro tomou a decisão de que iria para lá também. Não foi fácil, porque era um homem bom, realmente bom; mas durante cinco anos se obrigou a cometer todo tipo de vilezas, que disciplinadamente marcava num caderninho. Acabou de cometer a maior de todas... Numa cadeira de vime dando para o jardim, com a camisa azul suja de sangue, ele olha para a grama; mas não vê nada, porque já se vê no inferno. Sem ela o céu seria o inferno.


This guy is pretty marvelous
Começou a guerra, mas vocês têm que ouvir isto. Um imigrante iraquiano humilhando uma pacifista monguinha. Passei o dia inteiro praticando imitações desse cara, meu herói. Little girl. You are a joke. You are a joke, little girl.


Alex Cabedo
Morreu o Alex Cabedo, dormindo na cama, neste domingo. Foi divertido xingar evangélicas com você, Alex. Xingar evangélicas é o Nobre Esporte Ibérico e espero que você continue a praticá-lo aí no Paraíso. Imagine o impacto do cuspe, se cuspido daí de cima, quando atingir a cabeça dessas patetas que costumávamos atormentar. Alex, Alex, foi uma honra.

19.3.03

HISTÓRIA DA MULHER MAIS LINDA QUE JÁ HOUVE

"Uma mulher feia pediu a Vênus que a fizesse bonita. Que seja, Vênus respondeu. Seja cruel com os homens, e será bonita; e quanto mais cruel for, mais bonita. Mas se amar uma vez só que seja, ficará feia para sempre. Desse dia em diante a mulher começou a ser cruel com todos os homens que se interessaram por ela; e quanto mais cruel era, mais bonita ficava; e quanto mais bonita ficava, mais homens se apaixonavam por ela, e mais ela tinha ocasião de ser cruel. Seu sorriso de desprezo era famoso, e muitos se mataram por ela em Roma. A mais linda mulher que já houve, chamou-a Ovídio. (...) Matou-a enfim um dos soldados de Públio Petrônio."

(das Memórias de Tibério Júlio Alexandre)

18.3.03

Aquela palavra de novo: tapem os ouvidos
É engraçado, mas as pessoas moderninhas têm chiliques à menção da palavra honra. Chiliques mesmo. O que acho engraçado é que essas mesmas pessoas teriam vergonha de sair para a rua com o carro sujo, ou com a calça suja; mas a honra sai suja para a rua e eles riem disso. Desconfio que não é tanto porque não liguem para a sujeira, mas porque acham que não havia nada ali para ser sujo.

A honra está ligada ao conceito de família. Achar a própria honra importante significa apenas querer que a memória dos próprios ancestrais seja respeitada. Não querer que o retrato do seu bisavô bigodudo seja cuspido pelo primeiro molequinho que passar. Não é nada mais complicado que isso; mas pode ser muito intenso. Agora: pessoas que, elas mesmas, querem cuspir nos retratos dos próprios bisavôs bigodudos, e no das mães e tias e avós e irmãos ainda por cima, não podem entender what the fuss is all about.

17.3.03

Alguns intelectuais
Há pessoas que são inteligentes porque são infelizes. A inteligência para eles é uma máquina de rejeitar coisas: rejeitar o que é óbvio, o que é repetitivo, o que é obscuro, o que é duvidoso, o que é vulgar. Leio essas pessoas e sinto um pouco de vergonha da minha felicidade um tanto cretina, que não rejeita de todo a obviedade, a repetitividade, a superficialidade - porque essas coisas são às vezes divertidas. Esses infelizes buscam um ideal: a pureza intelectual, a Verdade; mas não dão sinal de que algum dia venham a achar a Verdade muito divertida. Nunca fazem com que seus intelectos se movam por diversão (isto está abaixo deles); fazem com que seus intelectos se mexam por mania de limpeza. E isso é tudo que se pode dizer deles: são muito limpinhos.


