26.4.03

ESTE BLOG SE MUDOU PARA

http://soaressilva.wunderblogs.com

Clique, vá lá. Ora, vamos. Clique.







Trecho de um poema de Robert Frost
I´m liberal. You, you aristocrat
Won´t know exactly what I mean by that.
I mean so altruistically moral
I never take my own side in a quarrel.



MICROTEATRO

ou

TEATRO EM DEZ SEGUNDOS



Alexandre Soares Silva aponta uma pistola para um apresentador de tevê barrigudo, bigodudo, que leva um palito de dentes no canto de uma boca levemente parecida com a de um javali.

ALEXANDRE - (atirando cinco vezes no rosto do apresentador) Desgraçado!

(Caem miolos e cortina ao mesmo tempo)

Brought to you by the Ten-Seconds Production Company in association with Alexandre Soares Silva

25.4.03

Ateus
Existe algo de profundamente puritano num ateu. Ele vê o universo como uma espécie de müesli, a ser comido sem mel. Vê os dedos melados dos crentes, o fio dourado entre a colher e o prato, e franze o sobrolho com desprezo.


Arrependimento
Matou a mulher num acesso de ciúme. Horrorizado com o que tinha feito, usou a sua genialidade pra conceber uma máquina que o levasse de volta ao preciso instante do crime, para não o cometer mais. A alavanca foi acionada. Suspense.


C.S.Lewis, the Narnia Killer
Se o sistema solar foi causado por uma colisão acidental, então o aparecimento de vida orgânica neste planeta foi também um acidente, e toda a evolução do homem foi também um acidente. Se é assim, todos os nossos pensamentos são meros acidentes – o subproduto acidental do movimento dos átomos. E isso vale para os pensamentos dos materialistas e dos astrônomos tanto quanto para os dos outros. Mas se os pensamentos deles - i.e., do Materialismo e da Astronomia – são meros subprodutos acidentais, por qual motivo deveríamos acreditar que são verdadeiros? Não vejo razão para acreditar que um acidente possa ser capaz de me dar uma explicação correta de todos os outros acidentes. É como esperar que a forma acidental tomada por uma poça de leite, quando derramado de uma garrafa, explique corretamente como a garrafa foi feita e o motivo do derramamento.
(Answers to Questions on Christianity)


Espera
Releia o conto chamado Arrependimento, postado mais uma vez aí embaixo. Mas desta vez, ao terminar, leia de trás pra frente, lendo de vinte em vinte letras a partir da última letra, “e”. Deixei as letras em questão em negrito para facilitar a leitura.


Arrependimento
Matou a mulher num acesso de ciúme. Horrorizado com o que tinha feito, usou a sua genialidade pra conceber uma máquina que o levasse de volta ao preciso instante do crime, para não o cometer mais. A alavanca foi acionada. Suspense.

24.4.03

Jornalismo
Ouvi uma vez Fernando Morais dizer que quem não se interessa por Antônio Carlos Magalhães não devia ser jornalista, devia ir fazer outra coisa. Acho que esse é exatamente o problema com o jornalismo: um monte de gente que se interessa por Antônio Carlos Magalhães.

Isso, e que são gentinha. Mesmo pessoas interessantes como Paulo Francis - cuja morte eu quase, quase chorei - quanto mais jornalista era, quanto mais da patota do Pasquim, mais acanalhado. Quem disse o que ele disse sobre Ruth Escobar (sim, ela mereceu) is no bloody gentleman.

Vejo a vida de Paulo Francis como uma luta contra o jornalismo. Daí a sua depressão de dias, depois que seu romance não vendeu o quanto queria. Sentia a necessidade de escapar desse mundo acanalhado das redações, e suspeito que queria escapar até mesmo de alguns amigos, que entrarão para alguma espécie de história só porque tiveram a sorte de viver no mesmo bairro de um gênio.

No final, se não me engano escrevendo sobre uma exposição de Matisse, Paulo Francis lamentou o tempo que tinha desperdiçado na vida, lendo e escrevendo sobre Kruschev, Jango, e outras bestas.

Foi um gênio que viveu na favela do jornalismo. Quis escapar. Morreu antes. E até hoje os jornalistinhas brasileiros reclamam de seu pseudojornalismo - como se importasse se os seus textos seguiam ou não alguma espécie de cartilha infecta do que é jornalismo. Fico imaginando se um chefinho de redação o forçasse a escrever jornalismo de verdade; ah, as almas secas, cheirando a nicotina, que falam de jornalismo como se fosse uma ciência arcana. O que ele escreveu foi simplesmente as melhores linhas do jornalismo brasileiro, e se o jornalismo o renega, fica decapitado.



**************************************

Mas enfim. De qualquer modo, juro que nunca fui tão feliz quanto depois que acabou a minha assinatura da Folha. Meu rosto ganhou uma distinção encantadora.


23.4.03

Hitler, Brainy Boy
Sabe-se a profundidade de um homem pelo que escolheu para ser sua Bíblia. Indo de Para Ler o Pato Donald até a Bíblia, mesmo.

A Bíblia de Hitler era Winnetou, de Karl May.

Gosto de Karl May, é divertido. Um autor alemão que escrevia histórias de faroeste. Mas Hitler não apenas achava divertido, era o seu autor favorito, e pior ainda, o seu sábio favorito. Mantinha os livros de Karl May na cabeceira, e quando sob pressão, e estava sempre sob pressão, folheava esses livros em busca de sabedoria, conselhos de vida, soluções táticas. Juro, está aqui.

