Inteligência e gosto
Às vezes acho que há excesso de inteligência tanto em críticos quanto em escritores. Não digo que seja preciso ser burro; digo que a inteligência tem que ser discreta.
Tantos críticos mordendo os lábios enquanto lêem uma frase escrita em dez segundos por Dickens, digamos. Sublinhando coisas. Fazendo análises sintáticas. Fazer análise sintática é pecado. E as coisas que eles vêem ali: o sistema jurídico na Inglaterra vitoriana; a condição dos órfãos na Inglaterra vitoriana; patati, patatá. Se querem estudar alguma coisa, por que não vão estudar uma rocha, um xaxim, um sapo?
Está certo que algumas obras exigem estudo, inteligência, e até mesmo teoria. A
Divina Comédia, por exemplo. Mas não são muitas. Para ler
Madame Bovary, tudo que você precisa é atenção. Esqueça
o retrato da burguesia francesa provinciana no final do século XIX e toda essa papagaiada asquerosa.
Philip Larkin falando sobre certos tipos de poemas: dizendo que odeia
the boring too-clever stuff. Poetry that can’t be understood without footnotes: “See the picture ‘A dog buried in the sand’ among the Black Paintings of Goya in the Prado.” Why the fucking hell should I?’*
E Nabokov, sobre romances:
It seems to me that a good formula to test the quality of a novel is, in the long run, a merging of the precision of poetry and the intuition of science. In order to bask in that magic a wise reader reads the book of genius not with his heart, not so much with his brain, but with his spine. It is there that occurs the telltale tingle even though we must keep a little aloof, a little detached when reading. Then with a pleasure which is both sensual and intellectual we shall watch the artist build his castle of cards and watch the castle of cards become a castle of beautiful steel and glass.**
Ao que acrescento duas testemunhas. Stravinsky, que disse:
Diaghilev não era um intelectual. Era muito inteligente pra isso. E depois, intelectuais não têm gosto. Nunca houve um homem de mais bom-gosto que Diaghilev.
É exatamente esse o problema -
intelectuais não têm gosto. Você lê esses livros de crítica poética com diagramas e análises sintáticas, ou essas histórias da literatura sob a ótica feminista, e
sabe que esses filisteus jamais gostaram de um verso só por gostar.
A segunda testemunha sou eu mesmo, que escrevi este poeminha em inglês, me referindo à obra crítica do überfilisteu Sartre:
I know a critic whose whole work is waste.
Too much intelligence. Too little taste.Humm, fico envergonhado de terminar assim, com o meu poeminha. Mas não tenho mais nada pra falar. Tchau, tchau! Vão pela sombra, essas coisas todas.
* (“... as que são chatas e excessivamente inteligentes. Poesia que não dá pra entender sem nota de rodapé: “Ver o quadro ‘Cão enterrado na areia’ entre os Quadros Negros de Goya no Prado.” Por que diabos eu faria isso?”)
** (“Me parece que uma boa fórmula para testar a qualidade de um romance é, em longo prazo, uma fusão entre a precisão da poesia e a intuição da ciência. Para apreciar essa magia o leitor sábio lê o livro de gênio não com o coração, e nem tanto com o cérebro, mas com sua coluna. É lá que acontece o revelador arrepio, embora precisemos nos manter um tanto distantes, um tanto frios enquanto lemos. Então, com um prazer que é ao mesmo tempo sensual e intelectual, veremos o artista construir seu castelo de cartas, e veremos o castelo de cartas se tornar um castelo de lindos aço e vidro.”)
Ah simPara quem perdeu ontem, me deixem resumir minha engenhosa argumentação em defesa da França. Era
isto.