Você não
Um post como esse acima se presta a que todo mundo leia e fique pensando: ele está falando de mim, ele está falando de mim... Não, não, você não. Que é isso. Por favor. Quer dizer, a menos que você seja Paul Valéry; nesse caso sim, é sobre você. Ah, esse seu intelecto alienígena, frio e seco.


Disse a carpa:
Tzaruch shemirah. Hasof bah.

16.3.03

(contos de fada para crianças com nervos de aço)
CONVITE À FILOSOFIA

Uma filósofa passeava no bosque que cerca uma universidade (não pra pensar – ficaria horrorizada ante a sugestão de pensar nas suas horas de folga. Era pra fumar, mesmo.)

E nisso aparece na frente dela a Filosofia: uma mulher de três metros e olhar pensativo. A filósofa levou um susto, deixou o cigarro cair na própria roupa e teve que se dar safanões pra não ser queimada e se livrar das cinzas.

-Vim lhe propor uma experiência – disse a Filosofia. – Sente nesta pedra.

A filósofa hesitou, olhando para uma pedra na beira de um laguinho. Mas acabou sentando.

Enquanto sentava, disse:

-Você é a Filosofia, não é? Queria saber se estou certa no meu palpite sobre a visão de Derrida sobre a visão de Nietzsche sobre a visão de Empédocles sobre o tempo...

A Filosofia disse:

-Outra hora. Quero muito que você faça esta experiência: pense em algo. No tempo, digamos.

-Na visão de Derrida sobre a visão de Nietzsche sobre a visão de Empédocles sobre o tempo?

Havia algo triste no olhar da Filosofia.

-Não – ela disse – Esqueça Derrida, Nietzsche e Empédocles. Pense sobre o tempo. Você mesma. Sem pensar no que outros pensaram sobre o tempo. - Ela viu a aparência nervosa da filósofa, sorriu de leve e disse: - Por favor.

A filósofa pensou: “É inusitado. Está bem, vou tentar. O tempo...”

E subitamente gritou porque sua cabeça estava pegando fogo. Fez dois círculos correndo na clareira, enquanto suas bochechas se esturricavam e seus cabelos voavam na brisa, alcançando a copa das árvores.

Calmamente a Filosofia a agarrou pelo pescoço e mergulhou a cabeça da filósofa no laguinho, virando um pouco o próprio rosto para não respirar a fumaça que saía do contanto da água com a carne queimada.

-Pronto, pronto.

Com o que lhe restava do rosto, a filósofa (que era atéia) chorou e gritou “Meu Deus, meu Deus”. A Filosofia disse:

-Sei como resolver esse problema. Confia em mim?

-Sim – disse a filósofa.

-Então sente mais uma vez nesta pedra e pense no espaço.

Vendo que a filósofa hesitava, olhando pra ela com o único olho que sobrara (o outro estava sendo comido pelas carpas do lago naquele instante), a Filosofia disse, na sua voz mais calma, mais sedutora:

-Confie em mim. Sente naquela pedra e pense.

A filósofa teve que ser guiada até a pedra. Pensou:

“O espaço...”

E gritou mais uma vez, porque o fogo voltou a explodir no que restava da sua cabeça.

Saiu correndo e gritando. Bateu numa árvore, se levantou de novo, e acabou tentando se atirar no lago; mas tropeçou numa raiz e bateu a cabeça na pedra. Ficou lá, com a cabeça esturricada enfiada pela metade na água, e chiando. Os peixes saíram daquela parte do laguinho, que borbulhava discretamente como um refrigerante.

A Filosofia olhou para a cena durante algum tempo, pensativa; mas como o cheiro ali estivesse muito forte, sorriu filosoficamente e foi embora dali.

O bosque que circunda a universidade é um bosque sinistro, onde os filósofos têm medo de ir.