Esse texto que linquei foi escrito por um sujeito que visitou a biblioteca pessoal de Hitler em Washington. Ele disse que Hitler sublinhou a lápis a seguinte passagem do satanista Ernst Schertel: "Aquele que não traz dentro de si sementes demoníacas nunca será capaz de criar um novo mundo."

Posso imaginar um adolescente que gosta de heavy metal lendo essa passagem e ficando empolgado, mas um adulto não. Ok, na verdade posso imaginar qualquer um ficando empolgado - eu fiquei, um pouquinho - mas só durante alguns segundos; depois a pessoa percebe a tolice disso, e muda de assunto.

Hitler não, foi em frente. Que paspalhão, Hitler era.


Almas Complexas
O problema de um livro como este é que você vê essas fotos bonitas, em preto e branco, de pessoas atormentadas e complexas entre livros, e depois percebe com um choque que é só o Haroldo de Campos, caramba. E olha, escrevendo, ainda por cima.

Há livros assim no exterior, fotos P&B muito bonitas, muito cheias de luz e sombra, mostrando a cara vincada de algum escritor realmente interessante. Daí países como o Brasil ou a Guatemala copiam o método com seus sucedâneos de escritor, e não é propriamente a mesma coisa.

Todo o aparato para mostrar que quem está ali, cercado de cinzeiros cheios e papéis, dramaticamente plantado no centro de espirais de livros, é uma alma rebelde, um pensamento indômito, ou qualquer um desses clichês de foto preto e branco, e tudo o que você vê é o Josué Montello franzindo a testa.

Há também uma outra fotografia do Haroldo de Campos, suponho que escrevendo numa máquina, com um pôster de Laranja Mecânica atrás dele. O que me faz sonhar que sua campainha toque e seja alguém pedindo socorro, porque acabou de sofrer um acidente, e precisa urgentemente usar o telefone (if you know what I mean). Cantariamos todos na chuva, não?


THIS AZURE BOOK

See here in this azure book
The imprimatur of the comic monster,
Lord Lucipher of the ugly streets,
Undoer of all pretty scams.

And see here above the watermark
Where Magdalen wrote her curse
A quotation from Vitruvius,
Which you somehow cannot read.

Thus your life is read by mongrels,
And commented by sardines,
And your tears are illustrations,
And your sobs are lies and fleas...





22.4.03

Ateísmo
Minha principal objeção ao ateísmo é que ele é feio. Ele é feio... É como decorar mal a sua própria mente. Substitui os vitrais de Chartres por um quadro de mendigos comendo laranjas em Lambeth. É o bicheiro, o rapper, o documentarista checo das visões de mundo. O Paulo César Pereio da mente humana. Sim, insisto: o ateu tira Deus da sua sala mental (não suficientemente real, cru, entende?) e manda entrar o Paulo César Pereio pelado bebendo uísque. Com maior ou menor sofisticação, cada vez que um ateu fala, é o Paulo César Pereio que fala pela boca dele.

21.4.03

Complete a lacuna

a) Um livro não é papel. Um livro é feito de papel.
b) A mente não é o cérebro. A mente é feita de cérebro.

a) Um mesmo livro pode ter várias edições ao longo do tempo.
b) Uma mesma mente _______________________________

20.4.03

Insistindo, só para ser chato, pourquoi pas? Na Páscoa e tudo.
Você abriria mão de suas liberdades em nome da igualdade?
Se respondeu sim, é de esquerda; se respondeu não, de direita.
Se respondeu depende, que liberdades, está em algum ponto no meio, estando mais à esquerda quanto mais liberdades estiver disposto a ceder, e mais à direita quanto menos liberdades estiver disposto a ceder.
Me parece uma boa metodologia, uma variação da de Norberto Bobbio, que fez a distinção na base da prioridade dada à igualdade.
Por mais que esperneie, ninguém está fora da linha esquerda-direita.
E ninguém é desprezível por estar nesse ou naquele ponto da linha esquerda-direita.
É uma decisão pessoal.
Mas notem uma coisa:
Por definição, quanto mais à esquerda, mais a pessoa quer decidir por todas as outras.
Por definição.

19.4.03

A Sabedoria Viva de Alexandre Soares Silva
O ponto alto da história humana, digo a mundana, não a sagrada, foi atingida por Cole Porter, e por mim cada vez que ouço Cole Porter, e por você também. Mas dois minutos depois de terminada a música, se a ouvimos cada um em seu próprio apartamento, nosso espírito desinfla como uma bola que levou uma tesourada. Mas nunca quando ouvimos juntos; já reparou? Nunca, nunca.

Em algum ponto lá pela metade do século vinte, um pouco antes até, a humanidade descobriu um jeito de ser muito bacana. Durou até que Frank Sinatra ficasse careca. A humanidade caiu, caiu; quem era bacana envelheceu, passou a usar óculos grandes demais, dentaduras, perucas; que triste, que triste; seus filhos foram feinhos e tragicamente sem-graça; mas seus netos, às vezes – só às vezes – seus netos e netas, às vezes, colocam música da Broadway dos anos trinta, se vestem bem – é raro, mas acontece – e a humanidade volta a ser bonita durante uma hora ou duas.

A mundanidade tem suas próprias asceses, seus próprio santos e profetas. O melhor da mundanidade, presta atenção – o melhor da mundanidade é sagrado à sua própria maneira. No céu os santos dançam ao som de Paris Loves Lovers. Uns com os outros, chérie. Uns com os outros.

Sei lá eu o que se passa no céu, mas você acha que os filmes de Fred Astaire são uma imagem de quê? Onde mais existe aquela Veneza em preto-e-branco, aquele coreto em preto-e-branco, onde um dia você e eu nos protegeremos da chuva? Huumm?


