A Multidão Sozinha
A esquerda, que é todo mundo, se acredita sozinha. Negam que sejam todos de esquerda. Cada um assume que é só ele, e mais uns poucos. O que dá uma multidão de gente dizendo que está sozinha, de costas contra a parede, e que os dois ou três sujeitos lá no meio, que se declaram de direita, são uma turba.
E se os dois ou três sujeitos dizem que a situação é a inversa, a multidão ri da idéia de que seja uma multidão. Dois milhões de bocas chamam os três sujeitos de paranóicos.
Durante muito tempo eu lia as colunas de Carlos Heitor Cony na Folha, e ele sempre assumia a postura romântica de “a única voz clamando contra Fernando Henrique Cardoso”. Claro, se fosse verdade, seria muito romântico mesmo. Mas o que dava o efeito cômico era que todas as outras colunas na mesma página estavam falando mal de Fernando Henrique Cardoso.
Nada de novo nisso. É uma velha, muito velha postura romântica. Chesterton descreveu Chamberlain assim, no livro
Heretics: “He has one power which is the soul of melodrama--the power of pretending, even when backed by a huge majority, that he has his back to the wall.”
A esquerda é assim agora, e até acho que são sinceros, que se sentem assim mesmo. Para cada pessoa de esquerda, a multidão não é suficientemente de esquerda; logo, para eles, não são de esquerda de modo algum. Os jornais, a mesma coisa. O sujeito de esquerda acha que a Folha não é suficientemente de esquerda, e que portanto não é de esquerda de modo algum. Só ficaria satisfeito se as manchetes dissessem MORRAM PORCOS CAPITALISTAS.
Umas cem pessoas, digamos, apareceram na Internet, aqui, nos Estados Unidos, na Europa, e fazem oposição à esquerda. Aparecem na Internet justamente porque é o único lugar que restou. Mas isso é intolerável para o sujeito de esquerda que dá uma entrada na Internet e se sente sufocado por uns três blogs que se linkam mutuamente. “Isso é intolerável, intolerável! Olha só, três blogs de sujeitos que não são de esquerda! E linkam outros blogs que não são de esquerda!” E mal podem respirar, e rolam no chão com dores no fígado.*
Vou lhes dizer uma diferença essencial, psicológica, não-ideológica, entre pessoas de esquerda e de direita. Pessoas de direita são
mais civilizadas que as pessoas de esquerda. E provarei isso em três passos mui simples.
1) A convivência com pessoas de opiniões diferentes civiliza.
2) Não há pessoa de direita que não tenha amigos de esquerda. Não há. Pelo simples fato de que quase todo mundo é de esquerda. Logo, a pessoa de direita faz amizades com pessoas de esquerda, casa com pessoas de esquerda, tem filhos e patrões de esquerda. Pode até assumir um tom raivoso contra a esquerda quando está escrevendo, mas pessoalmente faz piadas a respeito, e zomba gentilmente, carinhosamente, das opiniões que acha de titica. E portanto tem uma reação civilizada em relação à esquerda.
3) Muito poucas pessoas de esquerda conhecem alguém de direita. Porque há tão poucas pessoas de direita**. Logo, não são civilizadas pelo contato com pessoas que pensam diferentemente. O resultado é que encaram pessoas de direita como monstros. E reagem com ódio. Mandam emails com palavrões, boicotam livrarias, ameaçam de morte.
*Toooodas as pessoas de esquerda? Não, claro que não.
**Minha definição de direita (roubada do
Giovani): o oposto de esquerda. Se a esquerda se caracteriza por querer que o estado seja forte e onipresente, a direita é o contrário. Ou seja: seu tio bronco que defende Mussolini não é de direita, é de esquerda como você,
Billy Boy.