15.3.03

Lirismo comedido
Tenho que confessar, não estou farto do lirismo comedido. O tal, que pára e vai averigüar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. E gosto muito do lirismo namorador. Aquele mesmo, o sifilítico. E - sim, sim - odeio o lirismo dos loucos. Abomino o lirismo dos bêbados, o lirismo difícil e pungente dos bêbados. Coisa de gentinha malnascida.

Como faz falta o lirismo comedido, o lirismo bem-comportado, que pára e vai etc! A poesia brasileira acabou quando as pessoas se fartaram do lirismo comedido; volte, lirismo comedido; volte...


Por exemplo
Escuta, este é o final de um poema de Ribeiro Couto:

Os que amei e perdi dormem dentro de mim;
A culpa é minha, sou eu mesmo que os desperto,
Logo que a noite envolve em sombras o jardim.


Lindo, não? O resto desse poema stinks. Tresanda. Mas esses três versos são suficientes para dar uma pequena e gentil imortalidade a alguém.

14.3.03

Fotos de guerra
Fotografa-se o que acontece, mas não o que não acontece. Óbvio, dirá você. Mas pense nas conseqüências disso. Uma pessoa vê a foto de um mutilado de guerra (que está no meio de destroços, olhando tristemente para a câmera enquanto fuma um cachimbo) e imediatamente passa a ser contra a guerra que mutilou o mutilado. Se fosse possível, no entanto, fotografar o que deixou de acontecer por causa da guerra, a mesma emocional pessoa passaria a ser a favor da guerra. Algumas guerras fazem isso: criam um mutilado para evitar dois mutilados. E portanto se a razão mandar, em algumas guerras é preciso fazer isto: ao ver a foto do mutilado que houve, imaginar a foto dos dois mutilados que não houve. Pacifistas são pessoas sensíveis às fotos sangrentas que vêem e completamente frias em relação às fotos sangrentas que nunca verão, mas deveriam ter sido capazes de imaginar.


Andrew Sullivan
O texto que finalmente me decidiu a ser a favor desta guerra é este.


Sartre sobre mulheres pacifistas
“As mulheres estão sempre erradas; em 1914 elas empurraram seus homens para o front, quando na verdade deveriam ter deitado nos trilhos para impedir os trens de partir - e agora que talvez faça sentido lutar, vocês ficam fundando ligas de paz e fazendo tudo que é possível para acabar com o ânimo dos homens.”
(o personagem Brunet em “Le Sursis”)

13.3.03

Os crescidinhos
Crescemos com o medo natural de sermos enganados. Na escola, na loja, na rua: queremos ser espertos, e que ninguém nos engane. É por isso que vivo encontrando adultos que fazem sons de descrédito e zombaria quando vêem, no cinema, monstros, ou anjos, ou alienígenas. Que se voltam sorrindo para você e dizendo pois sim no momento em que o herói agarra uma bala de revólver nos dentes. Eles são espertos, e ninguém os engana.


A lição de Dumas
Alexandre Dumas tem uma lição para dar a um escritor, uma única lição: seu entusiasmo. Ele se atira ao seu senso de aventura com o maior gosto e sem o menor medo do ridículo, como d’Artagnan se atirando sozinho numa luta contra quatro agentes do cardeal. Não tem muito talento, escreve pessimamente – mas quem mais tem essa coragem de ser perfeitamente, gloriosamente juvenil? Todos os outros escritores avançam com timidez, com medo, talvez nojo, de ceder à própria fantasia romanesca. Têm mais talento, menos coragem. E fico me perguntando quantas histórias tão romanescas quanto a de d’Artagnan, Athos, Porthos e Aramis não são abortadas por escritores que querem ser muito adultos e muito sérios. Todo escritor tem que se ver sozinho contra quatro agentes do cardeal; e geralmente o cardeal vence.


Convicção du jour
Não há, nunca houve, mulher mais linda do que Marisa Berenson como Lady Lyndon em Barry Lyndon.


Uma frase de Rossini
Li isto na resenha de uma biografia de Rossini: Quando o sobrinho de Meyerbeer escreveu uma marcha solene para o funeral de seu tio, Rossini olhou a partitura e disse: “Excelente, mas não teria sido melhor se o seu tio tivesse escrito a marcha e você tivesse morrido?”