A Sabedoria Viva de Alexandre Soares Silva (Melhores Momentos)
Se você for muito mundano, acabará encontrando um misticismo da mundanidade. Onde playboys se tornam santos, e no entanto continuam playboys. Cavando embaixo da toalha de piquenique se encontra um caminho que vai dar em Deus.


Meu mantra
You´re the top, you´re the top, you´re the top...

18.4.03

Relendo “Hannibal”
Thomas Harris pode não ser um estilista, mas há delicadezas nele, não verbais propriamente, mas de imaginação, que me agradam muito. Morre um agente do FBI em Hannibal, que mal havia aparecido no livro - e Harris diz que tanto Clarice quanto sua amiga Ardelia tinham uma certa queda por ele, quando eram suas alunas de tiro, e que They had tried to read his tattoo through his shirtsleeve. Só isso, e não se fala mais dele, praticamente. Gosto muito desse detalhezinho, é vívido e sutil. E Hannibal está cheio de momentos assim. Certo, ninguém falou em grande literatura, é comercial; mas como é bom, no meio de um livro que ninguém considera arte, encontrar momentos de grande arte, ou ao menos de delicada arte.

Um sábio (suponho que fui eu) disse: “Nem sempre a Grande Arte vem pela estrada da Grande Arte”. Or something . E é de fato divertido encontrar a arte escondida em arbustos, onde ninguém procura.

Outra coisa sobre Hannibal, claro, é que Hannibal Lecter é um grande personagem. Sim, é sim.


Murderer of English Sentences
Em The War Against Cliché, Martin Amis diz que Thomas Harris é "a serial murderer of English sentences, and Hannibal is a necropolis of prose". E o pior, e mais estranho, é que Lecter concordaria, e gostaria muito de Martin Amis.

Falei das delicadezas de imaginação, mas há também grosserias de imaginação. Sem dúvida. Personagens antipáticos suam. Canalhas têm mau-hálito. Mas, by God, my boy, eu adoro esse livro.

E nele há um monstro deformado que vive numa mansão gigantesca, e bebe martinis misturados com lágrimas de criancinhas. Se os irmãos Grimm tivessem coletado isso como conto de fadas, as pessoas diriam, ah, o povo, o gênio imaginativo do povo.


Lecter do Bem
O homem mais próximo de um Hannibal Lecter bondoso na vida real: Vladimir Nabokov. Gosto perfeito, sentidos despertos. Certo, não gostava de música, não tocava cravo, não construía teremins. Não era estranhamente imóvel, não tinha voz metálica. Tudo bem, tudo bem. Toda comparação entre duas coisas que não são a mesma coisa tem os seus limites. Mas mesmo assim, mesmo assim. O mais próximo que a vida real fez de Hannibal Lecter. E não estranharia se soubesse que ele tinha um palácio da memória. Nabokov via letras com cores e tinha, eu já disse mas repito, um gosto perfeito.

E insisto no bondoso. Acho que Paulo Francis estava errado, quando disse que Nabokov não tinha the milk of human kindness. Não deve ter lido Nabokov o suficiente. Meu Deus, Nabokov estava cheio de milk of human kindness. Dava pra fazer um gruyère of human kindness com ele.


Palmira
Não posso, suspeito que ninguém pode, falar de Nabokov sem falar de Palmira, do Radamanto (post de 1 de abril). E ah, sim: boa Páscoa.

17.4.03

O Mais Nobre Esporte
Politicamente incorreto é um esporte. Trata-se de contrariar politicamente corretos. Eis tudo. Não é uma filosofia, uma religião. Não diga ao sujeito que está tentando ser politicamente incorreto, ah, que bobagem, esqueça os politicamente corretos, não seja politicamente incorreto só pra chocar, pára com isso, cansei. É como dizer para um atirador olímpico atirar onde lhe der na veneta, chega disso de atirar em alvos, que artificial, que coisa.

E eu convido a todos, pratiquem, pratiquem. Nada melhor que causar um chilique em cinco blogueiros antes dos waffles matinais. De tarde você descobre cinco posts furiosos antivocê. Significa, cinco pontos.

Uma boa medida de falta de inteligência, ou QI negativo, é a capacidade de se irritar com idéias. Significa que nunca as ouviu. Significa que não leu muito, nem pensou muito, mas mandou muitas mensagens irritadas. Este sujeito defendendo isso-ou-aquilo! (significa que você nunca leu livros sobre isso-e-aquilo? Não sabia que há prós e contras?)

O politicamente correto é um movimento que surgiu não sei bem quando de pessoas que colocaram as cabeças em cima de um muro, como patos num stand de tiro, e disseram: “Por favor, choquem-nos”. Ser capaz de resistir a isso é sinal de falta de vitalidade, espírito esportivo, zest for life, essas coisas.

Ora, vamos. Experimenta.

16.4.03

Aquela história dos olhos de quem vê, lembram?
Nos últimos dias, o Rafael Lima (post do dia 8 de abril), o Lesser (dia 9 de abril) e o Dante (10 de abril, “quite charming”) escreveram palavras gentis sobre o meu livro. Agradeço. Peço que leiam, vão lá e leiam, e depois voltem, e leiam o resto que escrevi aí embaixo, está bem? Se bem que a gripe está afetando a minha musa (mas não as deles). E falando dela...


...A Musa Seduzida
Um escritor sentou à mesa para escrever um ensaio contra a inspiração, mas, muito banalmente até, a inspiração não veio. Suspirando, disse: Musa, Musa, apareça. Só quero negá-la, não caluniá-la. Direi sempre que você é linda. Só lamento que inexistente... Mas venha, venha, Musa minha. (E a Musa veio.)


