Falando bem dos irmãos CamposTodos os meus amigos detestam os irmãos Campos e seu
delicias domini Décio Pignatari. Eu também. Mas, para dar aos meus amigos um choque, quero agora defender essas três figuras sinistras. Há quem amigavelmente jogue ovos nos amigos, ou puxe a cueca deles para fora da calça; eu, para causar um efeito semelhante, defendo os irmãos Campos e o agregado deles. Uma espécie de brincadeira de mão da mente.
Andei lendo o que eles escreveram, à procura de algo que me agradasse. Encontrei isto,
“...papoulas de ar”,
que está lá escondidinho num verso do
Soneto de Bodas, de Haroldo de Campos:
Luar de copas e marfins renhidos
Tua nudez a riste contra o mar.
Violetas roucas sobre os teus soluços.
E rosas tênues e papoulas de ar.
Um novo deus conjura os vaticínios,
E eu sorvo o mês, em taças, contra o mar,
Tua nudez orçada em meus espelhos,
E rosas tênues e papoulas de ar.
Quem te ensinara o diapasão das noivas
Embevecido em lírios de ninar?
Ó Bem-Amada, quem te apascentara
Nos mansos trigais desse apascentar?
Plumas de outono para as tuas bodas
Que defloresces nos porões do mar.
Aliás, não é um soneto muito ruim. Muito ruim, não. Mas só gostei desse “papoulas de ar”, que é legalzinho; e um pouco de “...nos porões do mar”.
Foi só isso que encontrei de bom, no entanto, em tudo que esses três escreveram.
(A melhor definição Desses Três que já ouvi foi dada distraidamente pelo meu amigo Dundas, num sonho em que o visitei na sua casa do Paraíso. Li para ele alguns versos de Augusto de Campos:
“A língua: a lânguida rainha melancálida
(
Dundas aqui ergueu a cabeça do livro que estava lendo, se interessando)
enrolada em seu bathbreathbanho palatino
(
aqui ele voltou a ler, se desinteressando),
a sempitépida, a blendalmolhada e alqueblându-las
(
quando disse para ele que alqueblându-las tinha um travessão entre du e las, ele riu pelo nariz)
cobras corais como cópulas de oravoz”...
(
e aqui ele olhou rapidamente pra mim, como se eu tivesse ferido os seus sentimentos.)
-Que acha?
-Ah! Um
Lewis Carroll solene.
E voltou a ler o seu livro.)
E agora me dizem que Haroldo de Campos lançou uma tradução da
Ilíada. A única vez que tive sangramento nasal quando adulto foi ao ler a tradução de Odorico Mendes da
Ilíada. Foi justamente neste trecho:
A íngreme Trioessa à margem fica
Do Alfeu, na extrema da arenosa Pilos:
Na ânsia de
sorvetê-la, a sitiavam...
Foi bem na palavra
sorvetê-la, se me lembro bem . E ainda querem que leia a tradução de Haroldo de Campos? Abri o livro ao acaso na Livraria Cultura e fiquei com a impressão que Haroldo se referia a Aquiles como "fera ferida". Fechei o livro antes que descobrisse que ele se refere a Juno como "uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel" - o que aposto que ele faz, porque evidentemente adora Maria Bethânia.
E depois, como reparou o
Polzonoff, essa edição dá mais destaque na capa a Haroldo de Campos que a Homero. Isso sempre me irrita. Nos anúncios de peças de teatro, por exemplo, é sempre assim:
Rei Lear
DE: ZÉ DAS COUVES
Com: Maria das Couves
Uma Promoção: Wet and Wild and Amazing Parking System Dude
texto: william shakespeare
Bom, vejo que acabei não falando bem nem dos irmãos Campos, nem do Décio Pignatari. Mas bem que tentei! Me dêem ao menos crédito por ter tentado.