12.3.03

A CHAVE DA PORTA DOS SONHOS

Quando criança, numa livraria em Lisboa, abri um livro ao acaso e li isto:

Por três vezes Randolph Carter sonhou com a maravilhosa Kadath e por três vezes o afastaram dela quando a contemplava do alto do terraço que a domina. Com todas as suas muralhas, templos, colunatas, as suas pontes de mármore, com todas as suas fontes e jardins perfumados, com as suas avenidas bordejadas de aprazíveis árvores, de urnas cheias de flores e de filas brilhantes de estátuas de marfim, a cidade luzia, fascinante e dourada ao sol poente...

É o início de “Em Sonhos, À Procura da Desconhecida Kadath”, de H.P. Lovecraft, na tradução de Jorge Silva Melo.

Lovecraft tem muitos defeitos, é freqüentemente ridículo, mas ninguém faz o que ele consegue fazer. Para mim esse parágrafo tinha o efeito de música, when soft voices die. Lia e relia e rerelia.

E mais: fazia um ritual em que me deitava na cama, relaxava, e procurava viver imaginariamente em outros mundos. E de fato vivi em outros mundos. Viajei, lutei, ganhei cicatrizes.

Vivi mais em outros mundos do que neste.

O truque é ser capaz de imaginar tudo com violenta nitidez. Ver reflexos de poças d'água tremendo em tetos. Ver a luz do dia atravessando uma lona branca. Sentir calor e cansaço.

Há exercícios que você pode fazer, agora, para aumentar a sua capacidade de visualização. O clássico é este: pegue uma bola de tênis. Olhe bem para ela. Feche os olhos e tente visualizá-la. Abra os olhos de novo, olhe bem para a bola, e depois feche os olhos e tente visualizá-la. Repita muitas vezes.

Fechar os olhos e imaginar as coisas com muita intensidade, durante muito tempo seguido, me cansava. Depois aprendi métodos que funcionavam melhor comigo. O melhor, descobri faz pouco, é este: visitas rápidas ao mundo dos sonhos, não mais do que dois ou três minutos, de olhos abertos.

Todo mundo faz isso, mas os sonhos dos outros são exclusivamente sexuais. How very unimaginative of you, old boy.

Aos trinta anos, Randolph Carter perdeu a chave da porta dos sonhos. Excursões nocturnas através do espaço por estranhas cidades antigas e inesquecíveis jardins com tufos de verdura encantadores, estendendo-se por sobre mares etéreos, tinham-no desenfadado, até esse ano, das mediocridades da vida. Ao atingir a meia idade, sentiu que, progressivamente, os seus privilégios lhe escapavam e acabavam por desaparecer completamente. A partir de então, as suas galeras, depois de terem passado as flechas de ouro de Thran, nunca mais poderiam navegar à vela sobre o rio Ukranos, nem as suas caravanas de elefantes poderiam caminhar no Kled através de selvas perfumadas onde, sobre as suas colunas de mármore, dormem, intactos e fascinantes ao luar, os palácios esquecidos...

11.3.03

Anticristo
Quando o anticristo vier, se vier, há de ser très PC. Aposto que vai ser negro, viado, e judeu e palestino ao mesmo tempo. Ainda por cima aleijado e analfabeto e inzoneiro (seja lá o que for inzoneiro). E com um corte de cabelo ridículo, e um desses nomes mudados pela numerologia: antticristtho ou algo assim. Ninguém vai poder falar mal dele, ou vai ouvir a acusação de estar só querendo aparecer. Garotinhas darão chiliques em blogs: ai, falaram mal do antticristtho! Geeeente, fiquei passada!


A Marca do Anticristo
E por este signo o reconhecereis: escrever naum no lugar de não. E a besta trará nos bolsos fotos de gatinhos. E de sua boca não sairá nem sim nem não, mas apenas ai, pára kom isso, tô fora!!!!