A Prece Vermelha
Todas as noites, desde pelo menos o século XIX, os comunistas se ajoelham na beira da cama, fazem o sinal-da-cruz comunista, e rezam para que a inevitabilidade da decadência dos Estados Unidos seja realmente muito, muito inevitável.


Pensem bem
Eu só sei que vocês ficam aí insistindo em matar e traficar drogas, e em fazer filmes sobre assassinos e traficantes de drogas, e em ver filmes sobre assassinos e traficantes de drogas – pra quê? Que mau gosto! Sentem na grama, abram uma garrafa de champagne, e façam um piquenique lendo Colette.

É simples assim, chama-se livre arbítrio.

15.4.03

Karandirooh - (EUA, 1942) – Comédia amalucada de Howard Hawks, com roteiro de Ben Hecht. Karandirooh foi o quinto e último filme da dupla Cary Grant / Katherine Hepburn, e narra a história de Oswald Truegood (Grant), um colecionador de ovos de avestruz que é julgado e preso no Brasil por não saber dançar samba. Não perca a cena em que Grant e Hepburn escapam da prisão disfarçados de gorila. E, aconteça o que acontecer, não veja a refilmagem feita por Hector Babenco (2003), com Rodrigo Santoro no papel de Katherine Hepburn.

14.4.03

A Multidão Sozinha
A esquerda, que é todo mundo, se acredita sozinha. Negam que sejam todos de esquerda. Cada um assume que é só ele, e mais uns poucos. O que dá uma multidão de gente dizendo que está sozinha, de costas contra a parede, e que os dois ou três sujeitos lá no meio, que se declaram de direita, são uma turba.

E se os dois ou três sujeitos dizem que a situação é a inversa, a multidão ri da idéia de que seja uma multidão. Dois milhões de bocas chamam os três sujeitos de paranóicos.

Durante muito tempo eu lia as colunas de Carlos Heitor Cony na Folha, e ele sempre assumia a postura romântica de “a única voz clamando contra Fernando Henrique Cardoso”. Claro, se fosse verdade, seria muito romântico mesmo. Mas o que dava o efeito cômico era que todas as outras colunas na mesma página estavam falando mal de Fernando Henrique Cardoso.

Nada de novo nisso. É uma velha, muito velha postura romântica. Chesterton descreveu Chamberlain assim, no livro Heretics: “He has one power which is the soul of melodrama--the power of pretending, even when backed by a huge majority, that he has his back to the wall.”

A esquerda é assim agora, e até acho que são sinceros, que se sentem assim mesmo. Para cada pessoa de esquerda, a multidão não é suficientemente de esquerda; logo, para eles, não são de esquerda de modo algum. Os jornais, a mesma coisa. O sujeito de esquerda acha que a Folha não é suficientemente de esquerda, e que portanto não é de esquerda de modo algum. Só ficaria satisfeito se as manchetes dissessem MORRAM PORCOS CAPITALISTAS.

Umas cem pessoas, digamos, apareceram na Internet, aqui, nos Estados Unidos, na Europa, e fazem oposição à esquerda. Aparecem na Internet justamente porque é o único lugar que restou. Mas isso é intolerável para o sujeito de esquerda que dá uma entrada na Internet e se sente sufocado por uns três blogs que se linkam mutuamente. “Isso é intolerável, intolerável! Olha só, três blogs de sujeitos que não são de esquerda! E linkam outros blogs que não são de esquerda!” E mal podem respirar, e rolam no chão com dores no fígado.*

Vou lhes dizer uma diferença essencial, psicológica, não-ideológica, entre pessoas de esquerda e de direita. Pessoas de direita são mais civilizadas que as pessoas de esquerda. E provarei isso em três passos mui simples.

1) A convivência com pessoas de opiniões diferentes civiliza.
2) Não há pessoa de direita que não tenha amigos de esquerda. Não há. Pelo simples fato de que quase todo mundo é de esquerda. Logo, a pessoa de direita faz amizades com pessoas de esquerda, casa com pessoas de esquerda, tem filhos e patrões de esquerda. Pode até assumir um tom raivoso contra a esquerda quando está escrevendo, mas pessoalmente faz piadas a respeito, e zomba gentilmente, carinhosamente, das opiniões que acha de titica. E portanto tem uma reação civilizada em relação à esquerda.
3) Muito poucas pessoas de esquerda conhecem alguém de direita. Porque há tão poucas pessoas de direita**. Logo, não são civilizadas pelo contato com pessoas que pensam diferentemente. O resultado é que encaram pessoas de direita como monstros. E reagem com ódio. Mandam emails com palavrões, boicotam livrarias, ameaçam de morte.

*Toooodas as pessoas de esquerda? Não, claro que não.
**Minha definição de direita (roubada do Giovani): o oposto de esquerda. Se a esquerda se caracteriza por querer que o estado seja forte e onipresente, a direita é o contrário. Ou seja: seu tio bronco que defende Mussolini não é de direita, é de esquerda como você, Billy Boy.

13.4.03

Borges e Burgin
Em 1967 um professor americano chamado Richard Burgin entrevistou Borges durante horas e horas (o detalhe esquisito é que ele conseguiu o contato com uma brasileira chamada Mosca).

BURGIN: Você é um escritor metafísico, mas tantos escritores, como por exemplo Jane Austen, Fitzgerald ou Sinclair Lewis, parecem não ter tido nenhum sentimento metafísico.

BORGES: Quando você diz Fitzgerald, está pensando em Edward Fitzgerald, não? Ou Scott Fitzgerald?

BURGIN: Sim, o último.