10.3.03

Conselho paterno
Estou lendo “Os Três Mosqueteiros”, cuja história começa em 1625. Logo no início, o pai de d’Artagnan, um nobre gascão empobrecido, se despede para sempre do filho, que vai para a capital, com este conselho:

Bate-te a propósito de tudo; bate-te principalmente porque os duelos são proibidos, e que, por conseqüência, o bater-se exige dupla coragem.

Esses são considerados sábios conselhos, mesmo se um pouco excêntricos; e o pai é considerado um bom pai, mesmo se orgulhoso. Imagine um pai dando o mesmo conselho nos dias de hoje! Psicólogas dariam chiliques intelectuais na Veja.

D’Artagnan parte; e Dumas o compara com D. Quixote neste sentido:

Dom Quixote tomava os moinhos de vento por gigantes e os carneiros por exércitos; d‘Artagnan considerava cada sorriso um insulto e cada olhar uma provocação. Daí que conservasse o punho sempre fechado de Tarbes a Meung e que, dez vezes por dia, levasse a mão à guarda da espada. (Trad. Octávio Mendes Cajado)

Mas quando um jovem hoje sai pra rua com essa mesmíssima vontade de brigar, não é herói, nem é simpático – é um caso patológico. Mesmo considerando-se que já não se trata de matar ninguém com uma espada, mas simplesmente de dar uns tabefes.

Cenas de jovens brigando em calçadas passam na tevê ao som de músicas dramáticas, sinistras. Um estudante com o rosto um pouquinho inchado depois de uma briga é mostrado como uma vítima trágica. O moleque que teve o gesto saudável e brincalhão de arrancar a orelha de um outro numa briga de boate (all in good fun! c'mon!) é tratado como um monstro. Vivemos numa época profunda e violentamente abichalhada.

9.3.03

sometimes sentimentality
makes a grab at you
and waits for no formality
to kill and plunder you

it jumps out from the closets
and from old long-play covers
it aims at mortal targets
wearing masks of former lovers

7.3.03

Políticas de incentivo my ass
Encontro com o escritor. Lá vem um coitado de um escritor, depois de semanas de ansiedade, perder uma tarde de trabalho pra falar em público. Olhe o esforço que ele faz pra parecer normal, apesar dos dedos tremendo quando seguram o livro, os tiques nervosos, e a risada sem conexão alguma com o que está dizendo.

Esse tipo de coisa só acontece porque os leitores querem se vingar do autor. Se ele fosse bom pra falar em público, não teria justamente escolhido a escrita. Os leitores sabem disso, e malevolamente querem que ele fale. Se perguntados, dizem: “Acho importante esses encontros, né, pra gente se sentir estimulado a ler”. O escritor, hipocritamente: “Sim, sim”.

Ou essas discussões na tevê, sempre à tarde - como estimular o gosto pela leitura nas crianças. Bestalhões (que se lhes vê nas caras) que nunca leram coisa alguma que preste discutindo “políticas governamentais de estímulo à leitura”. Quer uma boa política de estímulo à leitura? Vai você pra casa ler um pouco.

Mas sempre falam as mesmas coisas: a aparência do livro tem que ser melhor (mais parecida com uma bruschetta? Como assim, "a aparência do livro tem que ser melhor"?), o livro é muito caro (mesma coisa que um CD, os adolescentes se entopem de CDs), doações a bibliotecas (certo, as que eu conheço só têm milhares, desincentiva muito os molequinhos que queriam milhões de livros), “encontros do escritor com o leitor” (mas não há ONG de proteção a autores, meu Deus?), e –e – e (nessa altura tem sempre alguém que gagueja) “ah, sei lá, uma série de medidas a serem elencadas pelos profissionais do livro”. Juro que vejo essas coisas e sinto vontade de sair dando bengaladas.