BORGES: Ah, sim.

BURGIN: Eu só quis mencionar o nome de um escritor que essencialmente não tinha nenhum sentimento metafísico.

BORGES: Ele estava sempre na superfície das coisas, não? Afinal de contas, por quê não deveríamos fazer isso, não é?

BURGIN: É claro que a maioria das pessoas vive e morre sem jamais pensar, aparentemente, no problema do tempo e do espaço e do infinito.

BORGES: Bem, porque elas não se espantam com o universo. Não se espantam com as coisas. Não se espantam consigo mesmos. É verdade. Nunca se espantam com nada, não é? Não acham estranho estarem vivendo. Lembro que a primeira vez que senti isso foi quando meu pai me disse, “Que estranho”, ele disse, “que eu esteja vivendo, como se diz, atrás dos meus olhos, dentro da minha cabeça.(...)” E então, foi a primeira vez que senti isso, e imediatamente comecei a pensar nisso, porque eu entendia o que ele estava dizendo. Mas muitas pessoas não conseguem. E dizem, “Bom, mas onde mais você poderia viver?”


(Gosto bastante de Scott Fitzgerald, mas sempre gostei dele com algum desprezo, e acho que a explicação está aí.)

A entrevista foi publicada em forma de livro, “Conversations with Jorge Luis Borges”. Ah, na página 50 desse livro há esta bela defesa do romance policial - que é, ao mesmo tempo, uma bela condenação do romance muderninho:

BORGES: ...as pessoas pensavam neles (os romances policiais), como devem ter pensado dos Westerns, como mera diversão. Acho que esses livros fizeram muito bem, porque lembraram aos escritores que o enredo é algo muito importante. Se você lê um romance policial, e depois lê outro romance qualquer, a primeira coisa que você percebe – é injusto, claro, mas acontece – é achar os outros livros sem forma. Ao passo que no romance policial tudo é perfeitamente encaixado.

Só mais isto, sobre Sartre:

BORGES: Acho que o existencialismo favorece um certo tipo de vaidade. Conheci Sartre e ele me elogiou. Naturalmente, é uma grande coisa para um argentino ser elogiado por um francês, não? Mas nunca gostei dele.

BURGIN: Pessoalmente, você quer dizer?

BORGES: Não, não, não. Não gosto de pessoas que se dedicam à propaganda. Não acho que ele devia ter permitido que chamassem um café de Café Existencialismo. Acho que o Bispo Berkeley não faria esse tipo de coisa, ou Schopenhauer. E não conseguia pensar nele como um cavalheiro, embora, é claro, essa seja outra palavra antiquada, não?

BURGIN: Infelizmente.

BORGES: Infelizmente, sim. Acho que a espécie está morrendo, ou já morreu. É uma grande pena.



12.4.03

A Musa Monótona
Polêmica num jornal. Professores de literatura sempre escrevem cartas indignadas contra jornalistas polêmicos. E pedem sempre a mesma coisa: chatice. Ah, claro, eles usam outras palavras para designar a chatice que querem e amam: fundamentação teórica, ponderação, equanimidade, o que seja. Mas o que querem é chatice mesmo. Esse é o negócio deles; estão no negócio da monotonia; vendem monotonia por hora e por lauda. Um acadêmico é, para usar as expressões do Ruy Goiaba, um virtuose da chatice, um Andrés Segovia do pé-no-saco. Pode até parecer, em alguns momentos, que eles estão apaixonados pelos assuntos que ensinam: topologia, areopagítica, sânscrito, crítica genética; mas não, nein. Sua paixão é causar nos alunos, nos leitores de jornal, e (o que é muito pior) em si mesmos, os efeitos clássicos da musa monótona: as pálpebras pesadas, as maxilas travadas dos bocejos escondidos. E o jornalismo cedeu, se matou. Em breve toda crítica de jornal virá com bibliografia, e você vai ter que ler tudinho e fazer fichamentos.

11.4.03

Razão
Um filósofo franzino divulgou que iria vencer um peso-pesado usando métodos puramente racionais. Os jornais chamaram a luta de “a Batalha da Força e da Inteligência”, e sessenta mil pessoas foram ao estádio. Mas o filósofo não aparecia. Um homem musculoso foi até o corner em que ele devia estar, e entregou ao treinador um bilhetinho em que se lia: “Este homem lutará por mim; coisa que, todos concordarão, é perfeitamente racional.” E quando se descobriu que o dinheiro da bilheteria havia sumido, todos também concordaram que isso era perfeitamente racional.


História do Rei de Champagne
Uma rainha viu cinco filhos seus serem assassinados no berço. Quando ficou grávida do sexto, decidiu não deixá-lo nascer até que fosse forte o suficiente para se defender de seus inimigos. E a criança foi crescendo lá dentro. Professores sussurravam aulas de latim, grego, poesia, história, matemática e política junto à barriga da mãe, e uma voz era ouvida respondendo os exercícios. Meninos de sua idade eram arrastados para o lado do trono, e respondiam às perguntas do príncipe sobre como era o mundo.

Um dia, devido ao desconforto causado pelo tamanho do filho, que já era um homem, a rainha morreu. Durante dois dias o príncipe se recusou a sair; mas quando afinal o cheiro o sufocou, gritou que rasgassem a barriga da mãe, ou morreria. Um cortesão fez um rasgo com uma espada no cadáver da rainha, e de lá de dentro saiu o novo rei, molhado, sangrado, transido de frio. Diz a história que parecia muito assustado, e que durante muito tempo ficou na escadaria de pedra, de costas para o cadáver da mãe, chorando com a cara no chão.

10.4.03

Razão
Dois amigos discutem. Um tenta usar a razão para convencer o outro, e é perfeitamente lógico. Mas o outro não se convence; diz “É, mas...” - e encolhe os ombros. Razão é aquilo que vem logo antes de um "É, mas..."


Crianças
Na quadra do meu condomínio, cinco ou seis moleques gritam palavrões com vozes grossas de criminosos. Até as conjunções são palavrões. Isto é a infância, jovem mamãe. Se um presidiário desavisado interrompesse um pouquinho suas sodomias e decapitações matinais e chegasse perto da quadra, ficaria chocadíssimo com a boca desses molequinhos. Sim, o seu filho, o seu meigo filho Adolfinho, chocaria um presidiário.


No máximo
Condoleezza Rice leu Guerra e Paz em russo, tocou piano com Yo-Yo Ma. Mas tudo que Arnaldo Jabor sabe dizer sobre ela é que ela tem "... umas pernas bonitas de negona e cabelo de chapinha", e que ela “quer ser branca”. Humm. Arnaldo Jabor quer ser branco também, mas no máximo consegue ser carioca.

9.4.03

Modéstia
Uma pessoa, se acha que é um gênio, deveria ser capaz de dizer isso com a mesma calma com que diz, se tem uma maçã na mão, que tem uma maçã na mão. E se você tem uma maçã boa na mão, é meio torpe dizer que na verdade é uma maçã podre.


Autoridade
"Não tenha medo da palavra autoridade. Acreditar em coisas baseado na autoridade de alguém significa apenas acreditar nelas porque isso lhe foi dito por uma pessoa que você julga confiável. Noventa e nove por cento das coisas nas quais você acredita são acreditadas na base da autoridade. Eu acredito que exista um lugar chamado Nova Iorque. Não vi esse lugar pessoalmente. Não poderia provar com raciocínios abstratos que tal lugar deve existir, acredito nele porque pessoas confiáveis me disseram para fazê-lo. O homem comum acredita no sistema solar, átomos, evolução, e a circulação do sangue, na base da autoridade – porque os cientistas disseram. Todas as afirmações históricas do mundo são acreditadas na base da autoridade. Nenhum de nós viu a Conquista Normanda ou a derrota da Armada. Nenhum de nós poderia prová-las com lógica pura do modo com que se prova coisas na matemática. Acreditamos nelas simplesmente porque pessoas que as viram deixaram textos que nos contam sobre elas: portanto, baseados na autoridade. Um homem que desprezasse a autoridade em todas as coisas do mesmo modo que outras pessoas desprezam a autoridade na religião teria que se contentar em não saber coisa alguma na vida."
(Sempre quis dizer isso, mas C.S.Lewis disse antes, em “Mere Christianity”, livro 2, capítulo 5)


A.E. Housman
Amelia mixed the mustard,
She mixed it good and thick;
She put it in the custard
And made her Mother sick,
And showing satisfaction
By many a loud huzza
“Observe” said she “the action
Of mustard on Mamma.”



Guerra
isto . Isto também é “collateral damage”?

8.4.03

Os chocáveis
Antigamente a esquerda chocava, a direita ficava chocada. A imagem da direita era um senhor bronco, de óculos de aro preto e pesado, cara de fúria, e veias em relevo no pescoço. Era muito fácil chocar esse sujeito, e todo o rock and roll foi criado só pra isso. Todos aqueles jovenzinhos deslizando suas brancas e murchas nádegas na lama de Woodstock, foi só pra isso. A entrevista da Leila Diniz no Pasquim. Só pra isso. Só pra fazer a boca desse cara se abrir de espanto.

Agora é bem o contrário, é a esquerda que se choca com tudo. O politicamente correto é a versão da esquerda das veias saltadas no pescoço e na testa daquele senhor bronco. Eles se tornaram o senhor bronco, só que com um óculos de modelo diferente, e se chocam com tudo: o uso da palavra preto numa piada, a defesa da monogamia, dos patrões, do papa.

E enquanto isso o pôster de Che Guevara foi trocado pelo de Gustavo Corção. Aquele velhinho carcomido foi o verdadeiro Rebelde do Século, porque as suas idéias, se postas em prática, mudariam muito mais o mundo do que um simples socialismo utópico de segunda.


Tenho que dizer
Ei, Curb Your Enthusiasm. A série da HBO, com Larry David, co-produtor de Seinfeld. Esperei meses pra ver, e é ainda melhor do que eu esperava. Num mundo ideal, sacrificariam os sobreviventes do elenco de Beverly Hills 90210 para, com a comida poupada, pagar Larry David e não cancelar o programa nunca. E não tem sequer risadas de fundo.

7.4.03

Uma pequena demonstração de como os escritores brasileiros são covardes.

Simplificando muito, há duas escolas de romances policiais: a inglesa e a americana. A escola inglesa é aquela em que o detetive é cerebral, o assassinato é um quebra-cabeças, e a história se passa num ambiente de classe alta, uma casa de campo, ou mesmo algo exótico como um zoológico em Bombaim ou um monomotor francês sobrevoando o Egito. A escola americana é aquela em que o detetive é durão, o assassinato é sórdido, e a história se passa em ruas pobres, becos mijados, docas cagadas. Mansões podem aparecer nas duas escolas, mas na inglesa a filha do dono da mansão é viciada em romances policiais e estuda arqueologia. Na escola americana a filha do dono da mansão é viciada em heroína e fica chupando o polegar o tempo todo para demonstrar que é ninfomaníaca e ainda por cima meio retardada.