“Mas qual a sua solução, Alexandre?” – perguntará você. (Vamos, pergunte, ou não posso continuar.)

-Mas qual a sua solução, Alexandre?
-Simples. Lê quem quer. Agora vai todo mundo pra casa ler um pouco. Recomendo Jane Austen: J - A - N - E - A - U - S - T - E - N ...

6.3.03

Galanterias
“Depois de algum tempo uma disputa sobre parte da sua herança obrigou o Conde de Roscommon a ir à Irlanda, onde foi feito capitão da guarda pelo Duque de Ormond, e teve uma aventura assim contada por Fenton:

“Estava em Dublin, como sempre afligido com sua eterna paixão pelo jogo, que o envolveu numa aventura que merece ser contada. Quando voltava para casa depois de uma noite de jogo, foi atacado no escuro por três bandidos, que tinham sido contratados para matá-lo. O Conde se defendeu com tanta resolução que pôs desacordado a um dos agressores; e nisso um cavalheiro, que acidentalmente passava por ali, entrou na briga e desarmou outro dos agressores; e o terceiro fugiu. Esse generoso assistente era um militar desempregado, de boa família e boa reputação, que, pelo que chamamos de a parcialidade da sorte, para evitar a censura à iniquidade da época, não tinha sequer roupas boas para fazer uma visita decente ao castelo. Mas o Conde nessa ocasião o apresentou ao Duque de Ormond, e com grande insistência insistiu com o Duque para que o tirasse do posto de capitão da guarda, e desse o posto ao seu novo amigo. Durante três anos esse cavalheiro teve os benefícios do cargo; e, quando morreu, o Duque devolveu a comissão ao generoso benfeitor.”
Samuel Johnson, Life of the Earl of Roscommon (1634?-1684), em Lives of the English Poets (1779)


Século Dezoito
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai, numa nota sobre o Marquês de Sade em "Mar de Histórias", Vol.2: "tinha (...) até talento (mas quem não sabia escrever no século XVIII?)"


5.3.03

Inteligência e gosto
Às vezes acho que há excesso de inteligência tanto em críticos quanto em escritores. Não digo que seja preciso ser burro; digo que a inteligência tem que ser discreta.

Tantos críticos mordendo os lábios enquanto lêem uma frase escrita em dez segundos por Dickens, digamos. Sublinhando coisas. Fazendo análises sintáticas. Fazer análise sintática é pecado. E as coisas que eles vêem ali: o sistema jurídico na Inglaterra vitoriana; a condição dos órfãos na Inglaterra vitoriana; patati, patatá. Se querem estudar alguma coisa, por que não vão estudar uma rocha, um xaxim, um sapo?

Está certo que algumas obras exigem estudo, inteligência, e até mesmo teoria. A Divina Comédia, por exemplo. Mas não são muitas. Para ler Madame Bovary, tudo que você precisa é atenção. Esqueça o retrato da burguesia francesa provinciana no final do século XIX e toda essa papagaiada asquerosa.

Philip Larkin falando sobre certos tipos de poemas: dizendo que odeia

the boring too-clever stuff. Poetry that can’t be understood without footnotes: “See the picture ‘A dog buried in the sand’ among the Black Paintings of Goya in the Prado.” Why the fucking hell should I?’*

E Nabokov, sobre romances:

It seems to me that a good formula to test the quality of a novel is, in the long run, a merging of the precision of poetry and the intuition of science. In order to bask in that magic a wise reader reads the book of genius not with his heart, not so much with his brain, but with his spine. It is there that occurs the telltale tingle even though we must keep a little aloof, a little detached when reading. Then with a pleasure which is both sensual and intellectual we shall watch the artist build his castle of cards and watch the castle of cards become a castle of beautiful steel and glass.**

Ao que acrescento duas testemunhas. Stravinsky, que disse:

Diaghilev não era um intelectual. Era muito inteligente pra isso. E depois, intelectuais não têm gosto. Nunca houve um homem de mais bom-gosto que Diaghilev.