É claro, ça va sans dire, que há ingleses que escrevem segundo a escola americana, americanos que escrevem segundo a escola inglesa, e autores de qualquer nacionalidade que misturam as duas escolas, um pouquinho, só para complicar. Mas vamos ignorar essas sutilezas um segundo para continuar com o argumento.

Por algum motivo, foi convencionado que a escola americana é literatura, mas a escola inglesa não. Para mim essa convenção é misteriosa: por quê raios matar um traficante com uma pá num beco mijado é literário, mas matar um coronel enfiando uma adaga malaia na nuca dele não é literário? Suponho que tem algo a ver com o que os críticos, lá no jargão deles, chamam de realidade (uma superstição como outra qualquer). Mas enfim.

Pois bem, ensinaram aos autores brasileiros que a escola americana é literária, e a inglesa não. E portanto, como good little, good little boys que são, escritores brasileiros se puseram a escrever prateleiras inteiras de romances policiais segundo a escola americana, e nunca a inglesa. Nunca, nunca a inglesa...

Alguém com coragem não agiria assim. Mas os escritores brasileiros, antes de começarem a escrever, perguntam aos críticos se podem.

6.4.03

Stiff upper lip
“There are times when there's something to be said for stiff-upper-lipped English public-school emotional repression, and war is one of them.”
(Mark Steyn, falando sobre a relativa calma da imprensa inglesa, em comparação com uma certa histeria e derrotismo da imprensa americana. Tradução ruinzinha: “Há momentos em que se deve defender a repressão emocional, estóica, característica das escolas públicas inglesas – e a guerra é um deles.”)

5.4.03

Filisteus
No filme Sunshine, de Istvan Szabo, Ralph Fiennes é um esgrimista judeu na Hungria, na década de trinta. Quando leis anti-judeus são promulgadas, ele pede o conselho do presidente do clube militar, que faz uma cara de nojo e diz algo mais ou menos assim: “Antisemitas são sempre filisteus. É algo de terrível mau-gosto. Não sei quanto tempo vou agüentar isso...”

E me parece verdade, completa verdade. Não é por acaso que Hitler e Stalin e Lênin eram filisteus grotescos (e não nos esqueçamos daquele palhacinho serial-killer que pinta quadros de palhacinho chorando). Eis porque acho que a estética é uma disciplina superior à ética - porque a estética contém a ética. O mal é uma forma de mau gosto. O que é o bom gosto? É simples. Gostar do que é bom. Não gostar do que é mau. (Repita comigo: gostar do que é bom. Não gostar do que é mau. Simples, nein?)


Cultivo do gosto
É preciso aprender a abominar a crueldade como se abomina a ruindade de um quadro kitsch. Ter a mesma sensação que se tem quando se ouve música muito ruim numa sala e se é obrigado a sair dela. E se me objetarem com o clichê do nazista culto, que toca piano e cita Goethe, digo que a solução para o nazista culto não é desenvolver nele um súbito mau-gosto, uma paixão repentina pela trilha sonora de Titanic. Se falhou em relação ao bom gosto, é porque deveria ter mais, não menos.

Ouço já vozes melífluas me perguntando o que é, afinal, o bem. Sei lá eu o que é o bem; mas é algo que reconhecemos em quadros bons, poemas bons, músicas boas, pessoas boas. Algo está simplesmente certo nessas coisas.

4.4.03

Vamos, negue. I double dare you.
Todo mundo é esnobe. Você não se apaixonaria por uma mulher chamada Vandicleusa.


Arsène Lupin, Gentleman Cambrioleur
O mundo precisa de ladrões de jóias que se vistam de preto e toquem piano. Numa das histórias de Maurice Leblanc, o gentleman-cambrioleur Arsène Lupin manda uma carta para um rico ignorantão. O mundo ficou mais bonito para mim depois que eu li essa carta. Espera, vou procurar o livro e citar corretamente, vale a pena:

"Senhor barão,

Há, na galeria que une seus dois salões, um quadro de Philippe de Champaigne de execução excelente e que me agrada muitíssimo. Seus Rubens são também do meu gosto, tanto quanto o Watteau menor. No salão da direita, destaco a credência Luís XIII, as tapeçarias de Beauvais, o velador Império assinado por Jacob e o baú Renascença. No da esquerda, todo o mostruário de vidro de jóias e miniaturas.

Por esta vez, me contentarei com esses objetos que serão, creio, de fácil saída. Peço-lhe, pois, que os faça embalar decentemente e expedir em meu nome, com porte pago, para a estação de Batignolles antes de oito dias. Sem isso, eu próprio os deslocarei na noite de quarta-feira, 27, ou quinta, 28 de setembro, e, como é justo, não me contentarei com os objetos acima indicados.

Queira desculpar o pequeno estorvo que lhe causo e aceitar a expressão de meus sentimentos de respeitosa consideração.



Arsène Lupin


P.S. – Sobretudo não me envie o Watteau maior. Embora tenha pago por ele mil francos no Hotel de Vendas, não passa de uma cópia, tendo sido o original queimado, sob o Diretório, por Barras, numa noite de orgia. Consulte as memórias inéditas de Garrat.

Não faço questão também da corrente com pedras Luís XV, cuja autenticidade me parece duvidosa."


(Adoro o detalhe do “...expedir em meu nome, com porte pago”. Coisas simples assim me fazem feliz.)

Gentleman-cambrioleur - está aí um curso do SENAI que eu apoiaria. Malditas nossas escolas que não treinam as crianças para a profissão de ladrão sofisticado de jóias em Cap d'Antibes. Só ladrões barrigudos que nunca leriam as memórias inéditas de Garrat.