É exatamente esse o problema - intelectuais não têm gosto. Você lê esses livros de crítica poética com diagramas e análises sintáticas, ou essas histórias da literatura sob a ótica feminista, e sabe que esses filisteus jamais gostaram de um verso só por gostar.

A segunda testemunha sou eu mesmo, que escrevi este poeminha em inglês, me referindo à obra crítica do überfilisteu Sartre:

I know a critic whose whole work is waste.
Too much intelligence. Too little taste.


Humm, fico envergonhado de terminar assim, com o meu poeminha. Mas não tenho mais nada pra falar. Tchau, tchau! Vão pela sombra, essas coisas todas.


* (“... as que são chatas e excessivamente inteligentes. Poesia que não dá pra entender sem nota de rodapé: “Ver o quadro ‘Cão enterrado na areia’ entre os Quadros Negros de Goya no Prado.” Por que diabos eu faria isso?”)

** (“Me parece que uma boa fórmula para testar a qualidade de um romance é, em longo prazo, uma fusão entre a precisão da poesia e a intuição da ciência. Para apreciar essa magia o leitor sábio lê o livro de gênio não com o coração, e nem tanto com o cérebro, mas com sua coluna. É lá que acontece o revelador arrepio, embora precisemos nos manter um tanto distantes, um tanto frios enquanto lemos. Então, com um prazer que é ao mesmo tempo sensual e intelectual, veremos o artista construir seu castelo de cartas, e veremos o castelo de cartas se tornar um castelo de lindos aço e vidro.”)


Ah sim
Para quem perdeu ontem, me deixem resumir minha engenhosa argumentação em defesa da França. Era isto.

4.3.03

Saudades de Marianne
Às vezes parece que só besteira vem da França nas últimas décadas. Um intelectual francês abre a boca e você sente toda a dor da bêtise humaine atacando o seu esfíncter. Mas ainda é possível amar a França. O loved so much so long, disse Swinburne. O deathless, O my France...

A França não é semiótica. Paris não foi desconstruída: é a cidade mais linda de todas. É possível ir a Paris sem ser estuprado pelo fantasma priápico de Jean Paul Sartre. Paris sobreviveu aos nazistas e há de sobreviver a Félix Guattari. As berebas que cresceram no rosto de Marianne (Derrida, Lacan, Foucault e Kristeva) vão desaparecer... E ela voltará a sorrir, sim, usando casaco de peles, na ponte Alexandre III.

Três defesas da França: há esta, e esta. E há esta, um poema de Péguy, traduzido por Sérgio Milliet:

Será aborrecido, disse Deus, quando não houver mais esses franceses,
há coisas que eu faço e que ninguém saberá compreender.

Povo, os povos da terra te dizem leviano,
porque és um povo arrebatado.
Os povos fariseus te dizem leviano
porque és um povo rápido.
Já chegastes antes dos outros terem partido.

Ó povo inventor da catedral, não te achei leviano na fé,
Ó povo inventor da cruzada, eu não te achei leviano na caridade.
Quanto à esperança, nem vale a pena falar, não sobra pra mais ninguém.

Assim são os franceses, disse Deus. Não sem defeitos. Ao contrário. Têm até muitos defeitos.
Mais defeitos do que os outros.
Mas com todos os seus defeitos, eu os prefiro ainda aos outros, sabidamente com menos defeitos.
Amo-os como são. Só eu, disse Deus, sou sem defeitos.
Eu e meu filho. Um Deus tinha um filho.
E como criaturas, sòmente três foram sem defeitos.
Adão e Eva antes do pecado.
Sem contar os anjos.
E a Virgem temporal e eternamente
na sua dupla eternidade.
E duas mulheres foram puras embora carnais
e foram carnais embora puras.
Eva até o pecado.
Eva e Maria.
Maria eternamente.

Os franceses são como todo mundo, disse Deus. Poucos santos, muitos pecadores.
Um santo, três pecadores. E trinta pecadores. E trezentos pecadores. E mais.
Mas eu prefiro um santo com defeitos a um pecador sem defeitos. Isto é,
Prefiro um santo com defeitos a um neutro isento dêles.
Eu sou assim. Um homem tinha dois filhos.
Ora, mesmo assim, êsses franceses são os meus melhores servidores.
Sempre foram, sempre serão meus melhores soldados na cruzada.
E sempre haverá cruzadas.
Êles me agradam em suma. Basta isso. Têm seus lados bons e seus lados maus.
Têm seus prós e seus contras. Eu conheço o homem.
Sei muito bem o que se deve exigir do homem.
E principalmente o que não se deve exigir.
Se alguém o sabe sou eu.




3.3.03

Não ponham o meu livro na boca
Logo depois de dizerem que meu livro tem 14 cm de largura, a Saraiva online diz que ele tem "a profundidade de 1 cm". Essa é a crítica mais devastadora que já tive; mas se querem saber, nem é verdade. Meu livro tem a profundidade de 1,1 cm. Muito profundo! Muito profundo! (Se acham que 0,1 cm não é nada, permitam-me enfiar 0,1 cm de pó de mica nos seus olhos)

Depois eles ainda dizem que o meu livro não é comestível. Fico me perguntando quem foi testar isso. Será que eles testam livro por livro? Ou só o meu? Terá sido a única coisa que encontraram de ruim pra dizer sobre o meu livro? "Bom até é, mas não dá pra comer. Cotação: *** "

2.3.03

O suplício do gosto
Cada vez que ouço a palavra “tesão” no sentido figurado (quase sempre é “tesão pela vida”, ou “é preciso ter tesão pelas coisas, entende?”), sinto dores nas juntas, todas elas, mas principalmente nos joelhos e artelhos, e não consigo nem ficar de pé, e caio no chão me contorcendo e gritando. Fui no médico achando que era gota, mas ele disse que não, é bom-gosto. Humm...


...but all the rest are bores
Existe uma Coisa. Estou longe da Coisa, olhando para a Coisa. Noto que muitas pessoas passam pela Coisa e cospem nela. Noto que essas pessoas são sempre imbecis. Começo a me interessar pela Coisa...


Preste atenção
Todo mundo que fala mal da “culpa judaico-cristã” é canalha.

1.3.03

PARAÍSO PERDIDO


Perguntam-me como passo o carnaval. Traduzindo Milton, ora – como mais? Como vocês passam o carnaval?



Livro I

Sobre a primeira desobediência
Do homem, e o fruto proibido
Cuja mordida trouxe a morte ao mundo
E dor, e expulsão do Paraíso,
Até que Cristo nos leve de volta,
Canta, Musa Sagrada, que no topo
Do Orebe ou do Sinai a inspiração
Deste ao Pastor que ensinou primeiro
Como, no início, os céus e a terra
Se ergueram do Caos; ou se preferires...


Traduzo um decassílabo, jogo confete para o ar, traduzo mais um decassílabo...

É só falar em carnaval que sinto a métrica miltoniana descendo aos meus pés. Quem não gosta de Milton é ruim da cabeça ou doente dos pés* - ou talvez seja um branco sem senso de ritmo, que não percebe a música miltoniana só por causa da ausência de rima**. Quantas vezes, meu Deus, não subi os morros do Rio recitando Samson Agonistes, e logo logo as mulatas vinham requebrando inconscientemente ao ritmo do malemolente bardo de Londres...

Ou mesmo hoje: experimente entrar num bar, lendo as linhas 157 e seguintes do Paraíso Perdido ("Fallen Cherub, to be weak is miserable/ Doing or Suffering..."), e você vai ver que logo uma mulher não agüenta, sobe na mesa e começa a requebrar só de sutiã. Não falha nunca!


*entendeu? pés? métrica? hein? hein?
**os paulistas são assim. São Paulo é o túmulo de Milton.