Ah, é claro: o dono da casa não segue a recomendação de Lupin, e chama a polícia, que vigia a casa. Os objetos especificados, mais outros (tapeçarias, castiçal do Regente, candelabros Luis XVI, e uma Virgem do século VII), somem. O detalhe: Lupin estava preso nessa época, numa cela na prisão de Malaquis. Essa história aparece num livro chamado, justamente, Arsène Lupin, Gentleman Cambrioleur, que foi publicado no Brasil como Ladrão de Casaca, traduzido por Paulo Hecker Filho e publicado pela Nova Fronteira.


Eureca!
Se todos os presos usassem máscaras e uniformes listrados, as rebeliões iam ficar mais charmosas.


3.4.03

Vejam lá
Hoje lhes peço que vejam a entrevista que dei ao Paulo Polzonoff (post do dia 2 de Abril), e a crítica que ele escreveu do meu romance; verão que o seu gentil narrador, este mesmo que vos fala, às vezes resvala numa ocasional assholice, falando mal de supostos colegas de profissão - movido pelo que pode parecer despeito, mas não é, é o fogo sagrado da verdade, ou algo muito parecido. Humm. E verão que o Polzonoff foi inenarravelmente gentil comigo e meu livro. Bem, vão lá - e tenham um bom dia.


Esperem!
Mas não, não posso deixar que vocês partam sem antes lhes oferecer um poema que seja. Czeslaw Milosz (na tradução de Robert Hass):

It's not up to me to know anything
about Heaven or Hell.
But in this world there is too much
ugliness and horror.
So there must be, somewhere, goodness and truth.
And that means somewhere God must be.


(um trecho do poema "Helene's Religion", do livro "Road-Side Dog")

Pronto, só isso. Podem ir. Divirtam-se.

2.4.03

Meu passado comunista
Fui comunista uma vez, quando era adolescente. Durou cinco minutos durante uma noite de insônia. Decidi que era razoável e justo; mais ainda: decidi que era empolgante. Fiquei repetindo para mim mesmo: Sou comunista! Sou comunista! Fiquei me visualizando depois da revolução, dando ordens, mandando executar meus inimigos (na maioria apresentadores de televisão, mas incluindo uma professora de geometria chamada Olanyr, que era má, e uma professora de matemática chamada Neves, que era perneta. E má.) Me imaginei num vagão de trem só para mim (Camarada Soares! Os últimos despachos de Moscou), com duas coristas sentadas no meu colo (visualizei até as mouches nos lábios delas), bebendo champanhe, e lendo as obras proibidas de algum degenerado autor burguês que eu secretamente apreciaria. Devo ter imaginado, também, minhas duas dachas gigantescas na Mata Atlântica, onde promoveria orgias ouvindo Irving Berlin. Mas cinco minutos depois percebi, para usar um termo caro à patuléia teutônica, as contradições internas dos meus planos, a infelicidade do molequinho que quer desenhar mangá mas é forçado pelo estado a ser go-go boy ou algo assim, fora os gulags, a polícia secreta, a fome, a má literatura; e com um certo alívio (devo confessar, com um grande alívio) disse para mim mesmo, não, não sou comunista, fazendo assim aos quinze anos, em cinco minutos de insônia, o que muitas bestas não fizeram em vinte anos. O que muitas bestas não fizeram até hoje.

Mas confesso também: ainda agora quando ouço a palavra comunista, tenho uma visão de mim mesmo vestindo uma capa de couro preto, como Trótski (mas sem a picareta, que apesar de muito in, é brega), com uma cocotte linda em cada braço, ao som de Viva Las Vegas.

1.4.03

I'm a Proud Friend of Israel
Comprei um livrinho de Roger Scruton sobre Espinosa, e logo na segunda página há um trechinho de uma carta de Espinosa para um amigo:

No que está em mim, valorizo, acima de todas as coisas fora do meu controle, o amigável aperto de mãos entre homens amantes da verdade. Acredito que (...) nada no mundo traga mais paz do que a possibilidade de um relacionamento afetuoso com tais homens. É impossível que o amor que temos por eles possa ser perturbado... da mesma forma que a verdade, uma vez percebida, possa não ser aceita.

É evidente que Espinosa nunca fez parte de uma lista de discussão.

Aliás fico imaginando como seria se Espinosa vivesse na época dos computadores. Abriria um blog chamado Ética, cuja primeira entrada seria esta:

Por causa de si entendo aquilo cuja essência envolve a existência; ou por outras palavras, aquilo cuja natureza não pode ser concebida senão como existente.
posted by Spinoza at 1:00

E imagino os comentários.

Comments: 5

Cara, e daí? Se liga!!!!
Jakke [Homepage] 01-04-2003 01:16:32

Visitei o seu site e gostei muito! Também tenho um site que é muito legal. Dá uma olhada: http://luizenrique.com – Acidez Mental e Estomacal! Vamos trocar links?
Luiz Enrique [Homepage] 01-04-2003 01:25:20

Mais uma vez a Internet brinda-nos com mais um blog de papa-hóstea. Quando é que esse pessoalzinho da direiteca olavo-de-carvalheana vai perceber que a ditadura acabou? Percebam o fascismo do cara, nos forçando a acreditar na existência da essência do escambau. É rir para não chorar...
Edgalsson Filho [Homepage] 01-04-2003 08:52:04

Edgalsson, o cara é judeu...
Jorilmar [Homepage] 01-04-2003 12:23:40

Falha minha, bem devia ter notado a bandeirinha “I’m a Proud Friend of Israel” aí à esquerda. Repara, o cara não diz uma palavrinha contra o Sharon. Continuo dizendo: é rir para não chorar...
Edgalsson F. [Homepage] 01-04-2003 14:50:02